Crônica

Cinema de bairro

Por: Matthew Shirts

Cinema de bairro
(Foto: Attílio)

Recebo o recado da Roseli, minha cozinheira, durante o jogo, via WhatsApp, ou, como ela gosta de chamar o aplicativo, Zap Zap. Pergunta ela se pode folgar amanhã. São 10 e pouco da noite. Estou um pouco desorientado diante do uniforme laranja do Corinthians. É muita informação ao mesmo tempo. A funcionária arruma a casa também. E lava a roupa. Se ela não vier, tudo vai permanecer bagunçado. Administrar um lar no Brasil é um desafio novo para mim. É preciso ter comida, roupas lavadas, uma série de coisas. Há momentos em que minha vida parece se desenrolar dentro de um seriado de televisão. É uma comédia, diga-se, que lembra em alguns momentos o Two and a Half Men, aquelas temporadas com Charlie Sheen no papel principal, menos a sua movimentada vida amorosa. O personagem, que também se chama Charlie, enfrenta o cotidiano ao lado do irmão, de um sobrinho e de sua faxineira, Berta. Lá em casa sou eu, meu filho e a Roseli.

(Nota do futuro para mim mesmo: todos enviam recados com a ajuda de pequenos computadores que carregam por toda parte. E o uniforme do Corinthians é laranja. Não se assuste, é só para algumas partidas especiais, parece.)

Estava na hora da partida do Timão e acabara eu de chegar do cinema, onde assistira a um filme brasileiro bonito e bom. Isso na minha opinião. Não sou nenhum crítico de cinema. Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert, traz Regina Casé no papel da empregada Val. Fiquei empolgado e comovido com a história, ambientada em São Paulo. A mulher deixou a filha, Jéssica, no Nordeste para vir para cá trabalhar. O longa atinge um nervo da cultura brasileira ao contar uma história do ponto de vista da doméstica. Mostra a tensão entre os valores hierárquicos do nosso passado ibérico e a igualdade republicana e pós-moderna que buscamos hoje. Consegue falar da classe média sem ser chato, sempre por meio dos acontecimentos.

Fiquei encantado com a sala de cinema também. É aquela antiga da Rua Fradique Coutinho, no coração de Pinheiros, quase na esquina com a Teodoro Sampaio. Foi reformada pelo ex-jogador de futebol Raí, em parceria com alguns sócios, e rebatizada de Cinesala. Faz um tempinho já, eu sei. Mas eu ainda não havia ido lá. Ficou simpática demais, com um ar retrô- hipster de cinema de arte. Lotou de gente ali nas mesas da entrada, que dão para a calçada. Criou-se uma pequena muvuca antes e depois de o filme começar, com gente de todo tipo conversando, uma festa. Nesse dia era exibido também o filme novo de Woody Allen, Homem Irracional.

Saí de lá entusiasmado com uma película capaz de falar de uma das contradições mais sensíveis da cultura brasileira. Acho que todo mundo deveria vê-la. É quase argentino de bom, eu disse para minha filha. Ela me chamou de exagerado, mas sem tê-lo visto. Acho que consegui despertar seu interesse, com meu adjetivo provocativo.

Que Horas Ela Volta? ainda estava na minha cabeça quando recebi o recado da Roseli. Não hesitei em autorizar a folga. Aproveitei para lhe perguntar o que estava achando do uniforme laranja do Corinthians. Ela não tardou em responder, por Zap Zap mesmo: “É lindo”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO