Relações conturbadas

Conflitos entre pais e filhos nos palcos da cidade

“Antes de Mais Nada” e “Incêndios” estão entre as opções

Por: VEJA SÃO PAULO

Rei Lear
Juca de Oliveira estrela essa adaptação da tragédia de William Shakespeare (Foto: João Caldas)

Os conflitos entre pais e filhos norteiam as tramas de cinco montagens que podem ser vistas na cidade.

  • O tema da velhice corre o risco de se perder em obviedades. Com dois livros — um romance e um de contos, a ser lançado —, o escritor Flavio Cafiero encontrou na mão segura do diretor Zé Henrique de Paula uma boa parceria para sua estreia teatral. Pela comédia dramática figuram o senhor rabugento, a vizinha fofoqueira, a solteirona e um número sem fim de ressentimentos. Os clichês, no entanto, limitam-se ao perfil dos personagens, e as surpresas gradualmente emocionam a plateia. O setentão Alfredo (interpretado por Fulvio Stefanini) tem o coração endurecido e vive às turras com a filha Mariângela (a atriz Chris Couto). A morte do melhor amigo, um ator (papel de Roney Facchini), o leva a repensar a vida, principalmente depois que o falecido se materializa em sua casa. Encenador de assinatura marcante, Zé Henrique, desta vez, foi sutil a ponto de beirar o convencional. Sua atenção voltou-se para redimensionar os diálogos de Cafiero nas interpretações corretas de Stefanini, Facchini e Karin Rodrigues. Quem brilha, no entanto, é Chris, parceira habitual do diretor e solta para humanizar as frustrações da filha do protagonista. Estreou em 6/9/2014. Até 14/12/2014.
    Saiba mais
  • Regina Duarte e Mariana Loureiro interpretam mãe e filha no drama de suspense da inglesa Angela Clerkin. A relação das duas é marcada por baixa autoestima e manipulação. Tudo se transforma quando o namorado da filha (papel de Kiko Bertholini) se hospeda na casa das duas. Quase nada se salva na montagem dirigida por Murilo Pasta. O trio de atores não consegue emprestar a densidade psicológica exigida pelos personagens e muitas vezes descamba para um tom cômico inadequado. Diante disso, o clima de suspense exigido pelo texto fica limitado à surpresa causada por alguns blecautes adotados pelo diretor. Estreou em 18/10/2013. Até 12/10/2014.
    Saiba mais
  • Na era da instantaneidade, tornou-se raro um espetáculo colher elogios unânimes. A maioria das peças entra e sai de cartaz sem grande repercussão. O drama do libanês Wajdi Mouawad estreou no Rio de Janeiro há um ano, passou por três outras capitais e chegou a São Paulo movido por uma incessante e perigosa expectativa. Desta vez, a comoção do público e da crítica é justificada. Marieta Severo interpreta uma mulher de origem árabe que migra para o Ocidente com o casal de filhos gêmeos (os atores Felipe de Carolis e Keli Freitas). Ela deixa em testamento uma missão para ambos: encontrar o pai, julgado morto, e um irmão de quem eles nunca ouviram falar. Esse é o ponto de partida para uma história claramente relacionada às tragédias gregas, mas capaz de dispensar especificações geográficas e emoções exacerbadas. O diretor Aderbal Freire-Filho construiu uma encenação de impacto, apoiada na contemporaneidade de um texto de palavras duras, e sedutora, justamente por abrir mão de efeitos cênicos. Inspirada, Marieta opta por uma atuação gradativamente seca, quase distanciada, fundamental para justificar o estarrecedor final e valorizar ainda mais a reação do espectador, que se vê diante de uma obra arrebatadora. Flavio Tolezani, Marcio Vito, Kelzy Ecard, Fabianna de Mello e Souza e Isaac Bernat completam o eficiente elenco. Estreou em 19/9/2014. Até 14/12/2014. Nas telas: levado ao cinema pelo canadense Denis Villeneuve em 2010, o filme protagonizado por Lubna Azabal concorreu ao Oscar de produção estrangeira.
    Saiba mais
  • Stella Freitas e Cassia Linhares protagonizam o drama que fez sucesso com Eva Wilma e Eliane Giardini nos anos 90. O texto de Maria Adelaide Amaral revela a difícil relação entre mãe e filha. Ruth (vivida por Stella) é uma dona de casa viúva e controladora, enquanto Helô (Cássia) se mostra uma médica insegura e solitária. De 3/10/2014. Até 12/10/2014.
    Saiba mais
  • Monólogo

    Rei Lear
    VejaSP
    5 avaliações
    O protagonista desta adaptação de Geraldo Carneiro para a tragédia de William Shakespeare demonstra apenas vestígios da majestade. Refinado com as palavras, o Rei Lear interpretado por Juca de Oliveira no monólogo não tem coroa, trono nem a postura da realeza. O figurino neutro reforça a imagem de um homem comum e inconformado por ver seus valores ultrapassados. Fiel ao original em sua condução, a trama apresenta o octogenário monarca enlouquecendo gradualmente depois de uma imensa decepção. Ele foi traído por duas de suas três filhas, para as quais havia legado o trono, e não aceita o desprezo. O diretor Elias Andreato montou uma encenação de poucos efeitos para o intérprete solar com brilho. Juca de Oliveira trilha um caminho que deixa o personagem em delírio quase permanente. Na cena final, surge a possibilidade de uma leitura contemporânea para o clássico do bardo inglês. Afastado de seu reino, Lear parece viver agora em uma casa de repouso, e esse talvez seja o grande descaso. Estreou em 18/7/2014. Até 9/8/2015.
    Saiba mais

Fonte: VEJA SÃO PAULO