Bichos

Jaffar, o cachorro vigilante em Cumbica

Bom de faro, o cocker ajuda há seis anos a combater o tráfico de drogas no aeroporto

Por: Isabella Villalba

Cocker Jaffar - cachorro 2229
Mascote: após seis anos em serviço, a Polícia Federal prepara sua aposentadoria (Foto: Fernando Moraes)
Pátio do Aeroporto Internacional de Guarulhos, segunda-feira, 17 horas. Quatro malas de náilon da cor azul-royal vindas da Bolívia são despejadas no chão e estão prontas para o embarque na conexão rumo a Angola, no sudoeste africano. Antes de o avião decolar, elas deverão passar pelo crivo do cão Jaffar, da raça cocker springer spaniel. Excitadíssimo com a tarefa, ele corre para farejá-las, deslizando o focinho marrom e branco pelas laterais. Segundos depois, o alerta: o cocker começa a arranhar com as patas dianteiras duas das bagagens. É a senha para mostrar a seu treinador, Antonio Augusto Lucarelli, agente da Polícia Federal, que algo ali literalmente não cheira bem. Depois de testes, a confirmação: havia vestígios de droga entre os pertences. Mais uma missão cumprida por Jaffar, cão farejador que atua há seis anos (desde filhote) para a PF. Como esses animais costumam ser tirados da função até o sétimo ano de serviço, e depois adotados pelos profissionais que lidam com ele, a polícia já começa a planejar sua aposentadoria.  Fernando Moraes
Cocker Jaffar - cachorro 2229
Jaffar em ação: para ele, a missão é como uma brincadeira de caça ao tesouro (Foto: Fernando Moraes)
Jaffar em ação: para ele, a missão é como uma brincadeira de caça ao tesouro Nesse período de pouco mais de meia década, Jaffar deu conta sozinho de fazer as inspeções em Cumbica, por onde passam 45% dos voos internacionais do país. Para tanto, dedica-se a uma jornada de oito horas diárias, seis vezes por semana, em embarques aleatórios (partidas para Europa, Ásia e África são os principais alvos). Um novato para substituí-lo foi escolhido e está na ativa há três meses. É o pastor-alemão Quasi, que terá uma vantagem quando Jaffar se aposentar: não será um solitário em serviço. “Ainda neste ano, chegarão mais três cães, um para identificar explosivos e outros dois para encontrar entorpecentes”, conta Lucarelli. + Saiba como cuidar de seu pet no inverno+ Xaveco Virtual: nossa ferramenta para paquerar no Twitter Manter cada um desses bichos sai em torno de 1.500 reais por mês, mas trata-se de um ótimo investimento. Os policiais usam o cachorro como último filtro para localizar os entorpecentes que não foram detectados por vistorias aleatórias nem pela máquina de raio-X. Em 2010, de 1.800 quilos de droga apreendida no Aeroporto de Guarulhos, 300 quilos foram descobertos pelo olfato poderoso do cocker (dez vezes mais sensível do que o humano). No início do ano, um caso surpreendeu os agentes. O cão havia terminado um dia de expediente comum, sem farejar nada em especial. Já estava voltando com o treinador para a viatura, quando começou a ficar inquieto e a arrastá-lo em direção às malas de um voo da South Africa Airways. O bicho não descansou até encontrar uma bolsa, para espanto dos presentes, que pertencia a um tripulante. Resultado: 5 quilos de cocaína apreendidos.  Fernando Moraes
Quasi - cachorro 2229
O treinador Lucarelli apresenta Quasi: um substituto quase pronto para entrar em serviço (Foto: Fernando Moraes)
O treinador Lucarelli apresenta Quasi: um substituto quase pronto para entrar em serviço Por trás desses feitos, Jaffar tem um talento que vem dos tempos de filhote, época em que mostrava disposição para brincar a qualquer hora e foi escolhido entre outros pequenos de mesma raça (conhecida pela obediência e pela habilidade de caça) que nasceram no Canil Central da Polícia Federal, de Brasília, onde foi treinado. Para o animal, tudo não passa de uma brincadeira de caça ao tesouro. No treinamento, substâncias que compõem diversas drogas são inseridas dentro de uma espécie de chocalho improvisado em um pedaço de tubo de PVC. Quando faz o flagrante, Jaffar está à procura, na verdade, do objeto. A empolgação do cão é tanta que uma pergunta comum entre os que conhecem Jaffar, que parece sempre ligado na tomada, é se o contato com tóxicos altera seu comportamento. “Isso não tem nada a ver”, explica o veterinário Mauro Lantzman, especialista em comportamento animal. “Cães farejadores não têm contato direto com a droga, apenas aprendem a identificar elementos presentes nela. Ser tão ligado é, em geral, característica da raça.” + Confira as estreias no cinema+ "Os Smurfs": galeria de fotos e curiosidade sobre o filme+ Especial Dia dos Pais: presentes, restaurantes, dicas de passeios e mais CURRÍCULO LATTESNome: Jaffar (origem árabe)Raça: cocker springer spanielOcupação: farejador de entorpecentes para a Polícia FederalProdutividade: 300 quilos de drogas encontrados só em 2010Idade: 6 anosHoras trabalhadas: oito por dia, seis vezes por semanaSalário: 300 gramas de ração por diaFérias: trinta dias por ano 

Fonte: VEJA SÃO PAULO