Trânsito

Autoescolas oferecem aulas em simuladores de direção

Objetivo da nova resolução do Contran é aumentar a confiança dos aprendizes ao volante antes das sessões com o carro na rua

Por: Raphael Martins

Autoescola simulador
A estudante Lígia Pinheiro, no CFC Via Tran, na Lapa: medo controlado (Foto: Lucas Lima)

No game Gran Turismo, um dos mais populares dos consoles quando o assunto é velocidade, todo jogador precisa superar testes de habilidade para conquistar a licença que dá o direito de disputar as corridas. Agora, os aspirantes a motorista de verdade também terão de enfrentar desafios virtuais. Uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), em vigor desde o último dia 1º, estipula que os alunos das autoescolas devem passar por cinco aulas de trinta minutos em simuladores de direção após a realização da prova teórica. O objetivo é aumentar a confiança dos aprendizes ao volante antes das sessões com o carro na rua. A regra só vale para a primeira habilitação na categoria B, a dos veículos de passeio. Quem renova a carta está liberado da novidade, que amplia a carga horária em cerca de 5% e aumenta o preço médio do curso de 1 200 reais para 1 400 reais.

As empresas correram para adquirir o equipamento neste mês, mas por enquanto podem oferecê-lo aos clientes apenas em caráter de demonstração. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) promete finalizar nesta semana as vistorias para checar se os espaços estão cumprindo as exigências da medida, como disponibilizar uma sala de, no mínimo, 15 metros quadrados equipada com câmeras de fiscalização. A partir daí, a iniciativa será oficialmente obrigatória.

Autoescola simulador
O empresário Fernando Jorge, da autoescola Veja: aparelho alugado (Foto: Fernando Moraes)

O visual da cabine é quase idêntico ao dos tradicionais fliperamas de corrida. Mas as semelhanças param por aí. Existem alavancas de seta e de acionamento dos faróis, limpadores de para-brisa e freio de mão. A visão panorâmica e dos espelhos retrovisores é proporcionada pelas três telas, de 32 polegadas cada uma, dispostas em arco à frente do condutor. O painel é semelhante ao de um carro popular. A aula começa com um tutorial de funções básicas e uso dos pedais. Toda ação é avaliada e repreendida em caso de erro. Uma mera buzinadinha em momento inadequado e um aviso de alerta pipoca na tela. Sem o cinto conectado, o aparelho nem liga. Se o aluno acelerar fundo, é registrada uma infração, e em caso de acidente o vidro se estilhaça. A última parte da lição inclui administrar situações adversas, como neblina, pneu furado e presença de obstáculos.

No final, é apresentado um relatório de falhas, que orienta o professor antes da parte prática, nas vias reais. Ainda é possível pagar por sessões extras, ao preço médio de 40 reais cada uma, para receber instruções específicas, como fazer curvas, andar de ré e conduzir em estradas. “A maioria dos clientes pensa que vai sentar em um videogame, mas é bem diferente, não pode sair dirigindo de qualquer jeito”, explica o presidente do sindicato das autoescolas do estado, José Guedes Pereira. “O equipamento serve só para o iniciante ter alguma noção de como funciona um automóvel.”

Cerca de 100 máquinas estão operando na capital no momento. A estimativa do setor é que serão necessárias mais oitenta para atender a demanda. Apenas quatro empresas vendem o produto, pelo preço médio de 40 000 reais, investimento considerado alto por quem precisa desembolsar o valor. Assim, alguns estabelecimentos optaram pelo aluguel em regime de comodato. “Pagamos uma taxa a cada aula até atingir o valor total do equipamento, que passa a ser nosso”, explica o empresário Fernando Jorge, dono da autoescola Veja, na Casa Verde.

Para profissionais do meio, o simulador é um avanço considerável na didática do processo de habilitação. “Desenvolver a técnica em um ambiente controlado faz o aluno perder o medo de pegar o carro”, entende o instrutor de direção defensiva Roberto Manzini, dono de um centro de pilotagem que leva seu nome, em Interlagos. A estudante Lígia Pinheiro encarou o aparelho na semana passada, no Centro de Formação de Condutores (CFC) Via Tran, na Lapa. “Na primeira vez em que dirigi um carro de verdade foi um desastre, fiquei apavorada”, lembra. “As aulas no equipamento me ajudaram a superar o receio de encarar de novo o trânsito nas ruas”, completa.

Autoescola simulador
Aparelho simulador de direção (Foto: Fernando Moraes)

Passeio virtual

As principais características do aparelho e como ele será utilizado nos cursos de direção

  • O equipamento emula o visual e a mecânica de um carro popular, motor 1.0
  • São cinco aulas de trinta minutos, com a opção de o aluno pagar por sessões extras
  • Ao lado de um instrutor, o aprendiz circula por uma rota predefinida
  • É possível simular cenários como neblina, chuva, pneu furado e animais na estrada
  • Um relatório com todas as infrações cometidas aparece na tela no final da lição

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO