Entrevista

Clarice Falcão mostra seu primeiro disco no festival Planeta Terra

Queridinha da internet, humorista do Porta dos Fundos estreia no mercado fonográfico com Monomania, lançado no início deste ano

Por: Mayra Maldjian - Atualizado em

Clarice Falcão
Clarice Falcão: da internet para os palcos (Foto: Divulgação/Daryan Dornelles)

O medo de encarar a plateia está passando. “Fiquei muito nervosa antes de entrar”, conta Clarice Falcão, que mostrou seu primeiro disco solo para 600 pessoas na casa paulistana Beco 203, em maio passado. “Eu estava com receio de fazer show com a galera de pé, pedindo dose de vodca, mas foi lindo.”

Atriz, escritora e roteirista, a carioca de 24 anos também compõe e canta. Sucesso na internet como humorista do canal on-line Porta dos Fundos, ela mostra o show de Monomania, sua estreia fonográfica, no festival Planeta Terra. Em junho, ela lotou o Auditório Ibirapuera com o show de lançamento do disco: os ingressos se esgotaram em menos de duas horas.

A moça de voz mansa e olhar juvenil alcançou 16 milhões de cliques com seus dramas de amor musicados, como Oitavo Andar e Qualquer Negócio, divulgados em vídeos fofos no YouTube. As canções fazem parte do repertório que ela apresenta no sábado, acompanhada de Ricco Viana (violão, bandolim, ukulele, bateria e vocais), Beto Lemos (percuteria, baixo, sanfona, bandolim, rabeca, metalofone e violão de aço), Marcelo Muller (baixo, trombone e teclado) e João Bustamante (violoncelo e baixo).

Clarice Falcão - O Fantastico Mundo de Gregorio
Clarice Falcão e Gregorio Duduvier em cena de 'O Fantastico Mundo de Gregorio', do Multishow (Foto: Reprodução Facebook)

Abaixo, leia um bate-papo com a cantora:

VEJASÃOPAULO.COM - Quando começou a compor?

Clarice Falcão - Desde pequenininha eu gostava muito de cantar, inventava música de criança. Quando a gente foi fazer um curta-metragem para um concurso internacional do YouTube, não podia usar música que já existia, por causa dos direitos autorais. Aí eu me juntei com meu melhor amigo e minha mãe e começamos a escrever. Foi minha mãe que falou: 'Clarice, você podia compor uma para o filme, né?'. E eu pensei: 'Ah, engraçado, vou tentar'. [Clarice foi protagonista do curta, intitulado Laços. Sucesso na internet, o filme rendeu a ela um convite para atuar na novela A Favorita, da Globo, em 2008.]

Depois da experiência com o curta Laços, você continuou a compor? Sim, eu passei um tempo compondo em inglês. Depois larguei um pouco e passei a escrever para programas de humor e peças [ela ajudava a mãe, Adriana Falcão, com os roteiros de A Grande Família], e foi aí que eu fiquei apaixonada pela língua portuguesa, por escrever. Até que teve uma hora que eu pensei em fazer uma peça musical, com canções em português mesmo. De repente eu me vi gostando muito mais de fazer as músicas do que de escrever o musical. Então o tal musical foi para as cucuias e terminou virando o CD.

Como foi esse caminho até o disco? Comecei a colocar as coisas na internet e foi dando certo. Até que o Daniel Filho pediu uma das músicas, Monomania, a primeira, para botar na trilha do [seriado] Brasileiras. Era justamente um episódio que o Gregório [Duvivier, o namorado dela] ia fazer e eu participei tocando. E eles produziram a música, colocaram arranjo e tudo mais. Quem arranjou foi Pedro Luís e a Olivia Byington [a sogra]. E ela falou “Vamos fazer esse CD?”. A Olívia produziu comigo o disco inteiro.

Clarice Falcão
A cantora: clipes com 16 milhões de acessos (Foto: Divulgação)

Você foi soltando as músicas na internet e depois lançou em formato de álbum digital no iTunes. O disco estava encaminhado com algumas gravadoras, mas ficamos em dúvida se queríamos isso mesmo. Os contratos iam e voltavam, e teve uma hora que a gente olhou e falou, 'cara, a gente está botando intermediários em uma relação que já existe'. Com esse tempo de Porta dos Fundos e mesmo o tempo dos vídeos se difundirem pela internet, acabei criando um público. Então decidimos lançar o disco independente. Saiu pelo iTunes e vendemos os CDs em show, de um jeito meio artesanal. E fiquei muito feliz com a decisão.

E a primeira música acabou dando título ao disco. Qual o significado dela para você? Monomonia é uma condição psicológica em que a pessoa é obcecada por uma coisa só. E acho que amor é um pouco isso. Quando você está gostando muito de alguém existe uma monomania. E o disco é monotemático nesse sentido. Ele tem o mesmo eu-lírico, fala de amor, é uma constante. E existe um raciocínio comum entre as músicas, além de ser a primeira composição que nasceu como música mesmo, com instrumentos, achei que fazia sentido.

As letras são autobiográficas? O disco é muito pessoal e autoral no sentido de que é o meu jeito de pensar e de me expressar. Mas tem muitas histórias que eu vejo acontecer. Às vezes uma ideia para uma frase me traz a música inteira, então é uma história totalmente inventada. Tem elementos autobiográficos, sim, mas o disco não é essencialmente autobiográfico.

E a qual dessas histórias você é mais apegada? Ah, varia muito. Em geral é a que as pessoas estão menos falando. Eu fico com pena das músicas que as pessoas não ligam tanto. Atualmente eu gosto muito da Talvez, que é uma música meio esquisita. É só baixo acústico e voz. É a mais cabeça.

Aquela ironia toda da Porta dos Fundos também aparece nas suas letras... Sempre lidei com as desgraças com humor. É importante pensar em jeitos diferentes de falar sobre algo, principalmente sobre amor, que é um tema muito exaurido e que geralmente não se mistura com humor e com estranheza. Às vezes acho que as músicas não são tão engraçadas, são mais esquisitas mesmo. É legal falar de amor de um jeito que eu nunca tenha ouvido as pessoas falarem antes.

E suas referências musicais? O Chico [Buarque] com certeza. Eu escuto desde pequena. Cada música dele tem um universo e uma ideia própria. Eu acho isso incrível, porque tem muitas músicas que não têm ideia nenhuma e o Chico tem músicas com cinco ideias. Ele é muito bom em letra e melodia, é um artista completo. Sou muito, muito, muito fã. Tem um cara de São Paulo chamado Luiz Tatit, que era do grupo Rumo, e ele tem um trabalho solo incrível com letras que são um pouco narrativas e que misturam também um pouco de humor com romantismo. E tem essa galera nova que é muito legal, como O Terno, o Tibério Azul, o [cantor capixaba] Silva fez um dueto lindo comigo no meu disco [Eu Me Lembro] e  tem também o Tiago Iorc, de Curitiba.

Por falar em dueto, com quem você gostaria de fazer parcerias? Se um dia o Chico olhar na minha cara vou sentir que já foi uma grande parceria.

Muitas pessoas te comparam com a Mallu Magalhães. Isso já chegou até você? Ah, sim, bastante. Eu gosto muito da Mallu, acho ela uma artista incrível. É normal as pessoas quererem achar coisas parecidas, quando surge algo novo tentarem descobrir em qual gavetinha te colocar. Eu entendo totalmente, mas para ser honesta não acho nosso som parecido. Acho que eu e a Mallu compomos de jeitos radicalmente diferentes. Obviamente a gente tem um estilo em comum, mas é como o sertanejo, que tem duzentas milhões de duplas. Essa coisa de cantora/compositora, uma menina com violão cantando músicas próprias é um gênero mesmo, e é muito grande.

O que é o seu som pra você? Tem um pouco de folk, sim, e é um pouco MPB também. É complicado rotular o seu próprio som, porque você foi vendo ele crescer. Sabe quando você convive muito com uma pessoa, ela engorda dez quilos e você não repara? Acontece da mesma forma com a música, porque você esta dentro do processo. Então nunca é "eu quero chegar no folk, eu quero chegar na MPB". É muito mais: eu quero um cello nessa música, um baixo acústico naquela outra. Se isso vai virar folk ou pagode, é muito difícil dizer. Talvez eu dia eu faça um CD de pagode sem querer [risos].

Fonte: VEJA SÃO PAULO