Exposição

29ª Bienal de São Paulo: sopro de vida

Ameaçado de acabar por causa de problemas de gestão e dívidas, o mais importante evento de arte do país renasce sob nova direção

Por: Jonas Lopes - Atualizado em

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Há dois anos, o público paulistano assistiu ao que parecia ser o melancólico fim do mais importante evento artístico do país, a Bienal de São Paulo. Com problemas de gestão, a 28ª edição da mostra, realizada desde 1951, ficou com o 2º andar do pavilhão projetado por Oscar Niemeyer no Parque do Ibirapuera vazio — um protesto dos curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen contra as dificuldades financeiras e a impossibilidade de ocupar todo o edifício devido à falta de dinheiro. O restante da exposição, logo apelidada de Bienal do Vazio, tampouco animou os espectadores. Para muitos, tratou-se da pior da história. O número de visitantes confirma a constatação: foram 161 000 pessoas, contra 535 000 em 2006 e 917 000 em 2004.

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Artistas plásticos conceituados teceram críticas à administração. “Era um narcisismo institucional horroroso, uma Bienal sobre ela mesma”, afirma Nuno Ramos. Quando já se chegava a cogitar o seu fim, o executivo Heitor Martins, 42 anos, sócio-diretor da empresa de consultoria empresarial McKinsey, candidatou-se à presidência da fundação e foi eleito em maio de 2009, em substituição ao empresário Manoel Pires da Costa. Começou, então, o processo para ressuscitar a grande vitrine de arte brasileira para o exterior, idealizada pelo industrial Ciccillo Matarazzo (1898-1977). Com abertura prevista para o próximo dia 25, a edição deste ano terá 159 artistas e cerca de 650 obras reunidas no Parque do Ibirapuera. O público esperado é de 1 milhão de pessoas. 

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(Foto: Veja São Paulo)

Mais ligado ao meio empresarial do que ao artístico — embora seja colecionador e marido da diretora da SPArte, Fernanda Feitosa —, Martins evita polemizar sobre a gravidade da situação encontrada. “Eram 4 milhões de reais em dívidas, sobretudo judiciais, bancárias e com fornecedores e artistas”, diz. Reuniu-se com potenciais doadores e conseguiu arrecadar 45 milhões de reais, 30 milhões dos quais serão investidos na exposição. A sobra servirá para reformar o Pavilhão da Bienal, até hoje carente de equipamentos básicos, como ar-condicionado em todo o prédio.

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Detalhe de túnel de Henrique Oliveira (Foto: Fernando Moraes)

Por que então na última década se sofreu tanto para captar verbas? “Dinheiro é consequência de um projeto”, acredita Martins. “Precisávamos reafirmar a importância da Bienal como instituição. Ela estava isolada, fechada em si mesma, sem estabelecer diálogo com a sociedade, quando deveria servir como um catalisador de desenvolvimento econômico para São Paulo.” Sem esquecer, é claro, que a Bienal tem como papel trazer para cá uma mostra do que está sendo feito de importante na arte em outros lugares. Há ainda um projeto de levar versões reduzidas desta edição a duas cidades do interior e de seis a nove capitais.

Será uma ótima oportunidade para os visitantes conhecerem artistas contemporâneos relevantes, assim como 100 000 pessoas puderam aproveitar, há mais de meio século, a estupenda seleção da segunda Bienal, em 1953. Naquele ano, o painel ‘Guernica’, de Pablo Picasso, foi exibido no Ibirapuera ao lado de cinquenta telas do espanhol e de trabalhos de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Giorgio Morandi. Outra edição considerada fundamental é a de 1998, conhecida como a Bienal da Antropofagia. Nela, o curador Paulo Herkenhoff reuniu obras de Vincent van Gogh, Francis Bacon, Alberto Giacometti e René Magritte. “Para a minha geração, essa era a chance de manter contato com trabalhos inacessíveis”, comenta Nuno Ramos.

Desta vez não teremos Picasso nem Van Gogh, mas não dá para reclamar. Os curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos, escorados em cinco curadores estrangeiros convidados, bolaram uma programação de fazer inveja a muitas mostras mundo afora. Entre os destaques internacionais estão o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, a fotógrafa americana Nan Goldin e videoartistas como o belga Francis Alÿs e o inglês Steve McQueen.

Mas impressionante mesmo é o elenco brasileiro — outra grande missão da Bienal é divulgar nossa arte no exterior. Foram convidados, entre outros, Nuno Ramos (o paulistano apresentará a instalação Bandeira Branca, que inclui três urubus vivos), Daniel Senise, Wesley Duke Lee, Antonio Dias, Miguel Rio Branco e Nelson Leirner. Estão previstas homenagens aos já falecidos Flávio de Carvalho, Hélio Oiticica, Oswaldo Goeldi, Lygia Pape, Mira Schendel e Leonilson. Jovens talentos, caso de Tatiana Blass e de Henrique Oliveira, não foram esquecidos. Até a pichação terá vez, por meio de registros fotográficos de intervenções realizadas na cidade, selando a paz depois que, em 2008, um grupo de desordeiros invadiu a exposição para conspurcar paredes e vidros.

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Presidente da Fundação Bienal, Heitor Martins: “A instituição estava isolada, fechada em si mesma” (Foto: Fernando Moraes)

Sob o tema ‘Arte e Política’, a Bienal emprestou como título um verso do poeta alagoano Jorge de Lima, incluído no livro ‘Invenção de Orfeu’: 'Há sempre um copo de mar para um homem navegar'. “Queremos celebrar, com essa frase, o poder transformador da arte. Assim como um mero copo pode conter um oceano, uma obra pode propor novas visões para uma pessoa”, teoriza Moacir dos Anjos.

Com o intuito de aproximar os visitantes, os curadores criaram seis espaços temáticos intitulados terreiros. São locais de convivência que funcionam também como bem-vindo ponto de descanso depois das várias horas necessárias para apreciar pinturas, fotografias, gravuras, vídeos e instalações. Ali ocorrerão palestras, debates, projeções de filmes, leituras e performances de nomes como o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa. Ainda não totalmente definida, a programação estará disponível no site www.fbsp.org.br.

Outro eixo no qual a organização aposta é o educativo. Do milhão de visitantes esperados, a previsão é de que 400 000 sejam estudantes. Para tanto, 300 educadores passaram por cursos sobre como transmitir informações de arte contemporânea de maneira didática, sem hermetismo, para crianças e adolescentes. “Precisamos explicar de um modo específico para cada faixa etária, criar conceitos relacionados à vida prática dos jovens e encorajar percepções pessoais”, conta a curadora educacional, Stela Barbieri. A ideia é manter o programa mesmo quando a Bienal não estiver em cartaz. “Depois de aprender arte de um modo eficiente, o visitante passa a ter outro nível de compreensão”, diz Heitor Martins. “É como o buraco de ‘Alice no País das Maravilhas’: ao entrarmos ali, abre-se um universo rico e fascinante.

 

A MOSTRA EM DOIS MOMENTOS

Ao longo de 59 anos e 28 edições, a exposição passou por fases de glória e frustração

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Público aguarda a abertura da 2ª Bienal, realizada em 1953 (Foto: Acervo- Arquivo Histórico Wanda Svevo - Fundação Bienal de São Paulo)

 

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2° andar do Pavilhão da Bienal (Foto: Rogerio Paliatta)

Fonte: VEJA SÃO PAULO