Crônica

Brava gente

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica 2198
(Foto: Veja São Paulo)

Tomam posse os eleitos. Ufa! Não foi um ano fácil para a paciência dos brasileiros, chamados singularmente de “eleitor” durante o período. Todos os que disputavam algum poder, Executivo ou Legislativo, diziam saber exatamente o que “o eleitor” queria, e alegavam falar em seu nome. Atravessamos um ano de política intensa e maldizer. Os papéis semelhantes desempenhados pelos vários atores das várias companhias de espetáculos eleitorais nos permitem abordá-los como exemplares da vasta gama de tipos da brava gente brasileira. Aqui estão alguns deles, do pré-candidato ao eleito.

O pré-candidato fica mais à vontade antes de ser oficialmente candidato. É o candidato sem a cobrança popular, sem o adversário; por enquanto, sua luta é contra seus próprios pares. Não foi ainda contaminado pela ansiedade das pesquisas, está relaxado, como o craque de futebol durante um treino: bate bola, mostra habilidades, dá uma corridinha, faz pose para os fotógrafos, diz como vai atuar se for escalado, mostra que está bem preparado. Nos encontros, o pré-candidato não tem ainda a obrigação do discurso, de falar recitando metros cúbicos ou cifras per capita. Pode falar de cinema, pode se lembrar de uma viagem, de certo almoço. É feliz, o pré-candidato.

O candidato não se pertence. Faz coisas que em condições normais de temperatura e pressão não faria. Come pastel em qualquer boteco, abraça suados, aperta mãos sujas, monta em jegue, come buchada, desvia-se de pequenos objetos voadores, inaugura obras inacabadas ao lado de governantes correligionários, beija santos, canta hinos, critica a continuidade, louva a continuidade, muda o visual, contrata estilista, promete combater a corrupção enquanto gasta doações de caixa dois, encomenda dossiê contra adversários, tem palpitações, stress, olheiras, vicia-se em pesquisas, tem medo de não ir aos debates chatíssimos das redes de televisão, não dá um boa-noite sem a avaliação do marqueteiro.

O marqueteiro é o xamã, o feiticeiro. É tido como aquele que lê nas entrelinhas do destino e das pesquisas eleitorais. Como um craque de meio de campo, articula as jogadas, distribui a bola, faz lançamentos. Como uma babá, decide o que o nenê candidato deve vestir, seu penteado e como se comportar na frente das visitas ou das câmeras. Como publicitário, cria slogans, pesca ícones nos álbuns de família, convoca antepassados imigrantes e netinhos, heroifica, bota imagens nas ideias. Só divide seu poder com o articulador político.

O articulador faz acordos, alinhava retalhos mesmo puídos, vai aonde o candidato não pode ir. Preserva o candidato, que tem imagem mais sensível. Faz a ponte entre o comitê e o partido ou os aliados, troca ideias com os caciques e distribui quireras à tribo. Assume no lugar do candidato as cotoveladas nos adversários e os golpes baixos. Garante retorno a quem ajuda, tem respaldo para isso. Guarda no bolso a listinha secreta.

O derrotado tem matizes. Se é um graúdo não eleito da facção vitoriosa, ganha a compensação de um ministério, uma secretaria, uma diretoria. Não tirou a sorte grande, mas acertou na quina. Os médios ganham prêmios menores e os menos importantes são encaixados no quarto escalão ou encaixam parentes. A rigor, não há prejuízo entre os vitoriosos. Se o não eleito é da facção que perdeu poder, poderá receber prêmios regionais onde o partido foi bem ou pequenas compensações nos gabinetes de Brasília.

O eleito amanhece outra pessoa, larva que virou borboleta. Estende a mão, sopra feridas, costura acordos, veste o figurino de bonzinho e pacificador. No banquete dos vencedores, os comensais querem seu quinhão, mas não há cadeiras para tantos. O eleito senta-se ao lado de quem não queria. Só depois de sentado na cadeira começa a pensar de verdade no que vai fazer, porque antes era tudo fantasia. O eleitor perde a função e volta a ser povão.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO