Comportamento

Aspirantes a blogueiras de moda iniciam curso universitário na área

Faculdade da capital começa as aulas do primeiro curso do país para garotas interessadas em escrever sobre beleza e moda

Por: João Batista Jr.

Alunas Faculdade de blogueiras Belas Artes
Ana Arantes, de Petrópolis, Priscila dos Santos, de Brasília, Lylite Almeida, de Belém, e Andressa Pereira, de Uberlândia: cerca de 70% das matriculadas são “forasteiras” (Foto: Fernando Moraes)

Uma das mais bem-sucedidas blogueiras de moda do país, Thássia Naves publica conteúdo diariamente em seu site pessoal e abastece sua conta no Instagram com fotos de roupas, pagando de bonita em primeira classe de avião e na primeira fila de desfiles na Europa. Na semana passada, por exemplo, estava em Milão para assistir aos desfiles da Prada, de Roberto Cavalli e da Fendi. “Nossa vida é glamourosa, mas, nas viagens, praticamente não dormimos”, garante. “São muitos os compromissos, e temos de alimentar nossas redes sociais sem jamais deixar de interagir com os seguidores.” Parte considerável do material é patrocinada (gente do mercado calcula que seu faturamento chegue a 100 000 reais por mês). A colega Lala Rudge roda o mundo e as festas mais chiques da cidade mostrando seus “looks do dia”, repletos de grifes caras e, devido ao seu sucesso entre as meninas, criou uma grife de roupas íntimas. Outro nome forte da área, Camila Coelho, com seu canal de tutorial de maquiagem na internet, virou garota-propaganda do YouTube e acaba de comprar uma mansão de três andares em Boston, nos Estados Unidos, onde vive com o marido.

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Para a legião de meninas que um dia sonha em levar a vida de Thássia e Lala, a faculdade Belas Artes, na Vila Mariana, criou o curso de mídias sociais digitais. Na prática, seu objetivo é formar blogueiras de moda e de beleza. “Queremos fazer com que elas ganhem dinheiro como empreendedoras da internet”, diz a coordenadora Carol Garcia. Iniciado na semana passada, o curso é um sucesso. Matricularam-se 37 estudantes (somente cinco homens), quase o dobro do esperado. Apenas uma pessoa não passou no vestibular por não dominar o inglês, ferramenta essencial para acompanhar o que rola de importante no exterior e na sala de aula daqui, na qual os professores abusam de termos como co-brand, storytelling e influencer. A mensalidade custa 1980 reais. Muitas estão ali fazendo uma segunda graduação. Cerca de 70% das estudantes vieram de fora. Há desde uma aluna que abandonou o 4º ano de psicologia na Universidade Federal de Brasília até outra que fez administração em Uberlândia. “Quero profissionalizar a minha página e atrair anunciantes”, planeja Ana Arantes, de 20 anos, que veio de Petrópolis.

Ingrid Gasparini
Ingrid Gasparini: em busca de projeção (Foto: Fernando Moraes)

Nem todo mundo terá de começar do zero. Ingrid Gasparini, paulista de Vargem Grande, conta que é uma YouTuber. “Faço tutoriais de maquiagem para o meu canal de vídeos”, explica. Só no Instagram, ela tem 35 000 seguidores. “Uso roupas de lojas pequenas, mas ainda não ganho dinheiro para vesti-las”, conta, referindo-se à forma mais manjada de faturamento das profissionais da área. Ingrid investe em tecnologia e usa como ferramentas de trabalho um iPhone Plus e um Mac Book Pro. “Gasto pelo menos 2 000 reais por mês para manter meu endereço. Entre outras coisas, saio de casa para vir a São Paulo fazer as fotos do look do dia. Pago do bolso inclusive a gasolina.”

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Aula magna do curso Belas Artes
O início do ano letivo, na semana passada: mensalidade de 1 980 reais (Foto: Fernando Moraes)

Nos primeiros dias de atividades acadêmicas, em meio a um perfil variado de estilos, das moças de salto alto e maquiagem às meninas de sapatilhas, muitas anotavam no iPhone e tablet as palavras dos mestres. Styling e estética e felicidade estão entre as disciplinas previstas. A idealização da graduação partiu de Alice Ferraz, assessora e empresária que criou a F*Hits, plataforma digital que administra e agencia mais de vinte blogs. Segundo Alice, a carreira ainda é vista com preconceito. “Mas, se alguém paga as contas com seus posts, então ser blogueira é uma profissão de fato”, afirma. Agora, como mostra o exemplo da Belas Artes, com direito até a diploma.

O bê-á-bá da classe

Alguns termos estrangeiros usados em sala

Co-brand: termo que designa as parcerias comerciais entre empresas e blogueiras, que representam a maior fonte de receita da turma

Influencer: versão mais metida de “formador de opinião”, como diferencial de que ele consegue aumentar o volume de vendas do conteúdo que publica na internet

Mentoring: aquele que idealiza algo, seja um blog, seja uma estratégia de divulgação

Storytelling: forma de contar histórias com enredos que passam uma boa imagem do narrador

YouTuber: pessoa que tem um canal próprio no YouTube

Fonte: VEJA SÃO PAULO