Política

José Police Neto é o novo presidente da Câmara

Tucano, apoiado pelo prefeito Gilberto Kassab, foi eleito para o cargo em meio a protestos e insinuações de traição

Por: Daniel Salles - Atualizado em

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Netinho, de 1,58 metro, no heliponto do Palácio Anchieta: “Como tenho pouca altura, minha única saída é ser um pacificador” (Foto: Mario Rodrigues)

Foi uma sessão para entrar nos anais da Câmara Municipal de São Paulo. Não pela aprovação de algum projeto de interesse dos paulistanos ou pela discussão dos rumos da metrópole. Mas pela comicidade. Pouco familiar dos moradores da capital, o vereador José Police Neto (PSDB) conquistou, na última quarta (15), a presidência da Casa. Defendido pelo prefeito Gilberto Kassab, de quem é líder de governo, o tucano derrotou por 30 votos a 25 o candidato Milton Leite, do DEM. Aqui cabe um parêntese: apesar de pertencer ao (ainda) partido de Kassab, Leite foi apoiado pelo PT e por catorze integrantes do chamado Centrão, bloco que comanda o Palácio Anchieta desde 2005 e engloba diversas legendas. É raro algum projeto ser aprovado ali sem a concordância desse grupo. Pleiteado pelo Executivo no mês passado, o reajuste nos salários do prefeito e dos secretários foi rejeitado por causa da aliança entre o Centrão e o PT. “Eles não têm um plano político, só a intenção de se manter no poder”, afirma o vereador Claudio Prado, do PDT.

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O ex-judoca Aurélio Miguel levou para o plenário uma espada oriental: sugeria o suicídio dos que traíram seu grupo (Foto: Mario Rodrigues)

Outros cinco postos-chave da Casa foram decididos na semana passada. Todos os escolhidos contavam com o apoio de Kassab, que usou seu poder para elegê-los. No início do mês, por exemplo, exonerou Marcos Cintra, secretário de Desenvolvimento Econômico e do Trabalho, para que ele retomasse provisoriamente seu mandato de vereador e votasse a favor de Police Neto — o substituto de Cintra na Câmara, Quito Formiga (PR), apoiava a chapa concorrente. “Duas secretarias foram oferecidas ao meu partido, o PR, em troca de votos nesta eleição”, diz o vereador e ex-judoca Aurélio Miguel. “Recusamos, pois isso diminuiria a independência do Legislativo.”

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O parlamentar Toninho Paiva jogou notas falsas de dinheiro sobre seus colegas: cenas de um pastelão (Foto: Mario Rodrigues)

Com a derrota iminente, alguns vereadores optaram pelo pastelão. “Muito cuidado com eles, porque a traição é a coisa mais feia do mundo”, bradou Wadih Mutran (PP), em relação aos dissidentes José Olímpio (PP), Jooji Hato e Goulart (ambos do PMDB). Os dois últimos receberam um exemplar do livro “Traição”, da escritora sueca Karin Alvtegen. Aurélio Miguel empunhou uma pequena espada oriental, explicando que só através do haraquiri (o suicídio ritual) os desertores conseguiriam restaurar a honra. Também do PR, Toninho Paiva jogou sobre Hato cédulas falsas de dinheiro, sugerindo que ele havia mudado de posição em troca da liberação de verbas, acusação repetida por membros do PT. Companheira de legenda de Kassab, a vereadora Sandra Tadeu afirmou: “Tenho inveja do PMDB, pois meu partido não existe e está dividido. Ninguém me orientou em quem votar”. Em seguida, ao se decidir por Milton Leite, foi vaiada pelos ocupantes do auditório, quase todos favoráveis à candidatura oficial. “Se eu fosse trazer a minha plateia, teria três vezes mais gente”, gritou ela, com o dedo em riste.

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O candidato derrotado Milton Leite: carta com a assinatura de três vereadores que o apoiavam e mudaram de ideia (Foto: Mario Rodrigues)

Nascido na Aclimação, Police Neto, 38 anos, está em seu segundo mandato na Câmara. Mais conhecido como Netinho, aprovou projetos que ajudaram a criar indicadores de desempenho para o município e a aumentar progressivamente o imposto predial e territorial urbano (IPTU) de imóveis vazios. Às vésperas da eleição de 2008, em uma avaliação de VEJA SÃO PAULO baseada em dados coletados pela ONG Movimento Voto Consciente, recebeu a melhor nota entre seus pares. No mesmo ano, ele declarou à Justiça Eleitoral possuir um patrimônio avaliado em 270.000 reais, incluindo o apartamento em Moema no qual vive com a mulher, a advogada Silmara Lauar, e a filha Sophia, de 7 anos. Sua trajetória política começou a ganhar corpo em 1994, quando passou a assessorar o tucano Walter Feldman, hoje secretário de Esporte, Lazer e Recreação do município e na época deputado estadual. “Ele sabe legislar como poucos e sempre busca diálogo com a oposição”, exalta o antigo padrinho político. Netinho não nega o elogio. “Como tenho pouca altura, minha única saída é ser um pacificador”, afirma ele, que mede 1,58 metro.

Fonte: VEJA SÃO PAULO