Cidade

Ex-donos de bingos começam a se desfazer de construções luxuosas

Com IPTUs que chegam a 320.000 reais, proprietários têm verdadeiros elefantes brancos nas mãos

Por: Mariana Barros

Bingos 2207
Bingo Imperatriz: projeto de bufê com montanha-russa (Foto: Cida Souza)

Fechados há mais de três anos, imóveis onde funcionavam grandes bingos da cidade tornaram-se como que mausoléus da jogatina. Por fora, as portas trancadas indicam que ali jaz o que restou da época em que as cartelas eram um passatempo lícito. Por dentro, parecem ter sido congelados no tempo: carpetes escovados, banheiros limpos, lâmpadas funcionando e o mesmo aspecto extravagante de quando encerraram as atividades. Proprietários e locatários decidiram arcar com a despesa de manter as instalações intactas na esperança de uma eventual legalização do jogo. “Cada vez que eu pensava em me desfazer dos imóveis, o tema voltava a ser debatido no Congresso”, diz o empresário Jair de Paula, que teve participação em 22 casas no país (doze na capital) e comandava 5.400 funcionários.

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Bingo Augusta: cartaz do tempo em que as apostas eram permitidas (Foto: Cida Souza)

Os bingos foram regularizados após a aprovação da Lei Zico, de 1993. Parte de sua arrecadação ia para entidades esportivas e filantrópicas. Eles caíram na clandestinidade a partir de 2001, quando as autorizações de funcionamento foram cassadas. Vários deles, no entanto, seguiram na ativa apoiados em liminares concedidas pela Justiça estadual. Em 2007, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou essas permissões provisórias. Desde então, o assunto volta, de tempos em tempos, à mesa de discussão dos parlamentares. A última movimentação ocorreu em dezembro, quando o projeto de regularização aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados foi vetado em plenário. Não há previsão de quando (ou se) o assunto retornará à pauta. Descrentes no regresso das bolas numeradas, donos de antigos bingos começam enfim a desistir da retomada. “Para mim, acabou”, diz Paula.

Descendente de portugueses da Saúde, na Zona Sul, Jair de Paula conta ter abandonado a carvoaria e a churrascaria que possuía para lucrar com a sorte e o azar dos outros. “Levei anos para tomar essa decisão, mas não dá mais para ficar esperando o bingo voltar”, afirma. A primeira iniciativa foi achar um destino para o que considera sua menina dos olhos, o Bingo Imperatriz, na Rua Estela, paralela à Avenida 23 de Maio, no Paraíso, um dos mais luxuosos da capital.

Não foi preciso procurar muito. Contratada por um grupo de investidores, a decoradora de festas infantis Andréa Guimarães, uma das mais requisitadas para os parabéns de rebentos de celebridades, buscava desde o ano passado um local onde pudesse montar um bufê grandioso o bastante para ser disputado pelos pais das crianças endinheiradas. Em uma festa, sentiu ter encontrado a solução quando um amigo a apresentou a Jair de Paula. “Não conheço na cidade um lugar com estrutura igual. Começamos a negociar ali mesmo”, afirma Andréa, que espera selar o acordo nas próximas semanas. Uma vez assinada a papelada, a previsão é inaugurar o espaço até o fim deste ano. O projeto inclui montanha-russa no escuro com loopings e labirinto de laser shot, brincadeira em que os participantes travam combates usando disparos de laser.

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Imperador, em Perdizes: igreja, supermercado e concessionárias entre os interessados (Foto: Mario Rodrigues)

Os 4.600 metros quadrados do Imperatriz devem, portanto, perder sua exótica decoração africana, repleta de estátuas de divindades e guerreiros, máscaras tribais, réplicas de dentes de elefante emergindo do chão e um painel de água corrente de cerca de 4 metros pintado em tons avermelhados que imitam o sol poente. Podem ser descartados cinquenta mesas de jogo, centenas de cadeiras com logotipo e mais de setenta computadores usados por quem jogava com várias cartelas por vez — itens que permanecem amontoados no salão. As duas máquinas em que as bolinhas sorteadas despontavam impulsionadas por um duto de ar também ainda figuram por ali.

Por enquanto, os peixes continuarão a nadar no lago sob o piso de vidro. O teto da entrada principal, que reproduz um céu noturno estrelado, segue piscando até segunda ordem. Não se sabe se o complexo de lazer dos funcionários, com academia e sauna, será mantido. Jair de Paula espera que o aluguel mensal, em torno de 460.000 reais, comece a compensar o prejuízo com seu elefante branco, cujo IPTU anual é de cerca de 320.000 reais.

Além do Imperatriz, o empresário quer alugar outro ex-bingo grandioso, o Imperador, na Avenida Sumaré, em Perdizes — ali, o IPTU é de cerca de 260.000 reais. “Entre os interessados, apareceram igreja evangélica, supermercado, casa de shows e três concessionárias”, diz a corretora Valentina Caran, que pendurou a placa de “Aluga” há apenas um mês. Até o momento, a favorita para locar o espaço por cerca de 300.000 reais é uma das concessionárias, que pode assim ampliar os pontos de oferta de carros novos e usados que já permeiam toda a avenida.

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Bingo Pamplona, no Jardim Paulistano: à espera de uma reviravolta que não veio (Foto: Cida Souza)

Na esquina da Rua Pamplona com a Avenida Paulista, o imóvel onde existia o Bingo Paulista virou shopping popular, cujos estandes expõem produtos eletrônicos e de perfumaria, muitos deles piratas. No Jardim Paulista, o Bingo Augusta ainda exibe um cartaz da época em que funcionava, alertando para o perigo do vício na jogatina. Lá dentro, a estrutura se mantém, e o estacionamento contíguo garante alguma renda. A poucos quarteirões dali, o Bingo Pamplona, na rua de mesmo nome, segue de portas fechadas, assim como a casa de jogos que havia na Avenida Angélica, em Santa Cecília. Resta saber a quantas rodadas esses empresários resistirão antes de entregar as cartelas e passar o ponto.

Fonte: VEJA SÃO PAULO