Chuva

Com as chuvas do Carnaval, Jardim Pantanal volta a ficar submerso

Moradores convivem novamente com o drama de 2009, quando fortes tempestades inundaram o bairro por mais de dois meses

Por: Nataly Costa

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O ajudante de obras José Clóvis Brás Cordeiro, de 43 anos, mora há onze no Jardim Pantanal, no extremo leste de São Paulo. Em 2009, perdeu todos os móveis e eletrodomésticos na enchente que deixou o bairro submerso por mais de dois meses. De lá para cá, pouca coisa mudou. A Rua Piauí continua sem asfalto; as casas, sem reboco. O Rio Tietê ainda é um vizinho incômodo, e a chuva, um tormento. Nestes quatro dias de Carnaval, entre sábado (14) e quarta (18), as tempestades voltaram a inundar o bairro, que está novamente debaixo d'água.

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Para tentar dar uma solução paliativa, alguns moradores - Cordeiro entre eles - fizeram uma plataforma de cimento para subir o nível das casas, tentando impedir que a água estragasse de novo a cama comprada à prestação, o fogão ainda não pago, o sofá de segunda mão, a mesa emprestada da sogra. Mesmo assim, nesta quarta (18), o rio que se transformou a Rua Piauí já havia engolido a parte baixa do terreno onde Cordeiro mora com a mulher, oito filhos e dois sobrinhos.

Sem conseguir atravessar a água para ir à escola, as crianças improvisam brincando de barco com a antiga geladeira da família - a que perderam no temporal de cinco anos atrás. "Naquela época ofereceram bolsa-aluguel de 300 reais para que eu me mudasse. Mas não existia nenhum aluguel de menos de 500 reais e eu não tinha como pagar a diferença", diz.

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A poucos metros dali, a empregada doméstica Janaína Cristine da Silva, de 41 anos, está em situação pior. A tempestade já invadiu o terreno com as três casas que divide com mais dez pessoas, entre marido, filhos, irmãs e cunhado. Não há como dormir ou cozinhar com água na altura dos joelhos. "Morava em outra rua que também alagava e vim para cá há um ano. Jurava que não ia mais sofrer", diz Janaína, que levou a dezena de familiares para uma casa de dois cômodos emprestada por um amigo. "Agora é esperar secar".

E, como se não bastasse o drama de viver com um rio de água suja sob os pés, alguns ali não têm água onde é necessário. "É o chão da casa molhado e nem uma gota na torneira. Já chegamos a passar oito dias seguidos sem água", diz a costureira Cilene Maria da Cruz, de 39 anos.

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Desde o segundo dia de Carnaval, quando os alagamentos começaram, nenhum agente público apareceu no Jardim Pantanal, segundo os moradores. Por outro lado, na Vila Itaim, bairro vizinho, a Defesa Civil fazia nesta quarta (18) uma megaoperação de drenagem emergencial e assistentes sociais distribuíam cestas de comida para os moradores. Tudo na frente das câmeras de TV, que faziam inserções ao vivo em programas vespertinos. Lá também encheu - mas muito menos que no Pantanal.

"Todo mundo aqui está faltando trabalho porque não tem como chegar seco no serviço. A minha sorte é que a empresa dá essa roupa e eu consigo ir", diz o técnico em manutenção de trilhos João Batista da Silva, morador da Rua Freguesia das Vargens, na Vila Itaim, mostrando seu "escafandro" amarelo.

Obras antienchente

Muito já foi prometido e pouco foi feito para resolver o problema daquela região. Em 2012, um piscinão construído pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD) amenizou a situação do Jardim Romano, que também foi protagonista das enchentes de 2009 e hoje sofre menos nos verões. A gestão Fernando Haddad (PT) só fez metade das obras antienchentes prometidas - a maioria nas zonas Sul e Oeste.

Para a Zona Leste, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) prometeu um pôlder - espécie de terreno construído para frear inundações - na Vila Itaim, cujas obras custarão 80 milhões de reais mas ainda não começaram. A gestão, por sua vez, culpa a prefeitura, que deveria retirar os moradores irregulares da várzea do Rio Tietê, uma das razões dos transbordamentos.

"Até o momento, o Governo do Estado não apresentou o projeto da obra, a despeito de inúmeras reuniões realizadas e de apelos insistentes da prefeitura. Sem o projeto, a prefeitura não tem como remover as famílias. São duas as razões: primeiro não há como remover toda a população da Vila Itaim. É preciso saber o tamanho e o local do pôlder para remover apenas as famílias atingidas. E, depois, se a população for retirada muito antes da realização das obras, outras famílias ocuparão aquelas habitações", diz a nota da prefeitura.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO