Crônica

O bilhete da sorte na praia

Por: Matthew Shirts

“Cubra a patroa de diamantes”, ouvi, tinha certeza de que era isso mesmo, ali na minha cadeira, sentado debaixo do guarda-sol na Praia Brava da Fortaleza, em Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo. Estava sozinho. Meu filho caçula, Samuel, pegava onda no mar. Era o último dia do ano de 2014, umas 11 horas da manhã. Sei disso porque, quando me virei para entender quem poderia gritar uma frase tão deliciosamente retrô como “cubra a patroa de diamantes”, ali na areia, vi uma vendedora da Mega-Sena da Virada, sim, aquela dos 250 milhões de reais que correria em 31 de dezembro.

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Não sabia que existia isso, vendedora de bilhete de loteria na praia. Faz tempo que não vou ao litoral. Já há alguns anos que passo o maior número possível de datas comemorativas em São Paulo mesmo, sem sair da nossa cidade. Vou a cinemas, livrarias, cafés, até a um museu ou outro. Mas no ano passado o filho mais velho, Lucas, de 30 anos, resolveu que seria diferente. Nós, os homens do ramo brasileiro da família Shirts, passaríamos o réveillon em Ubatuba. Lucas cuidou de tudo. Já haviam me avisado de que chegaria esse momento na vida. Estava preparado para ele. Não resisti.

Enquanto o caçula pegava onda, eu lia um livro debaixo do guarda-sol sobre a americanização de tudo em todo lugar, escrito por um australiano, Peter Conrad. É uma obra instigante, mas sem qualidade suficiente para recomendá-la a você, leitor. Provocou, no entanto, uma reflexão a respeito do que havia de efetivamente brasileiro ali na Praia Brava, ou, como diz o Lucas, Angry Beach.

A Mata Atlântica é brasileira, concluí. É um bioma com tecnologia própria, de milhares de anos, que aguenta o sol mais inclemente, chama a chuva para si, filtra a água e dá lugar a todo tipo de vegetação e fauna. É o carnaval dos ambientes naturais. Pirei nela, como se diz, durante aminha primeira visita ao Brasil, ainda garotão, na década de 70. Voltei aos Estados Unidos garantindo que “nem no Havaí (que conhecia) é tão exuberante a floresta”. Fazia sucesso com as californianas esse papo.Continua linda a Mata Atlântica, ali, no Litoral Norte, apesar de todas as construções e ameaças.

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Nosso companheiro de viagem, o hipster-renascentista Ivan, trazia do quintal atlântico da casa cachos de bananas e jacas que amadurecia ou cozinhava e servia com elegância. Capturava também insetos, apontava mamíferos tropicais nas árvores. Havia no fim da nossa rua, também, um mercadinho que servia tapioca, a comida brasileira da vez. Está na moda, não só aqui mas no mundo. A tapioca poderá ser o próximo açaí. Meu irmão foodie perguntou, da Califórnia, como é que se faz. A fama da iguaria já é internacional.

Quando o caçula, Samuel, voltou da água, pedi que ele corresse atrás da vendedora de bilhetes da loteria. Nada poderia ser mais brasileiro do que a Mega-Sena da Virada, concluíra ali na areia, e eu queria participar. Discordava da tese do livro do australiano. A Mata Atlântica ainda é nossa. Vamos cuidar dela.

matthew@abril.com.br.

Fonte: VEJA SÃO PAULO