ARTE E MÚSICA

Conheça designers que fortalecem a cultura dos cartazes de shows em SP

Dani Hasse, Rodrigo Sommer e Haroldo Paranhos falam sobre processo de criação e mostram seus trabalhos preferidos

Por: Mayra Maldjian - Atualizado em

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Cada vez mais raros nos muros da cidade e nas paredes das casas noturnas, os pôsteres transcenderam a função de divulgar shows pela cidade e tornaram-se itens cult de decoração e objetos de desejo de colecionadores. Parte essencial da cultura musical, espalham-se pela internet aos cliques, levando ao mundo inteiro o trabalho de designers e ilustradores especializados em transformar música em imagem.

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“Fora do Brasil, há verdadeiras estrelas dos ‘gig posters’ (os cartazes de shows) e vários sites específicos sobre o assunto. Ficou fácil comprar cartazes do mundo inteiro para colecionar. E aqui esta cena está começando a aparecer. Eu mesmo nos últimos quatro anos produzi mais de sessenta pôsteres”, conta o designer paulistano Rodrigo Sommer, responsável pela identidade visual do projeto Cedo e Sentado, do Studio SP.

“Por representar um show específico, é uma arte fugaz, mas nem por isso menor”, avalia Carlos Bêla, autor do cartaz do músico americano Andrew Bird, que se apresenta no Cine Joia. “Acredito que justamente pelo fato de ser algo mais ligeiro, os artistas visuais tendem a se soltar mais, a criar com mais liberdade: combustível perfeito para a inovação. Cria-se aí um círculo que se retroalimenta: o designer ou ilustrador que quer mostrar sua criatividade, o fã da banda que quer se lembrar do show que viu e até quem admira aquele cartaz simplesmente pela estética, independente do músico que se anuncia.”

Conheça abaixo o processo criativo e os principais trabalhos destes e de outros designers que mantêm viva a cultura dos cartazes de shows em São Paulo:

 

BRUNO CAPORUSSO

Fã do Integrity e de filmes trash, o diretor de arte de 31 anos circula pela cena hardcore paulista. Já assinou cartazes para a banda americana Trash Talk (que acabou cancelando sua vinda ao país), Garage Fuzz e Paura. A inspiração estética para seus pôsteres vem dos cartazes de cinema e dos universos sombrios de alguns ilustradores. “Acompanho os trabalhos de Mark Ryden, que faz coisas surreais muito loucas, tem também o Tom Gilmour, que ilustra em preto e branco numa pegada de tattoo oldschool animal”, lista.

Caporusso não segue um ritual específico para confeccionar suas artes. “Costumo fazer meus cartazes ao som do canal History Channel”, revela. “Mas, no geral, se estou escutando música é legal que seja bem barulhenta. Até porque gosto de artes bem sujas e complexas.”

Para ele, é o cartaz que dá a primeira cara para o show. “Não vejo outra forma tão sucinta e objetiva de você organizar e mostrar diferentes informações sobre o evento”, avalia. Vegano straight edge, toca guitarra na banda de hardcore Live by the Fist.

Ouça: Paura - Worthless Progress

Veja: www.facebook.com/xcaporussox

Bruno Caporusso Cartazes Pôsteres
Caporusso: “Acredito que os cartazes sempre foram fortes meios de divulgação. Eles estão presentes no cinema, nas manifestações, nos supermercados. Sem dúvida, nos últimos anos, tornou-se muito mais digital do que impresso, não só por termos uma internet mais acessível, mas pelas leis de algumas cidades que os impedem de ser colados em muros e postes, o que era algo legal de se fazer e muito mais intenso nos anos 1990. Sempre havia um ‘rolê’ na madrugada com a galera cheia de pincéis, rolos, cola e um ‘bolo’ de cartazes para serem colados em pontos estratégicos.” (Foto: Bruno Caporusso)

CARLOS BÊLA

Os primeiros cartazes que o designer paulistano de 38 anos fez na vida foram na época da faculdade de desenho industrial, para divulgar festinhas da turma ou apenas por “brincadeira”. Naquele tempo, lembra, “a inspiração vinha das coisas que estavam em moda, como os trabalhos de Vaughan Oliver para as capas de discos da 4AD e o design ‘grunge’ de David Carson para a revista Raygun”. Atualmente, tenta fugir do design: “Vou atrás de coisas interessantes em fotografia, gastronomia, cinema, arquitetura, biologia”. Seu processo criativo varia, mas é “ouvindo os álbuns [do artista] que as primeiras ideias aparecem”.

Bêla é o autor do cartaz que anuncia o show do músico americano de folk Andrew Bird, no Cine Joia, que ocorre em 23 de fevereiro. Uma tarefa árdua. “Centenas de artistas, ilustradores, designers e desenhistas já fizeram pôsteres dos mais variados tipos e estilos para este músico. Muitos deles têm elementos recorrentes, devido à história e músicas do compositor, cantor e violinista: pássaro, celeiro, cavalo, coruja, fazenda, árvore, folha, gramofone, só pra citar alguns”, explica. A solução para fugir do lugar comum foi partir para a abstração. “Fazer uma arte abstrata é extremamente difícil, muito mais complexo do que [criar] algo figurativo. Foram dias de tormento para chegar a algo que eu achasse digno do músico e minimamente original na sua carreira”. Deu certo.

Quando o envolvimento com o trabalho do músico é grande, o processo criativo de Bêla também costuma ser demorado. Não foi o caso, porém, com John Zorn, que se apresentou no Cine Joia no ano passado. “É meu músico vivo predileto há 20 anos. Sempre acompanhei de perto sua carreira, mas nunca tinha tido a oportunidade de ver ao vivo algum de seus inúmeros projetos. Quando me convidaram para fazer o pôster, fiquei honrado e, ao mesmo tempo, apreensivo com tamanha responsabilidade de representar em uma única imagem a complexidade de sua música que tanto admiro.”

Veja: www.carlosbela.com

Ouça: John Zorn - Acoustic Masada Live Full Concert

Carlos Bêla Cartazes Pôsteres
Carlos Bêla: “A ideia do pôster saiu rapidamente, para minha surpresa, e em pouco tempo a arte estava concluída. Após o seu show, que foi excepcional, fiz algo que nunca tive vontade antes: pedi autógrafo para o músico. E toda a banda acabou assinando meu pôster, que será enquadrado em breve para minha nova casa. John Zorn elogiou a arte e ganhou algumas cópias do poster para colocar no clube de jazz, avant-garde e experimental que ele tem em Nova York, o ‘The Stone’” (Foto: Carlos Bêla)

 

DANI HASSE

É um dos primeiros nomes que vem à mente quando o assunto é pôster. Nascida no Rio, criada em Blumenau (SC) e habitante da capital paulista, Dani Hasse fez seu primeiro cartaz quando era adolescente. A ideia era divulgar o show de sua banda, a Hey, Miss!. “Naquela época eu só sabia desenhar com lápis e caneta BIC. Então fazia as ilustrações para os pôsteres e meus amigos escaneavam e colocavam as informações”, lembra.

Formada em letras, Hasse foi professora de português e trabalhou como auxiliar de clínica em um curso de odontologia da Furb (Universidade de Blumenau). “Nunca imaginei ganhar a vida com desenhos”, conta. Até que sua habilidade foi descoberta. “Uma amiga que trabalhava na Colcci viu minha pastinha de desenhos e me chamou pra fazer um teste para designer de estamparia e passei. Não sei como, porque eu nem sabia como abrir o Photoshop”, recorda. “Lá aprendi muita coisa. Dentro do mesmo grupo fiz estampas para Sommer e Coca-cola. Depois disso trabalhei na Hering e um curto período na Kalimo e Selezione somente com estamparia corrida.”

Fã de rock dos anos 80 e 90, seguiu o inevitável caminho dos cartazes de shows. O primeiro “profissional”, diz, foi para o show das cantoras Lulina e Stela Campos, trabalho que ela mesma pediu para as meninas da agência Alavanca. “Eu me em transmitir a doçura lúdica da Lulina misturando com algo mais roqueiro da Stela. A repercussão foi ótima. Os convites para fazer mais pôsteres não paravam de chegar." Desde então, ilustrou cartazes para shows de Dinosaur Jr. (leia abaixo do pôster a história por trás da confecção deste trabalho), Rainbow Arabia (o mais trabalhoso, revela), Vampire Weekend, Dirty Projectors e Girls, entre outros.

Aos 34 anos, completos neste mês, a ilustradora paga as contas com ilustração para revistas, estampas para Havaianas, logos para marcas, pôsteres, ilustrações para livros, convites de casamento e, ainda, estamparia para moda. Fora isso, tem se dedicado bastante à pintura e passa o tempo livre “amassando” seus gatos, Six e Ramona.

Veja: www.flickr.com/photos/pet_sounds

Ouça: Caution Horses, do Cowboy Junkies (“meu disco favorito ever”)

Dani Hasse Cartazes Pôsteres
(Foto: Daniela Hasse)

"Aninha (do festival Coquetel Molotov), me chamou pra fazer um pôster pela primeira vez, mas não falou para quem era. Como eu sabia que ela era uma das pessoas que estava trazendo o Dinosaur Jr., perguntei na mesma hora se era para eles, e não era (risos). Era para o festival Invasão Sueca. Mas já que eu me mostrei tão empolgada, poderia fazer o do Dino também. Quase morri. Fiquei alucinada. Fiz um pôster e mandei. Logo em seguida tive outra ideia. Como ninguém respondia nada, fiquei com medo de que não estivessem gostando e fiz uma terceira opção. Até que Aninha me falou que estava demorando porque a própria banda é que estava aprovando as artes, que gostaram de todas e que eu poderia escolher qual usar para o show. Imagine uma pessoa muito emocionada."

 

FERNANDO MOLINA

O paulistano de 23 anos tem alguns “TOCs” de criação. “Às vezes, ponho alguma música para começar a enxergar as coisas, às  vezes gosto de silêncio absoluto, luz bem baixa na madrugada, quando o silêncio da cidade está mais aparente que o normal.” Novato na área, o jovem designer tem produzido alguns pôsteres para o Cine Joia. É dele, inclusive, o que divulga o primeiro baile de carnaval da casa.

Fã da banda Fugazi desde os 13 anos por influência da mãe, admira os livros do “velho safado” Chales Bukowski e elege “Taxi Driver” como seu filme predileto. “Procuro não ver muita referência quando eu estou criando. Para mim, referências te deixam preso. Avalio um trabalho pelo o que ele transmite, nunca pelo ‘nome do artista’”, pontua.

Segundo ele, a internet modificou tanto para o bem quanto para o mal a cultura dos cartazes de shows. “Hoje em dia qualquer um pode ter uma lojinha de pôsteres na internet e vender aquilo que acha bonito, além de usar artes sem direitos dos criadores e com impressões digitais toscas”, alfineta. A parte boa, diz, é que “a cultura digital traz referências do mundo todo.”

Veja: www.flickr.com/esilo

Ouça: Toe - Goodbye (feat. Toki Asako)

Fernando Molina Cartazes Pôsteres
Fernando Molina: “Quebrei a cabeça [para fazer este cartaz] e ainda entreguei uma coisa nada a ver com o resultado final. Foram três propostas iniciadas do zero e rejeitadas até chegar ao pôster do diamante. Depois disso eu fiquei sabendo que eles tinham odiado as primeiras propostas.  Foi o fechamento do ano pra mim. Queria trabalhar em um lugar que fizesse parte da cultura musical de São Paulo. A explosão do diamante representava o Cine Joia ‘quebrando tudo’. A repercussão foi ótima,  acho que ninguém esperava aquilo. Muitos compartilhamentos em rede sociais, elogios de pessoas que trabalharam comigo.” (Foto: Fernando Molina)

 

RODRIGO SOMMER

O primeiro cartaz que o designer gráfico de 39 anos fez na vida foi para a sua própria banda, a Moving Stairs, em meados de 2003. “Eu fiz inteiro à mão, uma colagem com pedaços fotolitos e folhas de ajuste de impressão da gráfica da faculdade, com o texto em letraset [cartelas com fontes e imagens decalcáveis]. O pessoal da banda parece que gostou [risos]”, brinca.

Colagem, aliás, é o principal método de trabalho de Sommer, que não se considera um “bom desenhista”. Depois de ter uma ideia do que pretende representar no papel, ele começa a procurar pedaços de fotos, papéis coloridos, imagens de livros antigos. Feito isso, escaneia o material, pensa no texto e, por fim, monta e edita as imagens no computador. “Mas nisso podem ocorrer várias idas e vindas, e até mesmo eu achar que não está bom e começar tudo de novo.”

Atualmente, Sommer trabalha como designer gráfico freelancer e tem uma pequena editora, a Panelinha Books, em sociedade com uma amiga. É o principal ilustrador da Agência Alavanca e assina os pôsteres do projeto Cedo e Sentado, de Romulo Fróes, no Studio SP. 

 

Veja: cargocollective.com/rodrigosommer

Ouça: Dirty Three

Rodrigo Sommer Cartazes Pôsteres
(Foto: Rodrigo Sommer)

"Acho difícil escolher um preferido, mas escolho o primeiro que eu fiz para a programação mensal de shows da festa da Peligro (acima), no Milo Garage, porque foi o que me fez encontrar um caminho, um tipo de linguagem bem diferente de tudo que eu fazia em outros trabalhos na época. É totalmente abstrato e procura mais criar um ritmo, uma vibração com o contraste das formas do que criar uma ilustração mais interpretativa."

SHN

Criado em Americana, no interior paulista, em 1998, o coletivo de arte urbana é uma importante referência na manufatura de cartazes. Formado por Haroldo Paranhos, Daniel Cucatti, Eduardo Saretta, Kleber Botasso, Rogério Fernandes, André Ortega e Marcelo Fazolin, o grupo foi o primeiro a produzir artesanalmente stickers, gravuras e pôsteres em grandes quantidades e espalha-los em série pelas ruas de São Paulo.

Pela vivência com a cultura do skate, do rock independente e do “faça você mesmo”, foi natural o envolvimento dos rapazes na confecção de cartazes para bandas e outros eventos relacionados à arte, sempre utilizando a técnica da serigrafia e do silk screen. “Gostamos de trabalhar como um laboratório de experiências gráficas”, explica Paranhos, 34. “Pôsteres e adesivos são formatados para produção em massa, em quantidades exaustivas, com símbolos e cores simples que podem ser interpretados de diferentes maneiras.”

O SHN foi responsável pela produção de cartazes para o show do Atari Teenage Riot, que veio para o Brasil no ano passado via crowdfunding. Impressos em cinco cores na serigrafia, em 66 por 48 centímetros, os pôsteres foram numerados, assinados pelos integrantes da banda e entregues aos participantes da campanha de financiamento coletivo. Veja em vídeo o passo a passo da confecção.

Recentemente, o coletivo também produziu uma série especial de prints para a divulgação da turnê latino-americana do Cavalera Conspiracy.

►Veja: www.choquecultural.com.br e www.shn.art.br

 

Atari Teenage Riot Cartaz SHN
Haroldo Paranhos: “O Atari sempre foi uma banda que nos inspirou por seu caráter punk pesado e atual” (Foto: SHN)

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO