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Cobradora de ônibus anima passageiros com histórias policiais

Casos de crime e traição são os preferidos de Silvineide Santana, que diverte a viagem dos passageiros

Por: Bruna Gomes

cobradora silvia
Cobradora com objetivos: “Quero estudar psicologia: acho que o estágio deveria ser na catraca de um ônibus” (Foto: Fernando Moraes)
Os usuários da linha de ônibus 117Y- 10 — que faz o trajeto entre o Jardim Antártica, na Zona Norte, e Pinheiros, na Zona Oeste — já se acostumaram a ouvir frases como “um funcionário da empresa foi assassinado com cinco tiros na cabeça” ou “uma passageira e um fiscal casados se apaixonaram e eu levava bilhetes de um para o outro”. Traições, paixões, brigas e crimes integram o cardápio de histórias oferecidas pela cobradora Silvineide Santana durante o percurso de duas horas pela cidade. + O teste do transporte público+ Cobrador de ônibus: profissão ameaçada+ A difícil rotina à frente do volante em São Paulo Com um tom de voz alto e marcante, a alagoana de 43 anos ganhou o apelido de Datena — homenagem ao apresentador da Band — por causa de seus enredos do tipo “mundo cão”. “Só conto casos verídicos”, garante ela. Como os colegas de profissão são os principais protagonistas, alguns conflitos acabam sendo inevitáveis. “Às vezes ocorrem discussões porque ela fala demais, mas nada grave”, explica o coordenador da linha, Luis Carlos Moretti. Ainda assim, Silvineide cultiva amizades. “Perto dela nunca há tristeza”, afirma a presidente da Sociedade Pró-Melhoramentos e Beneficente de Vila Nova Cachoeirinha, Rosa Chiorato. “Vários usuários perguntam por ela quando ficam um tempo sem vê-la”, diz o fiscal Eliabner Aguiar. Integrante de uma família de dez irmãos, Silvineide chegou a São Paulo em 2004 e começou a trabalhar como faxineira na Cooperativa Fênix, um dos dezesseis grupos que atuam no transporte público da capital. Dois anos depois, foi convocada para substituir um cobrador que havia faltado. Daquele dia em diante, não deixou mais o banco atrás da catraca, sendo dispensada dos testes para a função, que incluem matemática. “Eu não conseguiria emprego em outro lugar”, acredita ela, que só estudou até a 5ª série do ensino fundamental. Silvineide nunca se casou e sustenta, com um salário de cerca de 1.700 reais mensais, três filhos de pais diferentes: Wesley Batista, de 17 anos, estuda para cursar tecnologia da informação na USP; já Ryan Santana, 11, e Samara Beatrice, 3, moram em Alagoas com a avó. “Saio de casa cedo e volto tarde, não consigo estar presente. Mas falo com eles todos os dias por telefone.” Silvineide, na verdade, costuma se apresentar apenas como Silvia. “Li em uma revista que meu nome tem letras negativas, como ‘n’, ‘d’ e ‘e’”, explica. Seu maior sonho é entrar em uma faculdade de psicologia. “De certa forma, já trabalho com isso: falo com todo tipo de gente e o pessoal gosta de conversar comigo.”QUEM ÉNome: Silvineide SantanaIdade: 43 anosLocal de nascimento: Feira Grande (AL)Início da carreira: 2006Linha: 117Y-10 (Cohab Jardim Antártica-Pinheiros)Salário: 1 700 reaisEscolaridade: 5ª série do ensino fundamentalFrase: “Minha estrela brilha e todo mundo me ama. Um dia serei famosa”

Fonte: VEJA SÃO PAULO