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Reduto dos solteirões da alta sociedade, a boate Passatempo vai fechar as portas

Depois de 22 anos de baladas, a casa noturna marca sua saideira para 20 de dezembro

Por: Ana Carolina Soares

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Congestionamentos são habituais nas noites do Itaim. Nas 98 ruas do bairro, existem mais de 100 opções de bares, restaurantes e baladas frequentadas por um público cheio de disposição juvenil para varar a noite. No número 446 da Rua Jerônimo da Veiga, está a casa noturna Passatempo, ou “Passa”, para os habitués. Por lá, estacionam os mesmos modelos de carros luxuosos que circulam na região e, deles, desembarcam mulheres de minissaia com os cabelos longos escovados e homens de calça jeans grifada com topete moldado com gel. Até aí, tudo segue o padrão. Mas, enquanto na vizinhança a garotada “vai à caça” ao som de música eletrônica, no Passatempo divorciados na faixa entre 30 e 60 anos paqueram, fazem amizades e dançam hits que oscilam de We Are the World, de Michael Jackson e Lionel Richie, a Haja Amor, de Luiz Caldas.Tudo entoado ao vivo (quatro bandas por noite se revezamno palco). Em ocasiões especiais, sobem ao palco figurões da MPB como Alcione, Toquinho e Sidney Magal.

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Inaugurada em 1992, a boate é uma das mais antigas da cidade (perde para o Café Piu Piu, com 31 anos, e para o Biroska,com 45), uma longevidade rara em um mercado efêmero, em que as casas fecham as portas ou passam por uma repaginada após três anos. Mas, em 20 de dezembro, o Passatempo apagará as luzes. “A noite mudou. O público trocou a Cavalgada do Roberto Carlos pelo ‘cavalinho’ do funk, e eu me cansei”, lamenta Lilia Klabin, a proprietária. Ela é uma das herdeiras da Klabin, a maior produtora e exportadora de papéis para embalagem do Brasil. Quando terminou seu casamento, decidiu comprar a boate que frequentava, a Sun Flash, e abrir no local o bar. “Fiz esse investimento por amor à MPB, mas, se precisasse viver disso, já teria fechado as portas há tempos”, conta.

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Segundo a empresária, a boate se paga, mas não lucra há quase uma década. “Em relação aos anos 90, esse mercado se retraiu 50%”, estima Percival Maricato, presidente da seccional paulista da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-SP). O aumento da violência, a Lei Seca, o Psiu e a recessão seriam os vilões da boemia. Em janeiro, Lilia quer desocupar o imóvel alugado. Apesar do fim anunciado nas redes sociais, o proprietário diz que ainda não foi comunicado e, por ora, não há planos de um novo inquilino. “Talvez eu reabra o Passatempo daqui a alguns anos, mas, com certeza, em outro ambiente, algo menor, mais intimista”, diz Lilia.

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O público da casa diminuiu na última década, mas há os frequentadores fiéis. “Estou desolado”, diz Reinaldo Kherlakian,um dos donos da Galeria Pagé. Ele começou por ali como cliente e depois virou atração do bar há quatro anos, quando se lançou cantor. Nos tempos áureos, a pista reunia gente como o conde Chiquinho Scarpa, a apresentadora Ana Maria Braga e Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, ao lado de anônimos bastante animados. “É um pessoal bonito, maduro e culto”, define Nayme Romanos, engenheiro de 49 anos. Desde 2011 ele vem de Mogi das Cruzes para São Paulo, pelo menos dois sábados por mês, e desembolsa os 70 reais do couvert artístico para dançar no local. Ao som de Ai Ai Ai, de Vanessa da Mata, a jornalista Juliana Rios, 30, conheceu o empresário Bruno Bezerra, 33, em dezembro passado. Os dois estavam divorciados, engataram um romance e se casaram em agosto. “Vai fazer falta um lugar tão peculiar”, lamenta Juliana.

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Só no Passatempo

Algumas das particularidades do endereço

› Os cantores conseguem emendar no repertório o bolero La Barca com o axé Milla

› Na época áurea, era possível ver na pista Ana Maria Braga, Chiquinho Scarpa e Hebe Camargo

› Na decoração, predomina o clima anos 80: teto baixo, carpete, sofá branco e peças douradas

› O maître veste smoking e os garçons usam terno branco. Alguns mascam cravo para refrescar o hálito

› O cardápio oferece uma garrafa de champanhe Cristal por 3 434,51 reais e picadinho por 44,10 reais

› Os preços do menu são todos “quebrados” porque o reajuste anual de 10% é seguido à risca

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Fonte: VEJA SÃO PAULO