Crianças

"Castelo Rá-Tim-Bum": os bastidores surpreendentes do sucesso da Cultura

Astros e criadores do programa, tema de exposição no MIS, relatam histórias como a fama repentina, o dia em que o cenário pegou fogo e a decepção de crianças ao visitar o estúdio

Por: Bruna Ribeiro e Carolina Romanini - Atualizado em

  • Voltar ao início

    Compartilhe essa matéria:

  • Todas as imagens da galeria:

Quando o Castelo Rá-Tim-Bum estreou na TV Cultura, há vinte anos, a expectativa dos envolvidos no projeto era grande. O programa fazia parte de um dos maiores investimentos da história da emissora em programação infanto-juvenil. Durante um ano, os diretores Cao Hamburger e Flávio de Souza se dedicaram ao roteiro, escolha do elenco e deram palpites na cenografia até chegar no formato final.

 

Agora, esse sucesso volta a ser festejado com Castelo Rá-Tim-Bum - A Exposição, que tem atraído multidões ao  MIS, onde fica em cartaz até 12 de outubro.

Na entrevista abaixo, nomes do elenco e dos bastidores relembram momentos dos bastidores das gravações e contam histórias nunca antes reveladas. Confira relatos surpreendentes de Cao Hamburger (diretor), Flávio de Souza (roteirista e Tíbio), Sérgio Mamberti (Dr. Victor), Rosi Campos (Morgana) e Luciano Amaral (Pedro).

PROJETO ORIGINAL FOI GONGADO PELA CULTURA

Cao Hamburger: Fiz alguns programas na TV Cultura que foram bem, como o Urbanóides, e depois disso fui convidado para fazer o que seria a segunda temporada do Rá-Tim-Bum. Flávio de Souza e Fernando Meirelles também foram contratados para o projeto. Depois de algum tempo na criação do produto, surgiu a ideia de fazer um programa novo, parte do universo Rá-Tim-Bum, mas não exatamente uma continuação. Foi quando começamos a pensar em uma nova série.

Flávio de Souza: Nós tínhamos construído um programa megalomaníaco, mas pediram para a gente diminuir. O Castelo era apenas uma parte do projeto. Era a casa do Dr. Victor, que seria Victor Frankenstein.

Cao Hamburger: O processo de criação desse novo programa infantil, que viria a ser o Castelo, foi o maior brainstorming da minha vida. Flávio e eu nos encontrávamos todos os dias para rascunhar ideias. Em alguns meses, tínhamos uma proposta. Era algo tão gigantesco que chamamos de Mundo Encantado. Levamos para a direção da emissora e, mesmo com o alto investimento deles, ouvimos que esse programa era inviável, seria muito custoso. Ficamos chateados com a possibilidade de não ver o programa ir ao ar. Foi quando me tranquei numa sala de produção da cultura e tentei resumir o Mundo Encantado. O Castelo era uma das partes desse universo, mas virou papel central no projeto reduzido. Em algumas horas, escrevi a história do Castelo Rá-Tim-Bum em duas folhas de sulfite, na máquina de escrever.

A DIFÍCIL ESCALAÇÃO DE ELENCO

Rosi Campos: Acho que eu fui um dos únicos convidados. Não fiz nenhuma audição. O Cao me chamou para fazer a Morgana e eu adorei, pois toca em um arquétipo feminino muito profundo.

Sérgio Mamberti: Cao disse que pensou em mim para fazer o Dr. Victor. Já tínhamos uma boa relação por causa do seu tio, Flávio Império, grande amigo meu. Disse a ele que pediria liberação para a Globo e que, se estivesse OK com eles, eu faria com prazer. Estava gravando uma novela na época, mas sempre gostei de fazer televisão cultural. Também queria continuar em São Paulo, mais próximo dos meus filhos.

Cao Hamburger: Lembro que foi muito difícil encontrar alguém para interpretar o Dr. Abobrinha. Já tinha feito testes com dezenas de pessoas e estava muito em dúvida sobre qual delas escolher. Foi quando o Pacoal [da Conceição], de passagem pela Cultura para fazer um outro trabalho, soube das audições para o Castelo e pediu para fazer um teste. Assim que ele leu o texto pela primeira vez, dei o papel para ele. Ele deu uma interpretação única ao personagem. Pascoal lembra dessa história de outra maneira. Ele diz que tinha ido fazer o teste para o papel do Dr. Victor, que acabou não dando certo, e acabou aceitando o teste do Abobrinha (vídeo abaixo). Mas eu não me lembro disso.

Luciano Amaral: Fiz teste com outras crianças, mas já tinha trabalhado com o Cao Hamburger, no programa Perigo, Perigo, Perigo!. A ideia era que os personagens da montagem Lucas e Juquinha participassem do Castelo, mas o Juquinha acabou virando o Zequinha e Lucas, o Pedro.

Flávio de Souza: O Cao achou que eu era muito parecido com o Henrique Stroeter, que fez o Perônio, irmão de Tíbio (vídeo abaixo). Realmente a gente tem a mesma altura, o nariz comprido e um jeito meio infantil de ser e atuar. O mais legal dos gêmeos é que eles são adultos que se comportam como crianças pequenas, que estão descobrindo o mundo. Eu acho que os cientistas são assim. Eles continuam descobrindo coisas da natureza com este mesmo espírito.

FOGO NO ESTÚDIO

Sérgio Mamberti: Lembro-me de um episódio que gravamos no qual eu tinha que ficar dentro de um bolo cenográfico gigante. Era um aniversário do Nino, se não me engano. Fazia muito calor no dia e eu entrei e saí tanto daquele bolo que uma hora ele pegou fogo. Era muito quente dentro do estúdio. Às vezes a gente tinha que parar de gravar para abrir as portas e janelas e deixar o ar entrar.

PARA CADA ATOR, UMA ROTINA DE GRAVAÇÕES

Sérgio Mamberti: Gravamos o Castelo Rá-Tim-Bum durante um ano e meio. A gente chegava pela manhã e gravava o dia todo. As condições técnicas eram muito precárias, não tinha ar condicionado no estúdio e as câmeras não eram de última geração. Mas era uma alegria trabalhar com tanta gente brilhante.

Rosi Campos: Meu cenário era separado. Eu só gravava no quarto da Morgana. Por isso, meu trabalho levou três meses. Era tudo muito divertido. A maior dificuldade do meu personagem era gravar a passagem em plano sequência, sem cortes, como é feito no cinema. Se errasse, era preciso retomar desde o início.

Flávio de Souza: Eu e o Henrique não precisamos combinar nada. Nós nos encontramos somente no primeiro dia de gravação de manhã. Aliás, neste dia, eu mal conseguia conversar, pois estava acostumado a escrever à noite e dormir às 5h ou 6h. Como tive de acordar muito cedo, quando a gravação começou de fato, eu fiquei sentado na cadeira da sala de maquiagem, sem nem conseguir conversar com o Henrique direito.

A VIDA DAS CRIANÇAS

Cao Hamburger: Gravávamos seis horas por dia. Nosso tempo de estúdio era reduzido, pois a preocupação com as crianças era muito grande. Elas tinham que ir para a escola, descansar, fazer a lição de casa... Era bastante corrido. As crianças cresceram dentro do estúdio, tanto que a gente queria que elas parassem de crescer, para não descaracterizar os personagens [risos].

Luciano Amaral: O ritmo de gravação era diferenciado. Nós, crianças, saíamos do colégio e íamos direto para a TV Cultura. Gravávamos das 13h às 20h, mas tínhamos um intervalo de uma hora, diferente dos adultos, que paravam apenas cerca de quinze minutos. Neste período, nós lanchávamos, fazíamos as tarefas da escola e estudávamos para provas.

O SEGREDO DO SUCESSO

Cao Hamburger: O sucesso do Castelo se deve, em grande parte, aos anos de investimento que a Cultura fez em boas atrações infanto-juvenis. A Cultura também teve uma bela sacada de colocar o programa à noite, num horário em que todas as crianças já estão em casa.

Flávio de Souza: Assim como os antecessores Catav-Vento e o Rá-Tim-Bum, o Castelo é um programa educativo sem ser didático, sem parecer que está ensinando. A diferença está no acabamento. O Rá-Tim-Bum, por exemplo, teve bastante experimentalismo, muita gente escreveu e dirigiu. Não houve um grande controle do diretor geral. Já o Castelo tem uma direção de arte mais firme.

DE OLHO NO PORTUGUÊS

Rosi Campos: O programa ficou conhecido por ter muito cuidado com a parte educativa. Por isso, além do conteúdo ser muito bem desenhado, um professor de português acompanhava as gravações, para que não houvesse erros nas falas. Mas nós éramos bons alunos e nunca levamos bronca.

TRABALHAR NA CULTURA

Luciano Amaral: Era maravilhoso trabalhar na emissora. O clima era muito tranquilo e todos tinham muito carinho pelas crianças. Além disso, estavam dispostos a fazer um produto de qualidade. O Castelo foi um daqueles projetos mágicos, que acontecem talvez uma vez a cada vinte anos.

Sérgio Mamberti: A TV Cultura foi muito judiada nos últimos anos, tiraram bons programas do ar, mas existe agora um interesse em resgatar essas televisões culturais. É claro que isso não acontece do dia para a noite, mas já é um bom sinal.

Cao Hamburger: O Castelo foi fruto de uma política muito responsável da Cultura, de investimento em programas de qualidade, que depois não se manteve. Eles erraram muito a mão em alguns projetos depois do nosso,  mas acertaram em outros, como o Cocoricó. Depois disso, esse interesse na programação infantil esgotou-se. Agora deve voltar, pois a emissora está vivendo uma nova fase de investimentos em programas do gênero. Eu estou à frente de um projeto, que deve ir ao ar em novembro. Chama-se Que Monstro Te Mordeu?, estamos ansiosos para a estreia.

A FAMA DEPOIS DA ESTREIA

Luciano Amaral: Quando eu fiz o Lucas Silva e Silva, em Mundo da Lua, entre 1991 e 1992, a minha carreira já deu uma guinada. Em 1994, quando estreou o Castelo, tive a chance de participar e receber este verdadeiro selo de qualidade. Até hoje não participo de projetos que não sejam legais de alguma maneira. Após o fim do programa, minha família conta que recebi propostas de outras emissoras, como a TV Globo, mas vários fatores nos levaram a optar por permanecer na TV Cultura. Acho que foi uma decisão certa e não me arrependo. Até hoje, todos os dias, alguém me fala do Castelo.

Sérgio Mamberti: Nos idos dos anos 90, fui convidado para participar de um evento político em São Paulo. Naquela época, os artistas promoviam ações culturais nas ruas antes dos candidatos subirem ao palco com suas campanhas. No caso, tratava-se de um comício da ex-governadora Luiza Erundina. Quando desci do palco para dar espaço a ela, um grupo de meninos moradores de rua se aproximou de mim me chamando de ‘tio Victor’. Perguntei a eles como sabiam quem eu era e onde assistiam o programa, se moravam na rua. Eles me disseram que pediam para as lojas de eletrodomésticos ligarem as televisões no canal do Castelo para poderem assistir, do lado de fora. Foi uma das vezes em que me dei conta da importância e magnitude deste trabalho.

Rosi Campos: Uma vez, tivemos um evento surpreendente no Museu da Casa Brasileira. Era um encontro dos fãs com o elenco. Nós saímos da TV Cultura com o ônibus da emissora e, quando estávamos chegando, percebemos que o trânsito estava parado. Nós não tínhamos noção que aquela aglomeração era para nos ver. Foram milhares de pessoas. Com tudo isso, tivemos até de suspender o programa de visitação ao cenário, porque as crianças ficavam decepcionadas ao perceber que o castelo não existia de verdade.

Cao Hamburger: Minha carreira é marcada antes e depois do Castelo Rá-Tim-Bum. Eu vejo dois lados desse sucesso: em primeiro lugar o reconhecimento do meu trabalho, o que é maravilhoso, e em segundo a importância de livrar-se disso e seguir adiante com outros projetos.

DINHEIRO QUE É BOM...

Sérgio Mamberti: Não tive retorno financeiro nenhum do sucesso do Castelo. A TV Cultura, nesse sentido, não estava preparada para um fenômeno dessas proporções. Em qualquer lugar do mundo, um programa com essa permanência e repercussão teria um retorno muito maior. O Walt Disney, por exemplo, enriqueceu a partir do Pato Donald e do Tio Patinhas. Já a Cultura não soube trabalhar isso.

Rosi Campos: Tudo mudou em respeito e credibilidade. Nós não estamos nos Estados Unidos, onde eu estaria rica e morando em uma mansão em Los Angeles. Aqui não resulta em nada, só prestigio. Mas é uma marca ótima.

A EXPOSIÇÃO

Luciano Amaral: Para a gente, é muito legal ver esse revival. Tudo foi feito com muito cuidado, com a reforma de algumas peças e reconstrução dos cenários. A coleta dos dados com o elenco também foi muito cuidadosa, com apresentação de fotos e figurinos.

Flávio de Souza: Vai ser uma grande comemoração, muito emocionante para a multidão que participou da feitura do programa e também para os fãs. Acho que muita gente vai ficar feliz de poder subir a escada que fica em volta da árvore da Celeste e chegar à torre onde mora a feiticeira Morgana.

Cao Hamburger: Fiquei muito surpreso quando o André Sturm, curador do MIS, me ligou para falar da mostra. Ajudei com o que pude, talvez mais com contatos de pessoas que ele poderia procurar para contar a história do programa do que com material físico, já que costumo guardar pouca coisa dos meus projetos. Sei que a exposição toda foi criada por um grupo de pessoas muito jovens e criativas e fiquei feliz com essa informação. Imagino que elas tenham um sentimento de nostalgia com o Castelo, o que seria muito bacana. Estou curioso para ver o resultado final.

+ Cinema, teatro, exposições: veja agora o que rola de mais interessante na cidade de São Paulo

+ 460 programas para fazer em São Paulo antes de morrer. Quantos você já fez?

E, PARA RELEMBRAR, A ABERTURA...

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO