Dança

Shows na Avenida Paulista ajudam bailarinas em turnê no exterior

Interessada pela história das meninas, uma agência de viagens doou 15 000 reais

Por: Nathalia Zaccaro - Atualizado em

Bailarinas na Avenida Paulista
Bianca e Júlia (esq. e dir., em pé) e Giovanna e Rosana (esq. e dir., sentadas): palco improvisado na calçada (Foto: Ricardo d`Angelo)

Professora de balé há 25 anos, a coreógrafa Sônia Almeida observava atenta os movimentos de quatro de suas alunas durante uma apresentação no último sábado (9). Ela corrigia a postura, exigia sorrisos e movimentava as mãos como se regesse uma orquestra. A cena seria corriqueira nos preparativos de uma trupe de dançarinas, exceto pelo local onde ocorria. “Depois de se exibirem em solo tão impróprio, minhas meninas vão tirar de letra qualquer teatro”, comentava a professora. O terreno em questão era um recorte de linóleo, uma espécie de tecido impermeável, estendido sobre uma das mais movimentadas vias da capital, a Avenida Paulista, perto da esquina com a Rua Augusta. Ao som de peças clássicas como O Quebra-Nozes e A Bela Adormecida, Júlia Togni, Bianca Oliveira, Rosana Silva e Giovanna Souza, todas entre 13 e 15 anos, davam demonstrações do que aprenderam nas aulas de Sônia. Na semana anterior, o mesmo grupo havia protagonizado um espetáculo semelhante no mesmo lugar, para espanto de muitas pessoas que passavam por ali.

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Ao lado do palco improvisado, uma placa explicava o motivo do show das jovens artistas: angariar fundos para realizar o sonho de participar de um concurso de dança em Lyon, na França, em abril. Sem os 22 000 reais necessários para pagar as passagens, os custos da inscrição e a hospedagem, o quarteto resolveu mostrar seu talento ao ar livre para tentar levantar o dinheiro. “Estávamos desesperadas com a possibilidade de não poder viajar, pois nossas famílias não têm como pagar, e foi aí que tive a ideia de pedir ajuda na Paulista”, explica Rosana, que convenceu as três amigas. Os outros oito integrantes da trupe, também estudantes da Escola Municipal de Bailado de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, já haviam garantido por conta própria a verba necessária à excursão.

Bailarinas da Paulista - Domingo Legal
O quarteto com Celso Portiolli: sonho realizado (Foto: Divulgação)

Na última apresentação na Avenida Paulista, as garotas tinham como vizinhos alguns harekrishnas. Durante aproximadamente três horas, dezenas de curiosos pararam por lá para conferir a performance do quarteto. “Morri de vergonha no começo e tive medo também de como seríamos recebidas, mas na verdade foi tudo mágico e descobrimos quanto nossa arte faz bem às pessoas”, lembra Giovanna. Foi mesmo um sucesso de público, com muitos aplausos no final. Algumas crianças tentaram acompanhar os passos e houve até quem chegasse às lágrimas, caso da produtora Zizi Bergamaschi. “É um presente sair de casa e encontrar uma coisa dessas na rua. Enche meu coração de esperança saber que nossas crianças estão respirando cultura”, afirmou ela.

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Bailarinas e professora na Avenida Paulista
A professora Sônia: escola ameaçada de fechar (Foto: Ricardo d`Angelo)

Toda essa comoção rendeu no fim daquele dia apenas 400 reais. Somados aos 1 000 reais obtidos na outra apresentação, o “cachê” não cobria os custos da desejada viagem. O socorro veio da produção do Domingo Legal, programa de Celso Portiolli no SBT, que as convidou para uma participação. A aparição delas na TV no domingo (10) atraiu o interesse de uma agência de  viagens, que doou 15 000 reais. Para completar a verba necessária, as mães das meninas parcelaram as passagens aéreas do grupo. “Elas merecem esse nosso esforço”, conta Sandra Rodrigues, mãe da bailarina Giovanna, de 13 anos.

Além de viabilizar o sonho do quarteto, a exposição rendeu frutos para a professora Sônia Almeida. Desde o fim do ano passado ela estava afastada do cargo de diretora da escola. A instituição, que mantinha cerca de 300 aprendizes, foi fechada para reformas pela prefeitura, a mantenedora do espaço. Até março, porém, ninguém sabia informar quando as atividades seriam reiniciadas, jogando uma nuvem de incerteza sobre o projeto. Há poucos dias, porém, o prefeito de Taboão, Fernando Fernandes, procurou a professora para garantir que ela retornaria ao comando do grupo e uma data seria definida em breve para a volta às aulas da turma.

PASSAPORTE CARIMBADO

O perfil do grupo que vai embarcar para a França

■ Origem da companhia:Taboão da Serra

■ Equipe: doze bailarinos da Escola de Ballet Sônia Almeida

■ Período da campanha na rua: fevereiro e março

■ Quantia arrecadada: 1 400 reais

■ Programação na Europa: quinze apresentações em Lyon

Fonte: VEJA SÃO PAULO