Sociedade

Cibele Dorsa: uma morte anunciada (no Twitter)

Quase dois meses após presenciar o suicídio do noivo, Gilberto Scarpa, atriz avisou na internet que teria o mesmo fim

Por: João Batista Jr.

Cibele e Gilberto
Cibele e Scarpa, na viagem do último réveillon para a Colômbia: paixão, brigas e drogas (Foto: Arquivo Pessoal)

Na madrugada de sábado (26), por volta da 1h50, Cibele Dorsa, de 36 anos, cortou com uma tesoura a tela de proteção da varanda da sala de seu apartamento de 120 metros quadrados, que fica no 7º andar de um edifício de esquina no bairro do Real Parque, no Morumbi. A atriz subiu no gradil e, com a força do impulso, caiu na rua. O estrondo do corpo no asfalto foi ouvido pelo porteiro do prédio e pelos taxistas de um ponto próximo. Nenhum morador do condomínio desceu.

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Chocante por si só, o caso fica ainda mais mórbido por se tratar de uma tragédia anunciada. Uma hora antes do ocorrido, Cibele (o nome de batismo era Sibele) publicou no Twitter a seguinte mensagem, reproduzida aqui com os erros de digitação: “Lmento, eu não consegui suportae a morte nos meus braços mas, lurei... até onde eu pude”. O recado dizia respeito à dor que ela relatava sentir após o suicídio de Gilberto Scarpa, seu noivo de 27 anos, apresentador do canal de TV por assinatura E! Entertainment Television. No dia 30 de janeiro, ela presenciou o rapaz, primo distante do playboy Chiquinho Scarpa, dar fim à vida ao saltar da mesma varanda. Gilberto, segundo pessoas próximas, era viciado em cocaína. O casal estava junto havia nove meses.

Amigo de Cibele, o produtor teatral Maciel Fama foi a primeira pessoa a entrar no apartamento após sua morte, às 3 horas. “Encontrei sobre a cama dela uma fotografia de Scarpa e algumas manchas de sangue”, conta. “Ela tinha cortado os punhos com uma lâmina.” A atriz havia intensificado o uso de remédios, entre eles o ansiolítico Rivotril e o tranquilizante Dormonid, desde a morte de seu parceiro. Também usava drogas ocasionalmente. Praticante de umbanda, ela recebia reclamações dos vizinhos, que se queixavam dos barulhos de tambor, quando promovia encontros com pais de santo de madrugada.

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Capa da revista CARAS, com tarja sobre o nome do cavaleiro Doda Miranda: ele pediu na Justiça para não ser citado (Foto: Divulgação, Fernando Lemos)

Além da mensagem no Twitter, Cibele enviou uma carta de despedida à revista CARAS. Isso poucos minutos antes de se matar. Entre outras coisas, o texto — publicado no site da revista na tarde do mesmo dia de sua morte — criticava o cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda. “Doda, que um dia Deus te perdoe pelo que vc fez e faz comigo, com a Athina e com as crianças” (sic). Outro trecho: “Como posso ser suicida se já me sinto morta?”.

Doda tem a guarda de Viviane, 11 anos, fruto de seu relacionamento com ela. Cria também Fernandinho, 14, filho do casamento da atriz com o empresário Fernando Oliva. O atleta olímpico (medalha de bronze em Atlanta em 1996 e em Sydney em 2000) vive com as crianças na Bélgica ao lado da mulher, a bilionária Athina Onassis. “Cibele escreveu isso num surto de loucura”, acredita Oliva, que foi casado com ela entre 1996 e 1997. Como ele é amigo de Doda, concordou que seu filho — que treina futebol em escola profissional — fosse morar na Europa a partir de 2009 ao lado da irmã caçula. “Na verdade, Cibele lhe devia gratidão.”

Os dois filhos não vieram ao enterro. Doda não gostou de ver seu nome envolvido no escândalo e entrou com pedido na Justiça para que CARAS fosse impedida de citá-lo. Em protesto contra esse tipo de censura, a revista colocou faixas pretas sobre o nome e as fotos do cavaleiro, na capa e nas páginas internas. Procurado, ele não quis falar do assunto. “O Doda não iria criticar quem já faleceu”, disse André Beck, amigo e organizador do evento hípico anual Athina Onassis International Horse Show. “Eles tinham um relacionamento cordial.” Uma pessoa bastante próxima a Cibele mostrou à reportagem o e-mail abaixo, que afirma ter sido enviado por ela a Doda, em que o tom é amigável.

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Mensagem amigável: trecho de e-mail repassado à reportagem por amigo da atriz (na assinatura, seu nome de batismo, Sibele) (Foto: Veja São Paulo)

A atriz receberia uma mesada de 15.000 reais depositada por Doda. "Além disso, ele gastou cerca de 500.000 reais para salvar a vida dela”, afirma Maciel Fama. Isso ocorreu porque, em junho de 2008, Cibele sofreu um acidente de carro na Avenida Cidade Jardim quando voltava de uma balada ao lado do amigo Thiago Barbarisi. O jovem de 22 anos morreu na hora e ela ficou sete meses sem andar: passou por onze cirurgias no Hospital Oswaldo Cruz para colocar duas hastes (nos quadris e na perna direita), três placas de titânio (no cotovelo esquerdo) e quatro pinos (no tornozelo direito). Na recuperação, ficou viciada em remédios. “Eu tomava morfina para continuar vivendo”, contou a atriz a VEJA SÃO PAULO em entrevista realizada em 2010. “Era a única forma de abrir meu olho sem chorar de dor.”

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Em setembro de 2010, já recuperada do acidente de carro: onze cirurgias e sete meses imobilizada (Foto: Mario Rodrigues)

A mulher sexy e de pinta no canto dos lábios carnudos, o que lhe rendia o apelido de Cindy Crawford, ensaiou uma volta por cima após o acidente. Estreou o espetáculo “Quarto do Nada” em setembro do ano passado e, três dias antes do suicídio de seu noivo, em 27 de janeiro, lançou o livro "5:00 AM", espécie de autobiografia com foco no acidente de carro. Mesmo depois da morte de Gilberto, há menos de dois meses, Cibele retornou aos palcos para interpretar a Bela Adormecida na peça “As Princesas do Castelo Encantado", no Teatro Bibi Ferreira. “Eu planejava ver a peça no feriado da Páscoa”, conta, chorando, sua única irmã, a advogada Carla, que há seis meses se mudou para Fortaleza. “Minha irmã tinha alto-astral e era carinhosa com toda a família. Rezo a Deus para que perdoe a atitude dela, que não sabia o que estava fazendo.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO