Profissões

Os últimos da espécie: caneteiro

Roberto Marques, mais conhecido como O Médico das Canetas, conserta cerca de 300 unidades por mês

Por: Felipe Zylbersztajn - Atualizado em

Os últimos da espécie - Ed. 46 - Roberto Marques - Caneteiro
Roberto Marques, O Médico das Canetas. Rua Barão de Paranapiacaba, 51, centro, Tel.: 3104-3133 (Foto: Alexandre Schneider)

No jaleco azul-escuro que Roberto Marques, de 73 anos, usa para trabalhar, o título O Médico das Canetas está bordado em linha vermelha na altura do peito. Um pouco abaixo, o nome dele sobre cinco estrelas. O profissional se dedica a “salvar” canetas-tinteiro há mais de meio século. E, quando se senta à bancada de trabalho de sua oficina, sabe que é um dos poucos que restaram no ramo. “Somente nesta rua havia três quando cheguei”, lembra ele, com um alicate na mão. Marques mora atualmente em Bragança Paulista, a 88 quilômetros da capital. Três vezes por semana, ele deixa a cidade do interior para comandar a rotina de sua oficina, que conserta cerca de 300 unidades por mês. “Não consigo parar.”

Ele começou na profissão a contragosto. Teve de substituir um caneteiro demissionário na joalheria onde trabalhava. Cinco anos mais tarde, em 1958, montava a própria banca (de 4 metros quadrados) na porta de um restaurante na Rua Barão de Paranapiacaba. Desde então, sempre trabalhou na mesma via. Em 1984, comprou o ponto, que mantém até hoje. “Com as esferográficas, as vendas caíram”, diz. “Mas, há uns vinte anos, o pessoal voltou a querer restaurar a caneta de pena do pai, do avô... Agora sou procurado porque ninguém mais faz isso.”

O especialista acerta penas entortadas (“um décimo de milímetro fora e ela fica arranhando no papel”), produz peças internas que não se encontram mais e restaura os corpos com uma resina própria, que ele mesmo criou. Ao lado da bancada, um armário com 108 gavetas etiquetadas guarda as peças que ele foi juntando ao longo dos anos. Chamo de cemitério. Sempre fui caprichoso, então guardo, organizo tudo. Um dia aparece alguém com uma tampa quebrada, e a tenho aqui.” A mão de obra para o restauro varia de R$ 100,00 a  R$ 1. 000,00, e encomendas chegam do Brasil inteiro, via e-mail. Assim, Marques continua manchando os polegares de tinta, que precisa ser retirada com pedra-pomes. “Isso é um problema, rapaz. Não tenho mais impressão digital.”

O Médico das Canetas. Rua Barão de Paranapiacaba, 51, centro, Tel.: 3104-3133

+ Os últimos da espécie: profissionais que se dedicam a funções praticamente extintas

Fonte: VEJA SÃO PAULO