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Como vivem os nonagenários (ou quase) mais bem sucedidos de São Paulo

Estrear como modelo aos 86 anos, abrir uma empresa aos 80 e lançar livro às vésperas dos 90 são algumas das peripécias dessa turma

Por: Alvaro Leme e Nana Caetano - Atualizado em

Como vivem os nonagenários (ou quase) mais bem sucedidos de São Paulo
Francisco Scarpa: "Devo minha longevidade a uma vida alegre e à capacidade que tenho de receber friamente as notícias ruins. Nunca choro." (Foto: Daniela Toviansky)

Um mordomo vestido de uniforme de risca de giz abre a pesada porta de ferro preta com detalhes dourados. Lá estão o chão de mármore, a escadaria de novela e as paredes com esculturas de madeira que lembram as de palacetes franceses. Há ainda tapetes, pinturas e inúmeros lustres de cristal. É (e sempre foi) muito chique a vida de Francisco Scarpa, o patriarca de uma tradicional família paulistana de origem italiana. Conhecido como "o pai do Chiquinho", Francisco adora festas tanto quanto o herdeiro. Filho de um imigrante que enriqueceu como industrial, já teve fábricas de tecidos, quase quarenta fazendas e uma cervejaria, a Caracu. Ganhou do tataravô o título de conde alardeado por Chiquinho, mas ele mesmo não o usa. "É dispensável num país como o Brasil. Uma bobagem", diz. Em 1950, no auge da fortuna, casou-se com a bela Diamantina Patsy McClelland Scarpa, dezesseis anos mais nova, e teve três filhos. Apesar de o patrimônio não ser o mesmo daquela época, Francisco vive dias para lá de confortáveis. Em junho, por exemplo, hospedou-se por um mês no Plaza Athénée, um dos hotéis mais sofisticados de Paris, cuja diária ultrapassa os 2 600 reais. Até o ano passado, batia ponto no escritório das Organizações Scarpa, na Avenida Paulista. Atualmente, despacha em casa com a secretária. Pelo computador, recebe e-mails, joga paciência e conversa com a neta no MSN, programa de mensagens instantâneas. Apaixonado por roupas, perfumes e animais, mantém em sua mansão duas aves exóticas, a cacatua Dolce (o nome é homenagem à grife italiana Dolce&Gabbana) e o lóri Quiquinho. A boa forma é garantida com a prática de hidroginástica, que faz na piscina de seu jardim, vestido apenas de sunga, chapéu panamá e nada de protetor solar. Às 7 da noite, pontualmente, joga tranca. Depois janta, vê novelas e ouve música. O segredo de tanta energia? "Devo minha longevidade à capacidade que tenho de receber friamente as notícias ruins. Nunca choro."

José Mindlin,

empresário e bibliófilo, 92 anos

"Quando eu ficar velho, talvez tenha dificuldade para sair de casa." "Quando eu ficar velho, talvez perca meu otimismo." "Quando eu ficar velho, talvez não queira mais trabalhar." É assim, com frases recheadas de ironia, que José Mindlin fala sobre seus 92 anos. Sem ajuda de bengala e num ritmo impressionante, dá vinte voltas em seu jardim de 100 metros. Sua casa, no Brooklin, está sempre cheia: de livros (37 000 títulos, a maior biblioteca privada do Brasil), de estudantes (que vão pesquisar ali) e de mulheres (oito funcionárias cuidam das questões domésticas e lêem para ele depois que teve um problema sério na retina). Advogado, jornalista e industrial (foi dono da Metal Leve, empresa de peças automobilísticas, que vendeu em 1996), Mindlin é duplamente imortal, com cadeira nas academias brasileira e paulista de letras. No ano passado, quando a mulher, Guita, morreu, aos 89 anos, Mindlin sofreu um tremendo baque. Diariamente, ele declamava poesias para a também advogada e bibliófila, com quem teve quatro filhos. "Imagine quanta coisa bonita essas paredes já ouviram..." Juntos desde 1936, quando se conheceram na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, comungavam o que ele define como um encontro de almas. "Entre as poucas certezas que tenho na vida está a de que nunca mais me casarei. Depois do que vivi com Guita, não é possível sequer pensar em outra mulher." Quem sabe quando ele ficar velho...

Maria Amelia Arruda Botelho de Souza Aranha,

artista plástica, 89 anos

Os quatro filhos, onze netos e doze bisnetos de Maria Amelia Arruda Botelho de Souza Aranha já sabem: no seu aniversário de 90 anos, em 1º de julho próximo, nada de presenteá-la com echarpes, lenços ou qualquer mimo comumente dado às vovós. "Não gosto de nada com cara de velhinha." Apesar de pouco conhecida do grande público, essa matriarca "pra frentex" é bastante respeitada pela turma das artes, que a conhece pelo apelido de Mabsa, formado por suas iniciais. Completou meio século de carreira no ano passado, quando inaugurou sua maior empreitada: um museu a céu aberto no requintado condomínio Helvetia, em Indaiatuba, fundado por seu marido e seus filhos. Com mais de 100 esculturas, chama-se Parque dos Bichos Fantásticos. Autora de seis livros, pretende lançar mais um neste ano, sobre seus ancestrais do Nordeste do Brasil. Durante a pesquisa, rodou 600 quilômetros de carro por Alagoas ao lado de uma neta. "Ela queria ir para a China, mas os filhos acharam arriscado", conta Bernardino Tranchesi, seu cardiologista há dez anos. Muito religiosa, Mabsa reza sempre que pode. Para agradecer quando tem a chance de saborear uma feijoada (que adora), para pedir coragem antes de ir ao dentista (que detesta) e para ter inspiração nas aulas de cerâmica (sim, ela ainda estuda). E também para que se realize seu maior sonho: "Não quero ser esquecida".

Abrão Kasinsky,

empresário, 89 anos

Aos 80 anos, ele se casou pela segunda vez, abriu uma empresa e, por sugestão de uma numeróloga, trocou de sobrenome – passou de Kasinski para Kasinsky (o Abraham virou Abrão ainda na infância). Assim, como se fosse simples, numa idade em que a maioria das pessoas vive de memórias, ele começou de novo. "Tenho muito orgulho dos meus 89 anos, mas quero parecer sempre moço, forte e pronto para fazer qualquer negócio", diz. Sua história profissional deslanchou em 1951, quando Kasinsky, o caçula entre os quatro filhos de um casal de imigrantes russos que veio morar no Brás, criou a Cofap. Quatro décadas depois, sua fábrica de autopeças, que chegou a ser a maior do ramo na América Latina, ficou conhecida pela propaganda estrelada por um cachorro da raça dachshund, apelidado de... Cofapinho! Mais de dez anos depois, em 2002, a publicidade o colocou de novo sob os holofotes. Lembra-se daquele senhor de bigodes que fazia estripulias sobre sua moto dentro de um globo da morte? O próprio! Para divulgar a fábrica de motocicletas que leva seu sobrenome (com a grafia original), virou garoto-propaganda. "Ele é muito animado, um piadista, compra na hora as idéias mais malucas e tem um jeito obsessivo de trabalhar que torna espetacular tudo o que faz", afirma o publicitário Washington Olivetto, responsável pelas duas famosas campanhas e pelo prefácio do livro Kasinsky – Um Gênio Movido a Paixão. Lançada no ano passado, a biografia de 613 páginas foi escrita em formato de romance por sua ex-secretária Maria Lúcia Doretto. Workaholic confesso, Kasinsky diz que não acredita em férias, que não tem amigos íntimos fora do trabalho e coloca o lado profissional muitas vezes até antes da própria família. A relação com os dois filhos, ambos do primeiro casamento, foi estremecida por crises sucessórias na Cofap que culminaram com a venda da empresa, em 1997. Atualmente, pouco se vêem. Kasinsky mantém fotos deles e dos quatro netos em seu escritório, algo surpreendente para quem conhece o histórico de desentendimentos. "Eu gosto da minha família, eles é que não gostam de mim", afirma. "Os jovens de hoje em dia não ligam para os idosos."

Filomena Matarazzo Suplicy,

matriarca, 98 anos

Ela tinha 15 anos quando aprendeu a dirigir nas ruas de Paris. De volta a São Paulo, Filomena Matarazzo tornou-se uma das primeiras mulheres brasileiras a receber a carteira de motorista. Na época não existia idade mínima para tirar a habilitação, até porque havia pouquíssimos carros no país. Neta do conde italiano Francisco Matarazzo, teve uma educação de princesa, uma parte no Colégio Des Oiseaux, outra com tutores europeus, na casa da Avenida Paulista onde ela nasceu, em 1908. Pôs à prova a boa formação em toda sorte de eventos sociais da alta-roda paulistana, em décadas e décadas de glamour. Hoje, aos 98 anos, sua rotina é muito mais sossegada. Não agüenta caminhar por muito tempo, por exemplo, o que levou os filhos a lhe dar uma cadeira de rodas, usada quando ela quer passear pelo Shopping Iguatemi, vizinho ao seu apartamento. Mas continua elegante e vaidosa. "Meu cabelo está bonitinho?", fez questão de saber, antes de posar para a foto acima.

Vez ou outra, atrapalha-se com a memória, sobretudo para fatos recentes. Em compensação, lembra bem de histórias antigas, como seu casamento com Anésio de Lara Campos, que morreu cedo e a deixou viúva aos 21 anos. E de seu segundo marido e maior saudade, Paulo Cochrane Suplicy, morto em 1977. Quando fala dele, até sua voz fica mais firme. Assim, é fácil compreender como uma mulher tão frágil se tornou o alicerce de 161 pessoas (onze filhos, quarenta netos e 56 bisnetos, além dos cônjuges). Essa grande família tem pelo menos um compromisso anual com dona Filomena, que todo dia 24 de dezembro manda rezar uma missa no saguão de seu prédio. E ai de quem faltar! Na ocasião, ela costuma presentear cada descendente com cheques cujos valores variam conforme o grau de parentesco. "Todo ano acho que vai ser o último Natal, mas sempre me engano."

Tomie Ohtake,

artista plástica, 93 anos

No chão e numa porta antiga que serve de mesa, respingos de tinta ainda frescos. Telas em branco, em cavaletes de tamanhos variados, aguardam pelas cores. Maquetes e rascunhos complementam a bagunça organizada. O ateliê da artista plástica Tomie Ohtake, que funciona em sua casa, no Campo Belo, está em plena atividade. "Preciso de trabalho constante", diz ela, em um português ainda carregado de sotaque. "Não penso em aposentadoria e me esqueço até mesmo de tirar férias." Sua última viagem a passeio foi para o Japão, em 1999. Nascida em Kioto, Tomie alçou literalmente seu primeiro vôo quando, aos 23 anos, veio a São Paulo visitar um irmão. Deixou para trás uma mãe arraigada às tradições, casou-se com o engenheiro agrônomo Ushio Ohtake, teve dois filhos (Ricardo e Ruy, ambos arquitetos) e anos mais tarde descobriu os pincéis. "Só consegui trabalhar de verdade quando minha mãe morreu, em 1951", lembra. "Antes, ficava com o coração dividido entre a rigidez dela e a minha vontade de fazer arte." Séria e discreta (veste-se quase que exclusivamente de preto), Tomie tornou-se uma das mais importantes artistas do país. Suas pinturas e esculturas ocupam hoje lugares públicos de destaque em São Paulo, como a tapeçaria do auditório do Memorial da América Latina, a obra que celebra os oitenta anos da imigração japonesa no canteiro central da Avenida 23 de Maio e a gigantesca escultura suspensa no Auditório do Ibirapuera. Seus quadros chegam a valer 175 000 reais. É ela própria quem anota, em um caderninho, os trabalhos que foram vendidos, quem os comprou e por quanto. A administração do dinheiro fica com os filhos. Uma vez por mês, vai à galeria Nara Roesler, que a representa, para acertar a contabilidade. Numa dessas visitas, no ano passado, um amigo com o RG beeeem mais novo propôs que pensassem juntos em uma exposição para daqui a dez anos. A resposta de Tomie, segundo Nara: "Eu topo. Só tenho medo de que você não esteja mais vivo".

Gabriella Pascolato,

empresária, 89 anos

A platéia vai ao delírio com sua entrada na passarela, na São Paulo Fashion Week. Ao fundo, um letreiro: "Deus salve a rainha da moda". Uns gritam, outros choram, todos se emocionam, num frisson digno de Gisele Bündchen, causado por esta top senhora que, a despeito de seu 1,53 metro de altura, tem estatura de gigante na indústria da moda nacional. A cena foi protagonizada pela empresária Gabriella Pascolato em 2003, ponto alto de uma trajetória de luta iniciada quase seis décadas antes. Nascida numa rica família de fazendeiros do norte da Itália, ela casou-se aos 21 anos com Michele Pascolato, herdeiro de uma linhagem de políticos. Ele havia sido ministro do ditador Benito Mussolini, morto no fim da II Guerra, e precisou fugir do país, com a mulher e dois filhos pequenos. Rumavam para a Suíça quando foram presos. Talvez com pena das crianças, um soldado deixou que Michele escapulisse. A governanta, que era suíça, foi embora com o caçula, Alessandro, que assim seria poupado do destino de dona Gabriella e Costanza: um campo de refugiados, onde ficaram por dois meses. "Lembro dela trabalhando na plantação de tomate", diz Costanza, que tinha 7 anos de idade. Ao sair de lá, a mãe acionou seus contatos e um deles, em 1945, a ajudou a conseguir vistos diplomáticos para o Brasil. Reunida novamente no país adotivo, a família só se separou outra vez com a morte de Michele, em 1988.

Para ganhar a vida, Gabriella importava da Europa artigos de luxo que vendia na então meca da chiqueria paulistana, a Rua Marconi, no centro. Trazia sobretudo calçados de seu antigo sapateiro da Itália, Salvatore Ferragamo. Um ano depois, porém, o governo brasileiro proibiu as importações e os Pascolato precisaram se virar mais uma vez. Conhecedora da moda do Velho Continente, ela viu que o jeito de vestir das pessoas começava a mudar. "O mundo queria novas roupas para festejar a paz", conta. "E todos precisariam de tecido."

Assim nasceu, em 1948, a tecelagem Santaconstancia. Os oito teares do início dão hoje lugar a mais de 400 máquinas, das quais saem por mês 2 milhões de metros de 47 tipos de tecido. O negócio está agora nas mãos dos filhos. Também trabalham lá três dos quatro netos de dona Gabriella, que vai à empresa, na Zona Norte, todos os dias. Mas aceita mudar sua rotina se pinta uma chance de curtir os seis bisnetos, que têm entre 4 e 13 anos. "São meninos muito espertos", conta, sorridente. "Só me dão alegria."

Esther de Figueiredo Ferraz,

professora, advogada e ex-ministra, 92 anos

Parece até que ser a número 1 em tudo era a grande vocação de Esther de Figueiredo Ferraz. Aluna brilhante desde menina, graduou-se com nota 10 em todas as disciplinas no curso de direito no Largo São Francisco, em 1945 (o boletim não a deixa mentir). Anos mais tarde, voltou à faculdade, na qualidade de única professora num ambiente exclusivamente masculino. Em 1965, foi a primeira reitora de uma universidade paulista, o Mackenzie. Depois, em 1982, acabou com o monopólio dos homens no Ministério da Educação, que ocupou por quase três anos, no governo do general João Figueiredo. Nenhuma outra mulher voltou a exercer o cargo. Escreveu dez livros, foi compulsoriamente aposentada, aos 70 anos, mas só largou as salas de aula de fato bem depois dos 80. "Gosto de mostrar meu currículo, mas não é para me exibir, viu?", diz a hoje frágil senhora de 92 anos, que para conquistar o topo do pódio profissional abriu mão do matrimônio e ficou solteira a vida inteira. "Casar é melhor do que não casar, mas é melhor não casar do que casar mal", costuma dizer.

Esther faz questão de ir diariamente ao seu escritório de advocacia e às sessões semanais da Academia Paulista de Letras. "Até uns quatro anos atrás, ela mesma dirigia", diz Luiz Carlos Arruda, um de seus catorze sobrinhos que ela considera como filhos. "Coloquei todos no meu testamento", conta. Muito lúcida, ela tem boa saúde, mas sofre com uma acentuada perda de audição. Mesmo usando um aparelho, ouve com dificuldade. Nem por isso deixou de lado o plano de voltar a ter lições de piano, instrumento que aprendeu a tocar no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo como aluna de Magdalena Tagliaferro, que figura entre os maiores instrumentistas brasileiros. No domingo passado, recebeu vinte parentes e amigos no apartamento onde vive com uma empregada, no Jardim Paulista. Comemorou antecipadamente seu aniversário, que aconteceu no dia 6. "Fico brava se alguém esquece de me dar os parabéns."

Fonte: VEJA SÃO PAULO