Luxo

Conheça o endereço eleito para o chá da rainha

Na terra do afternoon tea, reinam soberanos o cardápio e o salamaleque do palm court do The Langham

Por: Erika Kobayashi, de Londres - Atualizado em

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Um aroma floral paira no ar depois de uma garçonete cruzar, bandeja de prata em punho, o tapete lilás em direção ao piano de cauda, no canto oposto do palm court do hotel The Langham, em Londres. Acomodada na poltrona de veludo, espero para degustar o chá-branco responsável pelo perfume, aromatizado com rosa, hibisco e rosa-mosqueta. São 5 e meia da tarde, a hora mítica do afternoon tea, no salão mais antigo do mais inglês dos rituais. A decoração, fato, mudou desde 1865, ano da inauguração do hotel, no ponto alto da Regent Street. A mais recente reforma eliminou as palmeiras que justificam o nome “palm court” nos salões de chá dos hotéis.

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Ao abrir as portas, o Langham se tornou o endereço eleito pela corte vitoriana para desfrutar em público um hábito adquirido nas duas décadas anteriores e reservado aos aposentos íntimos. Reza a lenda que Anna Russell, duquesa de Bedford e amiga da rainha Vitória, adotou o lanche entre o almoço e o jantar, regado a Darjeeling, novidade na época (começou a ser cultivado em 1841). Satisfeita com a indulgência, decidiu convidar as amigas para acompanhá-la. Do cardápio de pães  com geleia, o Darjeeling da tarde passou a ser um  desfile de petiscos salgados e doces servido nas melhores porcelanas, degustado por convivas  bem-vestidos e segundo uma etiqueta própria. Mais do que moda, o rito virou uma  instituição inglesa, um povo cujo gosto pelo chá alavancou  nada menos do que a produção nas regiões de Darjeeling e Ceilão, na Índia, no século XIX, para concorrer com a China.

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O palm court onde nasceu o chá da tarde: depois dele, vários hotéis passaram a oferecer o mesmo serviço (Foto: Divulgação)

Não é só o fato de ter sido o pioneiro que torna o Langham excepcional diante da fina concorrência (a oferta vai além dos cinco-estrelas, sem dúvida, a ponto de existir um site especializado em reservas, sempre imprescindíveis, que cobre todo o Reino Unido, o afternoontea.co.uk). Há o Ritz e o Dorchester, ambos com dress code restrito, que proíbe jeans e exige paletó e gravata é não à toa destinos de grandes damas e cavalheiros. No The Connaught, um trunfo são as geleias caseiras e originais da francesa Christine Ferber, feitas na Alsácia: pense framboesa com violeta ou pera com baunilha. O salão com paredes de madeira e o tea-torial, a aula de degustação, fazem do chá do Brownís uma imersão na cultura local. O Berkeley é um prato cheio para as vítimas da moda, com doces em forma de bolsas e sapatos cujo design segue o último grito da passarela.

O que resta ao Langham é mais do que suficiente: agradar aos amantes de chá, partindo da maior carta para então combiná-lo com as guloseimas. A seleção é dividida em pretos, pretos perfumados, verdes, verdes perfumados, brancos, amarelos, oolongs, pu-erhs, infusões e o Tregothnan, produzidos desde 1335, em Cornuália, 335 quilômetros  a sudoeste da capital. São trinta sugestões, devidamente decifradas por um tea sommelier ó sem falar nas misturas de sabores elaboradas pelo master tea Alex Probyn, da Blends for Friends (por 10 libras, leva-se para casa uma lata de 80 gramas). “O afternoon tea aqui é como uma caixa de joias”, diz Jane Pettigrew, autora de quinze livros sobre chás e nomeada a melhor educadora no assunto pelo World Tea Awards de 2014. O menu sugere três opções, servidas em porcelana inglesa Wedgwood, numa seleção de pequeninos sanduíches, os scones (pães macios, quentes e acompanhados de manteiga e geleia), e doces, por cerca de 185 reais por pessoa. O tea sommelier ajuda a combinar a bebida quente com as receitas. Um chá baunilhado de sabor cremoso acentua o gosto dos scones. Até um simples sanduíche de pão branco com manteiga, harmonizado com um chá-preto com folhas das melhores colheitas de Assam e Darjeeling, as principais regiões produtoras na Índia, revela o poder de conforto espiritual do lanche.

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Na Regent Street, o Langham abriu em 1865: ponto de encontro da nobreza britânica (Foto: Divulgação)

A sequência do ritual é clássica. O que muda, segundo Pettigrew, é a criatividade das receitas. As surpresas chegam na hora da sobremesa, assinadas pela chef pâtissier singapurana Cherish Finden, uma das melhores da Inglaterra e nessa cozinha desde 2009. O eton mess, típica mistura de suspiro, creme e morangos oferecida em taça, ganha forma de pirulito na releitura de Finden. Não se trata de uma escolha estética e lúdica. Dentro do canudo, há camadas de geleia de framboesa, chocolate branco e musse de framboesa ó e os sabores se mesclam apenas na boca. Uma combinação de texturas aparece no dome de manga e maracujá, servido sobre uma massa de biscoito amanteigado. Quatro blends de chá, cinco tipos de sanduíche, seis variedades de sobremesa, e mais tarde me dou conta de que se passaram duas horas. Nesse intervalo, os garçons não fizeram nada a não ser me servir. “Os atendentes estão sempre prontos para trazer um novo bule e não pressionam para pedir a conta e liberar a mesa para outros clientes ”, diz Pettigrew. Parece óbvio, mas muitos endereços privilegiam a rotatividade para atender o maior número de turistas possível. Aqui, com o tempo a perder de vista, entendo o prazer da duquesa de Bedford e me sinto uma rainha. Só me faltam mesmo as palmeiras do século retrasado.

Fonte: VEJA SÃO PAULO