Turismo

Casa de Hilda Hilst é aberta para visitas

Quase dez anos depois da morte da autora, imóvel permanece intocável

Por: Juliene Moretti - Atualizado em

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O quarto da antiga moradora, com máquina de escrever e retratos de seus autores favoritos: o cenário parece intocado (Foto: RICARDO D`ANGELO)

Foi em busca de silêncio para preparar sua extensa obra (cerca de cinquenta livros) que a escritora Hilda Hilst trocou a vida de socialite em São Paulo pela fazenda da família, em Campinas. Ali, ela construiu a Casa do Sol, inaugurada em 1966, onde morou até a sua morte, em 2004.

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Quase dez anos depois, tem-se a impressão de que a residência está praticamente intocada. Localizada no condomínio Parque Xangrilá, é sede do Instituto Hilda Hilst e começou desde o ano passado a ser aberta com regularidade para visitas diurnas breves ou pernoites. A ideia veio anos atrás, de um de seus herdeiros, o escritor Mora Fuentes, ex-namorado de Hilda, que viveu no endereço mesmo quando ambos, já separados, tinham relacionamentos com outras pessoas.

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Escritório onde ficam livros e a coleção de pedras místicas: o único item novo é o computador dos herdeiros (Foto: RICARDO D`ANGELO)

Com a morte da autora, Fuentes, que havia se mudado de lá no início dos anos 90, na companhiada mulher, Olga Bilenky, entrou com o processo de tombamento do local, repassado aos dois em testamento. Para tanto, foi preciso regularizar uma dívida de IPTU que se estendia por dez anos. “Os atrasos somavam 3 milhões de reais”, relembra Daniel Fuentes, filho de Fuentes e de Olga, que deu continuidade ao projeto após o falecimentodo pai, em 2009.

Com o objetivo de quitar o débito, parte do terreno fora dos muros da casa acabou vendida a uma empreiteira. O imóvel de seis quartos tem dois moradores fixos, Olga e o escritor Jurandy Valença, que se tornou amigo de Hilda por ser seu fã. Hoje, ele é diretor de projetos do instituto. Para cobrir os custos mensaisde 3.500 reais, o casal decidiu cobrar de visitantes. Entrar por algumas horas custa 25 reais, enquanto ficar no fim de semana sai por 200 reais e a estadia deum mês, por 3.000 reais. Nos dois últimos casos, é preciso ajudar nas compras de supermercado. “Recebemos apenas de duas a três pessoas por vez”, conta Valença. Existe ainda a exigência de que os frequentadores tenham um projeto para desenvolver, mesmo que não seja relacionado à literatura. “Não queremos ninguém de bobeira”, diz Daniel Fuentes. “Aqui é um lugar para se inspirar.”

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A roteirista Maíra Matos e a atriz Tatiana Muniz: fim de semana na propriedade em preparação para curta (Foto: RICARDO D`ANGELO)

Entre os hóspedes há desde pesquisadores literários até estilistas. Maíra Matos, roteirista, e Tatiana Muniz, atriz, alugaram recentemente um dos quartos. As duas participam de um curta de Maíra sobre a vida da escritora antes de chegar à cidade. Tatiana interpreta Hilda. Para incorporar a personagem, ela fez cenas pelo jardim vestindo túnicas e consumiu a marca de cigarros predileta da autora. “Eu não fumo, mas tento entender como ela se comportava.”

Entre as mais de trinta pessoas que dormiram na Casa do Sol desde junho de 2012, quando o local passou a receber hóspedes, está a atriz Tainá Müller. Ela também produz uma ficção baseada em Hilda, em longa-metragem. Outro filme, em fase de captação de recursos, é o documentário Contato, de Gabriela Greeb, com cenas gravadas dentro do imóvel.  “A proposta é fazer um retrato da época e de como ela trabalhava, intercalando cenas reais, arquivadas em super-8”, relata Greeb. Quem chega deve se preparar para uma imersão no universo da escritora, que tinha a morte como tema recorrente de seus textos e afirmava se comunicar como além.

No último sábado (16), os moradores atravessaram a madrugada relatando experiências surreais ambientadas ali, como o episódio em que Fuentes foi correndo atender o telefone e contou ter esbarrado em uma asa “grande e pesada”, segundo ele aparentemente de um anjo. A iluminação baixa, composta totalmente de abajures, e os uivos dos doze cachorros que moram na propriedade completavam o clima soturno.

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Hilda, na despensa, em 1975: ela dizia se comunicar com espíritos (Foto: Acervo Instiuto Hilda Hilst)

Uma vistosa figueira no quintal da casa ajuda a engordar o folclore místico. O visitante que tocar a árvore e fizer um pedido, diz a lenda, será atendido. Essa tradição começou quando o escritor Caio Fernando Abreu disse a Hilda que gostaria de ter voz grossa. A anfitriã, então, sugeriu que ele transmitisse seu desejo para a figueira. Ele aproveitou e disse que desejava vencer também o Prêmio Fernando Chinaglia, do qual era finalista. Nos dois casos, teria tido êxito.

A partir de abril, a Casa do Sol será aberta, pela primeira vez, para uma peça de teatro — Jozú, o Encantadorde Ratos, monólogo interpretado por Carla Tausz. Daniel Fuentes organizou, pelo Facebook, uma campanha de arrecadação para custear o espetáculo. Em dois meses, conseguiu os 15.000 reais necessários.

Fonte: VEJA SÃO PAULO