Perfil

Cirurgiã plástica diz que perdeu 50% de seus pacientes apos operar Abadia

Loriti Breuel diz que o traficante colombiano Juan Carlos Abadía acabou com a minha vida

Por: Maria Paola de Salvo - Atualizado em

A cirurgiã plástica paulistana Loriti Breuel está mais do que acostumada com flashes. Como aplica em si mesma os tratamentos que receita a seus pacientes.– submeteu-se a oito plásticas em 51 anos –, vira e mexe ela aparece linda, leve e esticada nas revistas de celebridades. Há três meses, depois de operar o rosto do colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía, considerado um dos maiores traficantes de drogas do mundo, experimentou a desagradável sensação de se ver nas páginas policiais. "Eu desconhecia a identidade dele", diz Loriti. Em 8 de agosto, um dia após a prisão do traficante em um condomínio de luxo em Aldeia da Serra, a porta de sua clínica, no Jardim Paulista, ficou tomada por jornalistas. O telefone também não parava de tocar. Eram clientes desmarcando consultas. "O movimento caiu 50%", afirma.

A polícia suspeita que Abadía tenha passado por quatro cirurgias para modificar suas feições nos últimos anos. Em uma delas, teve próteses de silicone aplicadas nas maçãs do rosto. Loriti diz que o traficante chegou ao seu consultório, no início de 2005, por indicação de Ana Maria Stein, antiga cliente da cirurgiã e mulher de Daniel Maróstica, apontado como um dos sócios do criminoso. Apresentou-se como o empresário argentino Anthony Javier Moura. Na época, teria feito um peeling a laser. "Ele retornou dois anos e meio depois, no início de julho, com 11 quilos a mais e diversas cicatrizes recentes de plástica pelo corpo", conta a médica. Segundo ela, Abadía queria emagrecer e corrigir imperfeições das operações anteriores. Foi então que Loriti fez uma lipo na barriga do traficante, um lifting e um peeling (operação de rejuvenescimento facial), além de realizar um reposicionamento de suas orelhas, a chamada otoplastia. "Não alterei o rosto dele", diz Loriti, que, segundo depoimento do traficante, teria recebido 20 000 reais em dinheiro pelas intervenções.

O bisturi da doutora, que cobra 350 reais pela consulta, costuma ser requisitado por alguns semifamosos. Entre seus clientes estão o atual presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, a discípula do finado deputado federal Enéas Carneiro, Havanir Nimitz, e a mulher de Pelé, Assíria do Nascimento. Boa parte de seus pacientes vai à clínica em busca de lipoaspiração, apesar de a especialidade de Loriti ser tratamentos para o rosto. Formada pela Universidade Federal de São Paulo, antiga Escola Paulista de Medicina, em 1979, a médica fez quatro anos de residência no Hospital de Defeitos da Face. "Passava de doze a 24 horas reconstituindo o rosto de acidentados e ganhei muita experiência", afirma. Casada e mãe de três filhos, Loriti tem saído menos de casa e, nos fins de semana, procura se refugiar em seu sítio, em Atibaia. também deixou um pouco de lado seu maior hobby: comprar sapatos – tem 300 pares no guarda-roupa. Religiosa e freqüentadora da Igreja Batista do Morumbi, Loriti diz ter perdoado Abadía. Ela, inclusive, teria enviado uma Bíblia ao presídio federal de Campo Grande (MS), onde o traficante aguarda julgamento.

Depois de a médica ter sido investigada pela polícia, o Ministério Público Federal a convocou para prestar depoimento como testemunha de acusação contra Abadía e os demais réus envolvidos no caso. O processo, que tramita sob segredo de Justiça, só deve ter uma sentença no início de 2008. "Até o momento, não foi constatado nenhum indício de que Loriti Breuel tivesse algum envolvimento com a quadrilha de Abadía", afirma a procuradora da República no Estado de São Paulo Thaméa Danelon Valiengo, que denunciou os integrantes do bando criminoso à Justiça Federal. Mas, por causa de

Abadía, Loriti passa por uma sindicância no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), que já a puniu uma vez, em 2005, por usar os resultados dos procedimentos cirúrgicos para divulgar seu trabalho. "Não sei quanto tempo vai levar para eu recuperar minha imagem", diz. "O Abadía acabou com a minha vida."

Fonte: VEJA SÃO PAULO