Crônica

Boas festas

Por: Ivan Angelo

Boas festas
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Feliz Ano-Novo, brasileiros, infeliz ano velho. Que esperar nesta passagem? Que os olhares de todos voltem a procurar a perdida franqueza e que entre pessoas civilizadas se possa ter opinião, sem ofensa.

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Que as mãos voltem a se afastar do que não lhes pertence, que o temor do opróbrio e do japonês da Federal possa segurar a insensatez dos ambiciosos, a fome dos que não têm fome, o ímpeto da cobiça, o despudor dos malfeitores, que voltem a ser uma vergonha o roubo, o rombo, o descaminho, a concussão, a fraude, a propina, a malversação, o por-fora, a começão, o rapa, a ratonice, a rapina, o saque, a pilhagem, a apropriação, o dinheiro sujo, a mamata, o desvio, a corrupção — vergonha que nenhuma delação premiada possa apagar.

Que o amor aproxime corações, bocas e corpos com a ternura de sempre, o apetite necessário e novas liberdades, que ele não para de inventar. Que os amigos voltem a se falar, pois, como diz o sábio poeta do Eclesiastes, há tempo de rasgar e tempo de remendar.

Que se possa acabar com esse medo das ruas, o medo de ir e vir e de estar, para voltarmos a fruir as nossas cidades, nossas alamedas, nossas vias e ciclovias, jardins e praças, nossos cinemas de primeira, os dedicados museus, as pizzarias ruidosas, os restaurantes estrelados ou os simples sob o céu de estrelas, a casa do nosso avô, o boteco fraternal, o namoro na esquina, o descer para fumar. Que voltem a ordem e, se possível, o progresso.

Que punições justas restabeleçam nossa confiança na Justiça e na lei, que a morte dos nossos queridos não fique impune, os assassinos bêbados do trânsito não transitem, os hediondos do crime não sejam menores, os ladrões do nosso patrimônio sejam despossuídos, os golpistas sejam golpeados, os maléficos, os safados, os vilões — todos os faltosos — paguem segundo sua falta e não segundo a chicana dos seus advogados.

Que os vendilhões que dominaram os templos como máfias sejam apontados, despojados do luxo e suas vozes clamem no deserto. Feliz Ano-Novo, brasileiros, infeliz ano velho, ano em que deixamos um pouco de nós em cada esquina, em que ficamos desamparados, perdemos empregos, esperanças, dinheiro, planos de saúde, ilusões, civilidade, tolerância, amigos, confiança, bom humor, apoio, orgulho nacional.

Que se reaprenda a urbanidade e voltem a limpeza aos muros, a paciência ao trânsito, a civilidade às torcidas, a educação às escolas, a paz às manifestações. Que as carências sejam mitigadas e voltem a água às torneiras, a carne ao prato, o filho à casa são e salvo, o sem - teto ao abrigo, o médico ao posto de saúde, a amada ao só, o sabiá ao ninho, a chuva ao sertão, as nozes ao Natal, a inspiração aos poetas.

Que a internet deixe de ser esconderijo de delinquentes, a televisão melhore seu cardápio, as galerias não enganem incautos, o cinema se reaproxime da sétima arte. Que balas perdidas não busquem abrigo em nossos corpos.

Que a boa qualidade volte a ser o paradigma das artes e ofícios, e barragens de rejeitos não vazem sua lama mortal pelos vales e rios, viadutos não caiam sobre cabeças cidadãs, publicações imperfeitas não disseminem enganos, gasolinas adulteradas não engasguem motores, o futebol torne a ser a alegria do povo e não dos cartolas. Que voltem as festas, brasileiros, e boas festas.

Fonte: VEJA SÃO PAULO