Do gramado para a prateleira

Celso Unzelte lança a 'Bíblia do Corintiano'

Resultado de quinze anos de pesquisa, obra relata história do time e contém documentos históricos

Por: Alexandre Aragão - Atualizado em

Caixa 'Bíblia do Corintiano', de Celso Unzelte
À direita, a caixa que contém a 'Bíblia do Corintiano' (à esquerda) e cópias de documentos históricos, fotos e autógrafos (Foto: Reprodução)

Comentarista do canal de televisão pago ESPN, Celso Unzelte é corintiano fanático. Ex-repórter da revista PLACAR, o jornalista e pesquisador reconstruiu a história do seu clube do coração, desde 1995, ano em que começou a coletar documentos e depoimentos. O jornalista já publicou nove livros sobre futebol e, principalmente, sobre o alvinegro paulistano.

No ano do centenário do clube, Unzelte lança a 'Bíblia do Corintiano' (Panda Books, R$ 159,90), uma caixa que traz fac-símiles de documentos históricos e um livro de 304 páginas com detalhes sobre a história do clube.

Qual foi sua descoberta mais surpreendente sobre o time enquanto escrevia o livro? Muitos desses documentos são meus, alguns são do próprio Marcelo (Duarte, dono da editora Panda Books e também corintiano) e outros a gente foi à caça com colecionadores. Acho que um dos mais interessantes é uma espécie de diploma, que tem escrito “Ao torcedor, grande artífice da conquista do bicampeonato, a nossa sincera homenagem”, que remete ao bicampeonato paulista de 1951 e 52. Esse documento tem todas as assinaturas dos jogadores e a do técnico José Castelli, o Rato. Isso me foi dado por um senhor chamado Daniel, professor de português, judeu, que encontrei no Pacaembu. Ele tinha uns 70 anos e o conheci em uma noite chuvosa, no dia 9 de outubro de 1992, uma sexta-feira, numa partida pela Copa do Brasil. Nesse jogo, o Internacional venceu o Corinthians por 4 x 0. No final do jogo, com as numeradas já quase vazias, éramos os únicos que ainda xingavam o time. Perguntei como ele voltaria para casa e ofereci uma carona para o metrô. A cada dois degraus que a gente descia, ele declamava a escalação do Corinthians de 1930 e, em seguida, dizia: “Perdoai esses em campo, eles não sabem o que fazem!” (risos). Isso nos atrasou e acabamos perdendo o metrô. Então, resolvi deixá-lo em casa. Quando chegamos lá, como todo bom judeu, ele me convidou a entrar e me ofereceu uma taça de vinho do Kibutz. Depois de algum tempo de conversa, satisfeito pela carona, Daniel me deu esse diploma do bicampeonato de presente. 

Corinthians ingresso Invasão corintiana corinthiana
Cópia do ingresso da semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976, entre Corinthians e Fluminense, no Maracanã. A partida ficou conhecida como Invasão Corintiana (Foto: Divulgação)

Qual foi o documento mais difícil de conseguir? A maioria deles a gente já tinha um “cheiro” de onde e como conseguir. Os ingressos deram um pouco mais de trabalho, porque primeiro escolhemos o jogo e depois fomos atrás das entradas. Procuramos pessoas que estiveram naqueles jogos, não apenas o ingresso.

O senhor imagina quantos jogadores do Corinthians entrevistou até hoje? Alguns desses livros não precisaram necessariamente de entrevistas. O filme Todo Poderoso: O Filme — 100 Anos de Timão foi o que deu mais trabalho. Foram mais de trinta conversas, e não só com jogadores do time mas também de adversários, inclusive Pelé e Ademir da Guia. Há ainda personagens que não foram jogadores, como a Marlene Matheus e o Andrés Sanchez. E há uma curiosidade. O Corinthians teve um grande lateral, o Oreco, reserva do Nilton Santos. Ele era gaúcho e veio a São Paulo com um amigo chamado Tarica, que dizia ter jogado no Corinthians. Liguei para um amigo no Rio Grande do Sul e consegui o telefone dele, pois não conseguia achá-lo em nenhuma escalação da história do clube. Ele me disse que havia marcado um gol, num jogo contra o Flamengo. Chequei a informação e vi que, naquela partida, o único a marcar havia sido um Fernandes. Foi aí que o Tarica me disse que esse era o sobrenome dele. Em quinze anos de pesquisa, consegui a ficha de todos os 1 265 jogadores que vestiram a camisa do time.

Como foi o processo para escrever o roteiro do filme Todo Poderoso: O Filme — 100 Anos de Timão? O Rico (Ricardo Aidar, que também assina o roteiro) simplesmente se internou aqui em casa. Até brincamos que as crianças podiam fazer o barulho que fosse que eu não ia levantar (risos). Ficamos um dia inteiro, eu contando a história do Corinthians. Aí ele me trouxe o roteiro e mudamos algumas coisas. O Rico também é corintiano, mas não tinha muita intimidade com a história do clube, principalmente antes de 1950. Brinco que fui uma espécie de GPS, só indiquei os caminhos a seguir.

Com o novo estádio que o Corinthians está prestes a construir, o presidente Andrés Sanchez e os jogadores do atual elenco têm a chance de se igualar aos grandes ídolos da história do clube? Em relação a dirigentes, sempre tenho muitas reservas. Nunca coloco nem eles nem torcidas organizadas no mesmo patamar dos jogadores, que são os verdadeiros protagonistas. Dos atletas atuais, os principais, que são o Ronaldo e o Roberto Carlos, não têm muito mais tempo de carreira. O Ronaldo já coloco na minha lista dos 100 maiores, por ter ganho dois títulos importantes. A grande cartada dele seria ter levado o Corinthians ao título da Libertadores deste ano. Em relação ao Roberto Carlos, acho que ele ainda tem que conquistar mais. Hoje em dia o conceito de ídolo é diferente, os jogadores ficam menos tempo no clube. Nesse novo conceito, incluiria, por exemplo, o Chicão, que está quase se tornando o zagueiro que marcou mais gols pelo Corinthians, ou o Felipe. Mas é um outro patamar em relação aos ídolos do passado.

Fonte: VEJA SÃO PAULO