Retratos & ideias

Ele só não prega botão

Engenheiro formado pelo ITA, Augusto Villaescusa herdou aos 23 anos a camisaria do pai e a transformou numa das mais procuradas da cidade

Por: Juliana Mariz - Atualizado em

augusto villaescusa
"Gosto de passar todos os dias em frente ao hospital onde nasci para me lembrar de onde vim" (Foto: Mario Rodrigues)

A caderneta Moleskine e o toco de lápis vão no bolso da camisa. As mãos carregam a gorda e surrada pasta de couro com mais de cinquenta amostras de tecido. Augusto Villaescusa, o Augusto Camiseiro, está pronto para tocar a campainha de uma residência em uma rua do Jardim Paulistano, pegar o crachá em um prédio de escritórios na Vila Olímpia ou ser anunciado em um banco de investimentos na Faria Lima. Para atender cerca de oito clientes por dia, quatro vezes por semana, ele sai de casa às 7 da manhã levado pelo motorista Gil num carro abarrotado de caixas de moldes. Ao deixar o Tatuapé, gosta de passar em frente ao Hospital Dom Pedro II, no Brás. “Assim me lembro de onde vim.”

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Pela natureza do trabalho, Augusto goza da intimidade da clientela estrelada, que vai do arquiteto Isay Weinfeld (colarinho 40,5) ao médico Adib Jatene (colarinho 44). Passa a fita métrica pela circunferência abdominal (sabe quem engordou ou emagreceu), levanta um braço daqui, ajeita um colarinho dali. Em 2008, por exemplo, algumas semanas depois da morte de Ruth Cardoso, ele esteve no apartamento do ex-presidente Fernando Henrique (colarinho 43) para tirar medidas e fazer novas camisas. “Ele estava muito abalado e me disse que ainda via dona Ruth pela casa”, conta Augusto, sem dar mais detalhes do encontro. O camiseiro sabe que, assim como o caimento impecável, a alma do negócio herdado do pai é a discrição. “Não sou amigo dos meus clientes, não jogo tênis com eles, mas há uma afeição, claro”, diz.

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As medidas de FHC em uma das 18 000 pastas de clientes (Foto: Mario Rodrigues)

Formado em engenharia civil pelo prestigiado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) na turma de 1984, Augusto ganhou um empurrão do destino. E com ele uma nova profissão. Aprendeu as manhas do corte e costura na raça, mas tem uma qualidade desejável para quem lida com o público: é um grande conversador. Casado, pai de quatro filhos, ele desfia o novelo sobre a história que o levou a andar pela cidade com o carregamento de puro linho debaixo do braço. Seu pai, o espanhol Augusto Villaescusa, trabalhou com Alfredo George, um dos mestres paulistanos da camisaria sob medida. Na década de 70, com a morte de George, ele resolveu seguir carreira-solo e atender em domicílio. “Meu pai não tinha dinheiro para abrir uma loja, então criou o atendimento porta a porta”, lembra. Era uma rotina puxada. Quando voltava para sua casa, no Brás, continuava o trabalho. No quarto do casal havia uma mesa de corte quase em cima da cama. “Minha mãe dormia e ele ficava riscando moldes até a madrugada.”

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Aos 23 anos e recém-formado, Augusto chegou a dar expediente em uma consultoria financeira. Em 1987, quando decidiu investir numa pós-graduação na Fundação Getulio Vargas, foi barganhar com o pai o pagamento da mensalidade em troca de ajudá-lo na camisaria. Dali nunca mais saiu. O velho Augusto morreu três meses depois, aos 58 anos, de infarto fulminante. Foi um baque. Assumir uma alfaiataria não era exatamente o que planejara para a sua vida, mas em nenhum momento ele pensou em pegar a porta de saída. Convocou as irmãs gêmeas, Monica Khaznadar e Nuria Villaescusa, e arregaçou as mangas da camisa, que já eram feitas sob medida. O desafio era não deixar envergar a coluna vertebral da empresa: o atendimento pessoal. “Eu sabia muito pouco. Só nas minhas férias acompanhava e observava meu pai com os clientes”, conta. Precisou aprender a cortar e costurar. Aproveitou as viagens com a família para conhecer alfaiates antigos. Já bateu na porta de dois lendários do ramo: Finollo, em Gênova, e Alessandro Siniscalchi, em Milão. Mas cita o estilista Tom Ford como o melhor camiseiro da atualidade. “É uma camisa de qualidade, bom corte e caimento”, diz.

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A empresa também é comandada pelas irmãs de Augusto, Monica e Nuria (Foto: Mario Rodrigues)

A grande virada da empresa se deu em 1993, quando Augusto decidiu com as irmãs abrir uma loja na Alameda Jaú, nos Jardins. Onze anos depois, eles se mudaram para a Rua Cravinhos, uma via escondida no mesmo bairro, onde estão até hoje. No térreo ficam as peças de pronta-entrega, amostras de tecido e provadores para o atendimento sob medida. No andar de cima, a oficina com cinco costureiras (outras oito trabalham em casa). O staff conta ainda com seis pessoas responsáveis pelo corte, nove que fazem bordados e duas encarregadas dos consertos. Dali saem entre 600 e 700 camisas por mês, com preços que variam de 240 a 380 reais - as confeccionadas com tecido nacional - e de 400 a 1 000 reais - no caso dos importados. Além de a camisa ser fabricada nos moldes exatos do cliente, escondendo suas imperfeições, há detalhes que fazem a diferença: a etiqueta fica na barra, e não no colarinho, “para não incomodar”; o lado avesso e o direito são iguais; a entretela (mais ou menos firme) do colarinho pode ser escolhida pelo cliente; e é possível bordar um monograma com as iniciais desejadas.

Ainda no bairro, a família alugou uma casa para acomodar as 18 000 pastas de fregueses. Em cada uma delas, há um molde feito em papel Kraft e a cartografia das medidas. Em 2008, Augusto firmou parceria com a Daslu (hoje é responsável pela confecção das camisas masculinas e femininas sob medida da marca) e com a Montblanc (quem compra abotoadura lá ganha uma camisa). O próximo passo é investir na alfaiataria. A empresa acaba de contratar Ginez Galvez, um dos mais tradicionais alfaiates da cidade. Aos 72 anos, ele vai confeccionar costumes sob medida a partir do segundo semestre. Mais uma aposta de Augusto que se mostra certeira. Agora só falta ele aprender a pregar botão. “Deste ano não passa”, diz Augusto (colarinho 41).

Fonte: VEJA SÃO PAULO