Crise hídrica

Paulistanos correm para comprar caixas d’água

Devido ao medo do racionamento, moradores saem em busca de reservatórios. Algumas lojas registram salto de 650% nas vendas do produto

Por: Ana Carolina Soares

caixa d'água Nuno Pereira
Nuno Pereira: compra de um tanque de 500 litros na semana passada (Foto: Fernando Moraes)

Na terça (3), depois de uma tarde de compras na Rua 25 de Março, o empresário Nuno Teixeira Pereira finalizou o dia em uma loja de construção. Por aproximadamente 200 reais, levou para sua casa no Planalto Paulista uma caixa-d’água de 500 litros. “Fiquei apavorado com as últimas notícias”, afirmou. O alarme soou quando Paulo Massato Yoshimoto, diretor metropolitano da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), considerou, há duas semanas, a possibilidade de ser decretado um rodízio drástico na Grande São Paulo. O esquema seria de cinco dias de torneira seca por dois de abastecimentose o volume de chuvas não aumentar. “Assim que soube disso, corri na internet para calcular meu consumo e pesquisar preços”, contou Pereira. Na residência onde mora com três amigos, já há um reservatório de 1 000 litros. Com a instalação do novo, o endereço ganha mais 50% de capacidade de estoque.

+ Especial falta d'água

O empresário não foi o único a incluir nos últimos tempos em sua lista de compras de emergência uma caixa-d’água. Nunca se venderam tantos produtos do gênero por aqui. No último trimestre de 2014, as lojas bateram recorde no negócio,comercializando cerca de 3 500 peças por dia. Pois agora, em janeiro de 2015, esse número subiu para 5 000, o equivalente a um incremento de quase 43%. “Sairiam 7 000 se a indústria conseguisse atender a essa superdemanda”, calcula Cláudio Conz, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Materialde Construção (Anamaco).

+ Confira dicas úteis para armazenar água em casa

Os lojistas comemoram o momento. A Telhanorte, com dezessete endereços na Grande São Paulo, registrou um acréscimo de 650% nas vendas do produto em janeiro, comparado ao mesmo período de 2014. A Leroy Merlin, por sua vez, teve um crescimentode 120% no volume de negócios do setor ao longo do ano passado. Para acomodar tanta caixa-d’água a mais no estoque, a empresa aumentou o espaço destinado ao artigo de 2 000 para 5 000 metros quadrados. O carro-chefe da temporadasão peças com capacidade de 1 000 litros de armazenamento. Antes, as mais procuradas eram as de 500 litros.

+ Especialista ensina a fazer reuso de água em tempos de crise

Loja-Telha-Norte,-no-bairro-Morumbi
Uma das filiais da Telhanorte: procura recorde em janeiro (Foto: Fernando Moraes)

Embora o Sistema Cantareira tenha apresentado uma reação tímida nos últimos dias, a crise está longe de ser superada. Na quarta (4), a Câmara Municipal de São Paulo aprovou um projeto que multa em 1 000 reais quem lavar carros ou calçadas com água tratada. O texto ainda deve passar por uma nova votação antes de seguir para a sanção do prefeito Fernando Haddad. Entre os fabricantes de reservatórios, o clima mescla entusiasmo e apreensão. “Se o governo declarar um rodízio antes de abril, vai faltar caixa d’água nos estoques”, diz Evandro Sant’anna, diretor comercial e de marketing da Fortlev, empresa do Espírito Santo que é a líder do mercado. O executivo conta que nos três dias depois da declaração do possível esquema de racionamento, as linhas da companhia ficaram congestionadas com tantos telefonemas e encomendas. “Recebemos oito vezes mais ligações do que o normal”, conta.

+ Sabesp divulga horários em que reduz a água na rede

Para evitar o desabastecimento até de reservatórios (quem compra hoje um produto do tipo, independentemente da marca, espera entre uma semana e vinte dias para recebê-lo em casa), as três maiores indústrias do setor trabalham em ritmo acelerado. A Fortlev antecipou para março a inauguração de uma fábrica em Itatiba (SP). Uma das concorrentes, a Tigre, lançará no próximo mês uma caixa-d’água com capacidade para 5 000 litros. Segundo especialistas, reforçar o armazenamento, por si só, não resolve o problema. Omar Anauate, diretor da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (Aabic), ressalta: “Se não houver diminuição e conscientização do consumo, as caixas d’água não farão a menor diferença”.

+ Cresce procura por caminhões-pipa; saiba como contratar o serviço

Para convocara reserva

Cinco dicas antes defazer o investimento

1) De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cada pessoa necessita de 110 litros de água por dia. Para calcular a capacidade do reservatório, multiplique 110 pelo número de pessoas na casa e os dias de racionamento. Exemplo: para enfrentar cinco dias de seca, uma família de quatro pessoas precisará de 2 200 litros

2) A instalação deve ser feita em uma superfície plana e em um local de fácil acesso e com boa ventilação

3) Não se pode colocar o reservatório diretamenteno solo: desníveis e detritos podem estragar a caixa

4) Há vários materiais disponíveis no mercado. Todos oferecem o mesmo desempenho. O mais comum é o reservatório de polietileno ,porque é leve, fácil de instalar e com um bom custo-benefício. Em média, um modelo de1 000 litros, o hit da atual temporada, sai por 400 reais

5) Além da caixa-d’água, é preciso comprar dois acessórios: a torneira de boia (custa em média 50 reais), que controla a entrada de água, e o filtro (média de150 reais), para purificar o líquido. A cada seis meses, esses produtos e o recipiente precisam passar por uma higienização

+ Confira as principais notícias da cidade

Fonte: VEJA SÃO PAULO