Dança

Marilena Ansaldi volta aos palcos aos 79 anos

Desde 2007 sem atuar, a bailarina e atriz protagoniza espetáculo que viaja para a Europa e retorna a São Paulo em agosto

Por: Dirceu Alves Jr.

Marilena Ansaldi
Marilena Ansaldi: precursora do teatro-dança (Foto: Lucas Lima)

Nas últimas semanas, fortes dores nas articulações das pernas e dos braços incomodam a celebrada atriz e bailarina paulistana Marilena Ansaldi. Nada, no entanto, que uma dose controladade anti-inflamatórios não amenize e a faça seguir a bateria de ensaios iniciada em dezembro passado. Convidada pelo diretor José Possi Neto e pelo coreógrafo Anselmo Zolla, Marilena rompeu a aposentadoria que parecia irrevogável para protagonizar ao lado dos integrantes da Studio3 Cia. de Dança e da bailarina Vera Lafer o espetáculo Paixão e Fúria — Callas, o Mito

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Um desafio e tanto superado a cada dia por uma senhora de 79 anos que, entre 1962 e 1965, integrou o Balé Bolshoi, na então União Soviética, e não pisava em um palco desde 2007. “São dores que estão associadas ao retorno da vida, a um renascimento que nem sonhava mais e, por isso, só aumenta mminha alegria”, afirma ela, que impressionapela agilidade dos movimentos e desenvoltura com que circula pelo apartamento em que mora, um quarto e sala, na Bela Vista.

Paixão e Fúria —Callas, o Mito
Cena do espetáculo 'Paixão e Fúria - Callas, o Mito', com Studio3 Cia. de Dança e Marilena Ansaldi (Foto: Annelize Tozetto)

Homenagem à mítica cantora lírica americana Maria Callas (1923-1977), a montagem faz a última sessão neste sábado (17/5), às 21 horas, no Teatro Sérgio Cardoso, e volta ao cartaz na cidade em agosto. Antes disso, Marilena e o elenco cumprem agenda de duas semanas em junho na Europa, com apresentações em Milão e Paris, e, de volta ao Brasil, passam pelo Rio de Janeiro. “É impossível transformar uma obra de arte, como a Mona Lisa, de Da Vinci, então eu moldei a nova coreografia ao gestual e à dramaticidade natural de Marilena, uma artista que fala com os braços”, afirma Zolla, em sua primeira experiência profissional com ela.

Marilena Ansaldi em  "Isso ou Aquilo" (1975)
Cena do espetáculo 'Isso ou Aquilo' (1975) (Foto: GERSON ZANINI)

Parceiro há 35 anos, desde a peça Um Sopro de Vida, Possi, por sua vez, valoriza ainda mais a retomada da colega veterana. “Trata-se de uma experiência revigorante, em que essa grande intérprete, tão habituada aos solos, se coloca à frente de uma companhia formada por talentos de diferentes formações e gerações.”

Possi e Zolla não são apenas responsáveis por tirá-la do ostracismo. Eles também a trouxeram de volta à vida. No fim de 2010, depois de complicações em um tratamento dentário, Marilena foi acometida por uma bactéria que lhe causou febre incessante e dificuldade de respirar. Com a ajuda de Vera Lafer, os dois a internaram no Hospital Sírio-Libanês e, por quinze dias, ela, que não tem plano de saúde, ficou praticamente desenganada.

+  Sobre o espetáculo Paixão e Fúria — Callas, o Mito

Aos poucos, Marilena retomou a rotina, como o hábito das caminhadas diárias pelas ladeiras da Bela Vista por mais de duas horas. A elegante bailarina garante que, assim, sempre manteve os 54 quilos, distribuídos em 1,60 metro de altura. Em cena, na ponta dos pés e com os braços para o alto, atinge 1,74 metro de envergadura. “Nunca frequentei academia e, no máximo, pratico exercícios regulares de alongamentono chão da minha sala”, garante ela, que também jamais recorreu ao bisturi. Sem filhos, Marilena foi casada com o crítico teatral Sábato Magaldi e vive sozinha há mais de trinta anos, tendo como companhia Belinha, sua cachorrinha bassê. Nos próximos meses, durante a turnê profissional, o pet ficará sobos cuidados de uma vizinha 

Cena da novela "Selva de Pedra" (1986)
Beth Goulart, Christiane Torloni e Marilena Ansaldi em cena da novela 'Selva de Pedra' (Foto: CLAUDIA DANTAS)

Ser filha de um barítono e de uma corista não facilitou o percurso de Marilena. “Meu pai dizia que dança era coisa de prostituta”, lembra. Ela só começoua estudar balé aos 16 anos. Abandonou o clássico na década de 70 para difundir um novo gênero no Brasil: o teatro-dança. Sem nenhum patrocínio, produziu, roteirizou e protagonizou espetáculos em que dava peso equivalente ao gestual e ao texto, algo inédito por aqui. Sempre confundiu aqueles que buscavam enquadrá-la em um rótulo.“Quando me perguntam se sou bailarina ou atriz, respondo que não sei. Costumo dizer que sou um híbrido”, define ela. Fora dos palcos, chegou a participar das novelas globais Selva de Pedra (1986) e Cara & Coroa (1995).

Picasso e Eu (1982)
Cena do espetáculo 'Picasso e Eu', com Marilena Ansaldi (Foto: SILVIO FERREIRA)

Não é a primeira vez que a artista surpreende a todos com seu retorno. Soterrada por uma depressão, Marilena já havia abandonado o teatro por doze anos, de 1993 a 2005, e voltou para encenar as palavras do poeta Fernando Pessoa na peça Desassossego, intimada pelo diretor Marcio Aurelio. “Eu sou muito intensa, a ponto de fazer cada trabalho como se fosse o último; então não sei se estou vivendo omeu canto do cisne, mas é bem possível, até porque um dia a vida acaba”, afirma ela. Os fãs de Marilena Ansaldi sabem, no entanto, que a cada despedida sempre existe uma chance de a estrela renascer, tal como uma fênix das cinzas.

Fonte: VEJA SÃO PAULO