Memória

Casa Guilherme de Almeida reabre as portas após quatro anos desativada

Poeta que dá nome ao local colaborou com jornais e foi exímio tradutor de livros

Por: Isabella Villalba - Atualizado em

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Esconderijo: o poeta passava horas sozinho na mansarda do sótão (Foto: Cida Souza)

A Casa Guilherme de Almeida, museu literário localizado na antiga residência do poeta modernista e de sua mulher, Belkiss Barrozo de Almeida, a Baby, voltará a abrir para visitação no dia 11 de dezembro. O espaço estava fechado havia quatro anos, mas nos últimos sete meses passou por uma reforma que incluiu a construção de um deque para saraus no jardim, elevador e rampas para acessibilidade, além de uma área que oferecerá cursos de tradução. “O acervo de mais de 6 000 livros e 230 pinturas, esculturas e fotografias recebeu atenção especial na restauração”, afirma o diretor do museu, Marcelo Tápia. No total, 625 000 reais foram investidos, sob a administração da Organização Social de Cultura Poiesis, responsável pela Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e pelo Museu da Língua Portuguesa.

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Baby: a mulher de Almeida aparece retratada em cinco quadros na sala de visitas (Foto: Cida Souza)

A casa, que mantém o mobiliário original, era ponto de encontro de amigos do casal. Alguns, ícones do modernismo brasileiro do início do século XX, entre eles os pintores Di Cavalcanti e Anita Malfatti. Passando o hall, a parede principal da sala de visitas ostenta cinco retratos de Baby, assinados por artistas como o romeno naturalizado brasileiro Samson Flexor e Quirino da Silva, pintor, crítico de arte e primeiro secretário do Masp. Em outro canto, a mulher do poeta é representada por Lasar Segall. A escultura “Sóror Dolorosa”, de Victor Brecheret, exibida durante a Semana de Arte de 1922, criada com inspiração no “Livro de Horas de Sóror Dolorosa”, de Almeida, atrai atenção. Obras de Portinari, Anita Malfatti, Frans Post e Tarsila do Amaral estão espalhadas pelos cômodos.

Na salinha de leitura, o visitante encontra as primeiras publicações do escritor, incluindo uma em caixa de prata de seu livro de estreia, “Nós”, de 1917. Raridades como a quinta reimpressão da primeira edição de “Ulysses”, clássico do irlandês James Joyce, fazem parte dessa coleção, ao lado de originais traduzidos por Almeida dos poetas franceses Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud. O 2º andar abriga a biblioteca, uma sala para o trabalho de higienização e restauração das obras e o quarto de casal, com objetos pessoais. No sótão fica a mansarda. “Era o lugar onde ele passava horas sozinho, produzindo crônicas, críticas e poemas”, conta Tápia. Ali se encontram ainda o capacete e o fuzil usados pelo autor durante a Revolução de 1932. “O período de combate deixou uma imagem de que ele era conservador. Na verdade, lutava pela Constituição.”

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Biblioteca: o espaço está aberto ao público, mas as consultas precisam ser agendadas (Foto: Cida Souza)

Em 1959, dez anos antes de sua morte, Almeida recebeu o título de Príncipe dos Poetas do jornal carioca “Correio da Manhã”, vencendo concorrentes de peso como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Durante sua carreira, colaborou com a “Folha de S.Paulo” e “O Estado de S. Paulo”. “O museu reforça sua memória. Além da contribuição literária, ele foi um dos fundadores da revista modernista ‘Klaxon’. A opinião a respeito da alta qualidade das suas traduções é unânime”, diz Tápia. A Casa Guilherme de Almeida já tem programação fechada de cursos para 2011. Será cobrada dos participantes somente a inscrição, de 10 reais.

Fonte: VEJA SÃO PAULO