Teatro

Cássio Pires fala sobre adaptação de peça de Tolstoi

O dramaturgo retirou elementos obsoletos de Sonata a Kreutzer - Uma História para o Século XIX para atualizar a história do assassino confesso da esposa

Por: Livia Deodato - Atualizado em

O dramaturgo Cássio Pires, de Sonata a Kreutzer
A prosa, que originalmente tem 90 páginas, virou um monólogo de 17 páginas nas mãos de Cássio Pires (Foto: Fernando Bergamini)

Transformar um romance em um texto teatral não é dos trabalhos mais simples, principalmente se a obra em questão for de Leon Tolstoi (1828-1910). O professor, diretor e dramaturgo Cássio Pires foi o responsável pela adaptação de Sonata a Kreutzer que após bem sucedida temporada, volta a ser encenada no Teatro Cacilda Becker. A prosa, que originalmente tem noventa páginas, virou um monólogo de dezessete páginas interpretado por dois atores – André Capuano e Ernani Sanchez – e dirigido por Marcello Airoldi.

O texto de 1891 conta a história de um assassino confesso, Pozdinichev, que matou a mulher e tenta encontrar os motivos e a justificativa para o crime que cometeu, em meio a uma série de contradições. No livro original, o interlocutor do protagonista é o narrador, que conhece o assassino numa longa viagem de trem pela Rússia. “Esse era um artifício bastante utilizado pelos escritores do século XIX: inserir um personagem secundário, assim como uma ambientação (no caso, o trem), como pretexto para se chegar à história”, diz Cássio Pires.

O dramaturgo deixou o trem e o personagem secundário de fora da peça para, então, reescrever a história como um monólogo a ser interpretado pelos dois atores. “São como dois desdobramentos, duas vozes, duas leituras, que se alternam na narração e, eventualmente, dialogam entre si.”

Sonata a Kreutzer
Os atores André Capuano e Ernani Sanchez se revezam no papel do protagonista Pozdinichev (Foto: Cacá Bernardes)

Na novela de Tolstoi também havia muitas ideias datadas e  obsoletas. Pires enxugou o texto original para que restassem apenas os elementos que dissessem respeito aos dias de hoje. O espaço que a mulher conquistou, por exemplo, é bem diferente daquele da esposa assassinada.

Ainda que viva uma tragédia, o protagonista é capaz de despertar compaixão, acredita Pires. “Pozdinichev consegue ultrapassar a rede de julgamentos morais. Ele vive entre o limiar daquele que se acusa e, ao mesmo tempo, defende-se com os próprios argumentos”, diz. “É de uma humanidade muito profunda, que faz com que os espectadores lidem com aquela experiência sem culpá-lo, mas também sem se identificarem.”

A música de Beethoven, que inspirou Tolstoi e foi composta 85 anos antes de sua obra, permeia todo o espetáculo. O músico Lívio Tragtenberg ficou no encargo da narrativa sonora, igualmente relevante para a composição de todo o espetáculo.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO