Negócios

Cema, Hospital Villa-Lobos e Cema Santana nasceram do sonho de um mecânico

Ângelo Aquino transformou três filhos e oito netos em donos de uma rede de hospitais que fatura 130 milhões de reais por ano

Por: Fabio Brisolla - Atualizado em

Ao redor de uma TV em preto-e-branco, o mecânico Ângelo Aquino reunia os três filhos para assistir a seu programa favorito, a série americana Dr. Kildare, exibida pela TV Excelsior na década de 60. Interpretado pelo ator Richard Chamberlain, o personagem central era um dedicado clínico geral do Blair General Hospital, em Nova York. Naquela época, Aquino morava em uma casa modesta no bairro da Mooca e sonhava ver os filhos Roberto, Guido e Antônio vestindo jalecos brancos. Seus planos iam além: queria fundar o Pronto-Socorro Aquino. Começou a nascer aí o Grupo Inal, responsável atualmente pela administração de um hospital geral, o Villa-Lobos, e de outro especializado em oftalmologia e otorrinolaringologia, o Centro de Medicina Avançada – Cema, ambos na Mooca, além do Cema Santana, um ambulatório com doze consultórios recém-aberto na Zona Norte. "Nosso projeto é inaugurar mais nove clínicas em diferentes regiões da cidade nos próximos três anos", conta o diretor executivo do grupo, Luiz Carlos Lazarini. Para este ano, a previsão de faturamento das duas unidades da Zona Leste é de 130 milhões de reais (veja quadro abaixo).

Filho de pai brasileiro e mãe italiana, o paulistano Ângelo Aquino trabalhou por 38 anos como funcionário da fábrica de cigarros Souza Cruz, no Brás. No fim da carreira, ele ocupava o posto de chefe de manutenção e completava sua renda com o aluguel de um pequeno prédio de dois andares ao lado de sua casa. Assim, Aquino conseguiu pagar as mensalidades dos três filhos na faculdade de medicina do Centro Universitário Lusíada, em Santos. Após a formatura dos rapazes, o ex-mecânico despachou seus inquilinos para inaugurar, em 1975, o Centro Médico Aquino – Cema (cinco anos depois o significado da sigla foi alterado para Centro de Medicina Avançada). Além dos filhos, ao longo do tempo Aquino colocou também os netos para trabalhar no hospital. Nas férias, era lá que todos passavam seus dias. "Aprendemos a gostar de medicina por osmose," diz Rogério, que cursa o último ano da especialização em oftalmologia. O estágio prematuro obteve 100% de aproveitamento: os oito netos (sete homens e uma mulher) fizeram medicina e atuam nos hospitais da família. Além de circular com as crianças pelos corredores do hospital, Aquino tinha outros hábitos incomuns. Costumava chegar às 4h30 e batia papo com o porteiro da madrugada. "Como os funcionários sabiam que ele ficava na entrada, ninguém se atrasava", conta o neto Giuliano, que está no 2º ano da especialização em otorrinolaringologia.

Com 4 milhões de habitantes, estima-se que a Zona Leste tenha um movimento mensal de 520 000 consultas particulares ou por planos de saúde. Desse total, o Cema atende 45 000 pessoas. Em 2002, Aquino buscou uma solução para evitar brigas entre os herdeiros. Deixou o Grupo Inal sob a administração de um executivo contratado. Os três filhos passaram a ser conselheiros. "É difícil abrir mão de poder", diz Roberto Aquino, o caçula do trio. "Mas uma empresa precisa ser dirigida por profissionais." Morto em 2006, Aquino não pôde ver a conclusão de seu mais ousado projeto. Inaugurado no fim do ano passado, ao custo de 50 milhões de reais, o Hospital Villa-Lobos tem 200 leitos, distribuídos em dez andares. Atende 6?000 pessoas por mês no pronto-socorro – apenas 30% de sua capacidade total.

Inspirado na TV

O legado de Ângelo Aquino, que queria ver os filhos seguindo a profissão do Dr. Kildare

Cema

Funcionários: 482

Médicos: 347

Atendimento mensal: 45 000 pacientes

Faturamento anual: 100 milhões de reais

Hospital Villa-Lobos

Funcionários: 307

Médicos: 670 (credenciados)

Atendimento mensal: 6 000 pacientes (no pronto-socorro)

Faturamento anual: 30 milhões de reais

Cema Santana

Funcionários: 12

Médicos: 20

Atendimento mensal: 8 000 pacientes*

Faturamento anual: 5 milhões de reais*

*Previsão

Fonte: VEJA SÃO PAULO