Crônica

Bons tempos

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

Bel, quase 6 anos, passeia pelo shopping enfeitado com as cores e agitado pelos sons do Natal. Entronado em um cadeirão, um Papai Noel posa para fotos com as crianças.

— Vô, você tem foto com Papai Noel, de quando era criança?

— Não, não tenho.

— Por quê?

— Ah, não tenho. Avô não tem isso. Pergunta se algum avô das suas amiguinhas tem foto com Papai Noel. Não tem.

— Não tinha Papai Noel?

— Ter, tinha. Mas a gente não via.

— Nem no shopping?

— Não tinha shopping.

— Não tinha shopping?!

— Não.

— Você está mentindo, vô. E onde que comprava, então?

— Tinha loja na rua, tinha rua só de lojas e tinha loja que vendia de tudo.

— Tudo?

— O que você quisesse.

— Não via Papai Noel nem na televisão?

— Não tinha televisão.

— Ah, vô, brincadeira.

— Verdade. Ainda não tinham inventado a televisão.

— E o que você fazia depois da escola, então?

— Brincava. Jogava bola. Bolinha de vidro. Pique. Batia figurinha. Pulava corda.

— No playground?

— Não tinha playground.

— Não tinha nada, vô! Brincava onde?

— Na rua. Prédio não tinha playground. Brincava na rua mesmo. O playground era a cabeça da gente. Quase todo mundo morava em casas. Onde não tinha prédios de apartamentos, também não tinha carro.

— Minha mãe não me deixa brincar na rua. Nem sair do portão pode, que é perigoso, passa carro, tem ladrão.

— Isso mesmo. E faça o favor de obedecer, viu? Quase não passava carro na nossa rua. Ninguém que a gente conhecia tinha carro.

— E como que ia pra escola, como que ia trabalhar, passear...

— De bonde. Já te expliquei o que era o bonde. De ônibus.

— De metrô...

— Não, metrô não tinha.

— Vô, eu tou achando que esse seu tempo não era muito bom não.

— Era, era bom sim. Nem ladrão aparecia, o portão ficava aberto.

— Ah.

— Verdade, Bel. Tinha ladrão, mas a gente não via, igual não via Papai Noel.

— E se chovia? Não podia brincar na rua.

— Aí ficava em casa.

— Fazendo o quê?

— O mesmo que você. Jogos. Via revistinha, livro. Ouvia histórias. Desenhava. Brincava de bonecas...

— ...da Disney... Barbie... Hello Kitty...

— Não, isso não tinha.

— Não tinha a Hello?!

— Assim você me deixa arrasado, Bel. Não tinha a Hello, pronto.

— E Papai Noel? Tinha o de verdade e o de mentira?

— Como assim?

— Esse Papai Noel que a gente vê no shopping é de mentira. O que a gente não vê é que é de verdade.

— Se não vê, como sabe que é de verdade?

— Porque eu ganho presente no Natal, ué. No meu aniversário, é o meu pai e a minha mãe que me dão presente. No Natal, é o Papai Noel que dá.

— Ah, bom.

— Mas a minha madrinha também dá, e meu outro vô, você, minhas duas vovós, minhas tias, meus tios... Eu ganho um monte de presentes. Um monte! E você, ganhava quantos?

— Um, unzinho só. Do Papai Noel.

— Ó, vô, acho que eu não ia gostar do seu tempo não.

— É, acho que não. A gente só gosta do tempo da gente.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO