Polícia

Casal é acusado de convencer garota a participar de sessão sadomasoquista

Professora universitária e técnico em informática podem pegar até seis anos de prisão

Por: Carolina Giovanelli e Mariana Barros

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Luciana e Gomes no momento da prisão: promessas de presentes e ameaças (Foto: Mister Shadow/AE)

A exemplo de muitos pais, o frentista Jair e a auxiliar de cozinha Flávia não se incomodavam com o tempo que a filha mais velha, Jéssica, de 14 anos, passava trancada no quarto com seu notebook navegando pela internet (os nomes da família nesta reportagem são fictícios, para preservar sua identidade). O que parecia uma atividade inocente se revelou a porta de entrada para um mundo bizarro e perigoso. A história terminou num caso de polícia com tintas repugnantes. Na semana passada, o casal formado pela professora universitária Luciana Senna Simões, de 35 anos, doutoranda em anatomia animal pela USP, e pelo técnico em informática Rodrigo Pereira Gomes, 36, foi preso na capital sob a acusação de espalhar pela rede imagens da garota fazendo sexo com eles.

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Segundo o delegado responsável pelo caso, Evandro Lopes Salgado, do 27º DP, no Campo Belo, Gomes se aproximou da menina numa sala de bate-papo na web sobre sadomasoquismo. Depois de várias sessões de conversas diárias, algumas delas com duração de até seis horas, ele convenceu Jéssica a encontrá-lo pessoalmente. Luciana também esteve presente no encontro marcado para uma manhã de domingo no fim de julho no Shopping Metrô Santa Cruz. De lá, rumaram para o apartamento da professora, no Tatuapé, na Zona Leste. A adolescente voltou para sua casa apenas às 21 horas daquele mesmo dia, na Zona Sul da cidade, carregando um espartilho preto dentro de uma sacola de plástico. Ao ser questionada sobre a peça, disse que havia ganho de presente da “tia de uma colega”.

Como a filha era bem comportada (sempre foi boa estudante e não era dada a se ausentar muitas horas da residência sem avisar ninguém), o pai estranhou o comportamento e resolveu monitorar as atividades de Jéssica na internet com a ajuda de um software espião que mandou instalar no notebook da garota. Pediu demissão do posto de gasolina no qual trabalhava unicamente para cuidar disso em período integral. Não demorou a descobrir que a menina passava horas conversando com Gomes (que usava na rede o apelido “shibari”, que significa “amarrar” em japonês) e sua namorada, Luciana. Eles seduziam a adolescente com elogios e promessas de presentes. Ambos mantinham perfil numa rede de relacionamento de sadomasoquismo e publicavam imagens de suas aventuras sexuais. Ao navegar por esse endereço, Jair tomou um choque ao descobrir ali fotos de sua filha se relacionando com o casal. “Quando cliquei para ver o álbum, não quis acreditar que ela estava envolvida naquilo”, conta ele.

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O técnico em informática Rodrigo Gomes: ele encarnava o dominador (Foto: Reprodução)

Jair viu várias cenas da garota com o corpo amarrado, venda nos olhos, grampos nos mamilos e uma coleira no pescoço. Nas fotos, Jéssica aparecia também sendo beijada por Luciana e penetrada por vibradores e massageadores. Na maior parte do tempo, Gomes apenas assistia a tudo ou ajudava na execução das barbaridades, mas também há indícios de que teve relações sexuais com a menor. Ele encarnava o dominador, enquanto Luciana era chamada de sub 1 (submissa 1) e Jéssica de sub 2. “Mantive o sangue-frio e comecei a imprimir todas as imagens, meu único objetivo era prender aqueles criminosos”, diz o pai. Flávia, entretanto, desabou. “Eu me senti a pior mãe do mundo”, afirma. “O que mais me chocou foi ver que pessoas da internet, que ela acabara de conhecer, tinham mais intimidade com minha filha do que eu mesma.”

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A professora Luciana Senna Simões: ela era chamada de “submissa” (Foto: Reprodução)

O pai correu para o 27º DP para registrar a ocorrência. Durante quase um mês, os policiais procuraram meios de prender o casal. Nesse período, Jair fingiu não saber de nada em casa, pois Jéssica poderia alertar seus “amigos” virtuais, que já desejavam um outro encontro, desta vez no MorumbiShopping. Na última segunda (27), os investigadores realizaram uma batida no apartamento de Luciana. Encontraram por lá máscaras, chicotes, amarras, roupas de vinil, seringas e seu computador com as chocantes imagens. No mesmo dia, prenderam o casal. Os dois são acusados de crimes de divulgação de fotografias com cenas de sexo explícito ou pornográficas de menores e armazenamento desse material. Esses delitos não são passíveis de fiança e podem levar a até seis anos de prisão. Eles também vão responder à suspeita por abuso. Até a última quinta (30), Gomes estava no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros e Luciana no 89º DP, no Morumbi, ambos separados de outros detentos para evitar represálias, comuns em casos de pedofilia.

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Objetos apreendidos na casa de Luciana, no Tatuapé: amarras, chicotes, algemas, roupas de vinil e manuais de tortura (Foto: Rubens Cavallari/FolhaPress)

Histórias como essa são mais frequentes do que se imagina. Apenas no primeiro semestre deste ano, o Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, o principal canal de denúncias de abusos de jovens do país, registrou 1.338 queixas no estado de São Paulo, cerca de 70% delas ocorridas na capital. A quantidade de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes em todo o território nacional vem crescendo nos últimos meses: passou de 3.772 em janeiro para 6.621 em julho. A internet aparece como um dos principais vilões dessa escalada preocupante. “Antes os pais deixavam os filhos em casa vendo TV. Hoje, eles ficam em frente ao computador, onde há interação e pouquíssimo controle”, diz Anna Flora Werneck, coordenadora de programas da Childhood Brasil, uma das ONGs mais atuantes nessa área. Segundo Denise Cesario, da Fundação Abrinq, crianças com baixa autoestima e problemas familiares estão mais propensas a se tornar alvo de investidas. “Na rede, elas encontram quem as elogie e demonstre interesse em compartilhar suas coisas.”

Entre as denúncias de crimes praticados na web, as de publicação de material de pornografia infantil são as mais numerosas — apenas em julho, houve 1.464 registros, de acordo com dados da ONG SaferNet Brasil. Para Rodrigo Nejm, diretor de prevenção de crimes da entidade, o fator mais preocupante consiste nas fotos e nos vídeos que os próprios adolescentes fazem de si e compartilham na rede: “Eles não têm consciência de que, além dos amigos da escola, milhões e milhões de pessoas possuem acesso a esses conteúdos”.

“Foi a pior coisa que já aconteceu comigo”

Confira o depoimento exclusivo da adolescente a VEJA SÃO PAULO

VEJA SÃO PAULO — De que modo começou sua relação com o casal? Jéssica — Há um mês, entrei em uma sala de bate-papo de sadomasoquismo por curiosidade. Conheci o Rodrigo e começamos a conversar cerca de seis horas, todas as tardes. Falava às vezes com a namorada dele também, mas percebia que ela era ciumenta.

VEJA SÃO PAULO — Como ele convenceu você a encontrá-los? Jéssica — Dizia que eu era bonita, me tratava bem, contava coisas da família dele. Ele me chamava pelo apelido de “minha gordinha”. Sofro de baixa autoestima, e assim ele conquistou minha confiança. Disse que ia me dar presentes, tanto que até dei meu endereço para ele mandar algo.

VEJA SÃO PAULO — No dia do encontro, como você reagiu? Jéssica — Ao entrar no apartamento, estava nervosa por não conhecer ninguém. Mas, depois de sair para almoçar em um restaurante japonês, eles me disseram que já faziam aquilo há muito tempo (ele, há dez anos; ela, há oito) e me tranquilizaram garantindo que seria legal. Uma vez lá, fiquei com medo de pedir para ir embora.

VEJA SÃO PAULO — Por que não procurou seus pais? Jéssica — Senti vergonha de contar o que havia feito. Depois, o Rodrigo continuou me forçando a encontrá-los novamente, disse que minha coleira nova estava guardada, mas comecei a inventar desculpas. Ele ficou bravo, afirmando que era meu dono e mandava em mim. Fiquei aliviada quando os prenderam.

VEJA SÃO PAULO — Você se arrependeu? Jéssica — Sim, foi a pior coisa que já aconteceu comigo. Nunca havia tido relações sexuais. Se alguém fizesse algo parecido com minha irmã mais nova, de 12 anos, acho que mataria essa pessoa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO