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Cinematic Orchestra interpreta trilha para clássico mudo

Banda apresenta nesta quarta (25), no Sesc Pinheiros, composições para o documentário “Um Homem com uma Câmera”, de 1929

Por: Tiago Faria

Cinematic Orchestra
Jason Swinscoe, líder do Cinematic Orchestra: "Escrever música para cinema é entender sentimento do filme" (Foto: Divulgação)

O músico escocês Jason Swinscoe, líder da banda Cinematic Orchestra, não conhecia os filmes do cineasta soviético Dziga Vertov (1896-1954) quando recebeu o convite para compor uma trilha sonora para o documentário “Um Homem com uma Câmera” (1929). Disse sim - e só então descobriu quão grande era o desafio de mergulhar na obra do diretor, um dos mais influentes do início do século XX.

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O clássico silencioso de Vertov lança mão de uma série de técnicas inovadoras de filmagem e edição para registrar cenas do dia a dia. Para escrever as músicas — encomendadas em 2001 por um festival cultural da cidade do Porto, em Portugal —, Swinscoe também tentou explorar temas simples por um viés fragmentado. O resultado poderá ser conferido pelo público nesta quarta (25), no Sesc Pinheiros, às 21h, dentro da Mostra Sesc de Artes.

No show, o sexteto inglês se apresenta simultaneamente à exibição do documentário, com um roteiro com espaço para improvisos. Uma combinação tão certeira que rendeu disco (em 2002), DVD (em 2003) e uma turnê que chega pela segunda vez ao Brasil. Em dezembro de 2009, o grupo mostrou a criação no Rio de Janeiro.

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Formada em 1999, quando Swinscoe ainda era apenas um funcionário do selo londrino Ninja Tune, a Cinematic Orchestra deixou forte impressão já no primeiro disco, “Motion” (1999). Naquele mesmo ano, o grupo foi convidado para se apresentar numa cerimônia em homenagem ao cineasta Stanley Kubrick (1928-1999), organizada pelo sindicato de diretores de Hollywood. O disco mais recente, “Ma Fleur”, saiu em 2007.

A combinação de jazz, trilhas de filmes dos anos 60 e eletrônica encantou até a Disney, que contratou o compositor para escrever a trilha do documentário “Balé Vermelho” (2009).

À VEJINHA.COM, Swinscoe explica o processo de criação da trilha de “Um Homem com uma Câmera”.

VEJA SÃO PAULO - Como nasceu o projeto de escrever a trilha sonora para o filme “Um Homem com uma Câmera”?

JASON SWINSCOE - Para mim, música e artes visuais sempre foram paixões desde a infância. Estudei arte e sou um músico autodidata. Mas só descobri como conectar as duas manifestações quando gravei meu primeiro disco, “Motion”. Quando o álbum foi lançado, recebi o convite do diretor do festival de cinema em Porto, Portugal, para criar uma nova trilha sonora para “Um Homem com uma Câmera”, que é um clássico da vanguarda. Estudei o filme e decidi aceitar o desafio.

VEJA SÃO PAULO - Para compor os temas musicais, foi usado algum método específico?

JASON SWINSCOE - Antes de começar a compor a trilha, fiz uma pesquisa profunda sobre o filme e li vários artigos que Vertov havia escrito sobre o tipo de música que ele havia imaginado para o longa-metragem. Depois assisti ao filme várias vezes e percebi que ele havia sido filmado com quatro rolos de película, e cada um deles estava associado a uma parte diferente do dia. O primeiro representava o amanhecer, o segundo mostrava pessoas trabalhando e assim por diante. A partir daí, criei uma estrutura para compor e apropriar a trilha ao longa.

VEJA SÃO PAULO - Depois de apresentar este trabalho em Portugal, em 2001, a banda gravou um disco inspirado pela experiência. O show que chega a São Paulo mantém esse formato?

JASON SWINSCOE - Vamos interpretar a trilha que foi registrada e lançada em DVD. Nós optamos por manter a estrutura da música já que ela precisa combinar com pontos muito específicos do filme. Em alguns trechos, ainda assim, nós abrimos espaços para improvisos. A banda possivelmente será acompanhada por um quarteto de cordas, mas ainda não temos certeza sobre isso.

VEJA SÃO PAULO - Qual é o seu momento predileto em “Um Homem com uma Câmera”? O senhor conhecia a obra do cineasta?

JASON SWINSCOE - Curiosamente, eu ouvia falar em Dziga Vertov, mas não conhecia os filmes dele. Admito que foram necessárias algumas tentativas para que eu finalmente entendesse o que Vertov estava tentando expressar social, narrativa e artisticamente. Um dos aspectos mais impressionantes do filme é o olhar criativo e técnico do cineasta. A escolha de cenas e o método de edição estão entre as ideias mais avançadas da época em que o filme foi criado.

VEJA SÃO PAULO - Desde o primeiro disco, o Cinematic Orchestra participou de uma homenagem a Stanley Kubrick e escreveu uma trilha para um documentário da Disney. De que forma escrever música para filmes é diferente de simplesmente compor canções?

JASON SWINSCOE - Escrever música para o cinema não é simplesmente juntar um monte de ideias, mas entender a narrativa e o sentimento do filme e depois trabalhar de dentro para fora. Criar temas, revisitá-los e transformá-los em abstrações. Música para longas é algo muito complexo e posso dizer que ainda não me canso de experimentar nesse formato.

Ouça trecho da trilha do Cinematic Orchestra para "Um Homem com uma Câmera":

Fonte: VEJA SÃO PAULO