Criminalidade

Empresários reclamam do aumento de roubos e furtos na Rua Augusta

Apesar de a polícia afirmar que a rua está mais segura, donos de bares, restaurantes e casas noturnas queixam-se

Por: João Batista Jr. - Atualizado em

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Esquina das ruas Augusta e Fernando de Albuquerque: o público estaria atraindo trombadinhas (Foto: Fernando Moraes)

O merecido status de símbolo da boemia paulistana conquistado pela Rua Augusta trouxe (muitas) consequências positivas e (algumas) negativas. De olho na multidão de clientes dos mais de sessenta bares, restaurantes e casas noturnas espalhados em sua parte central, trombadinhas escolheram a via como alvo. Pelo menos essa é a queixa dos empresários da região.

Responsáveis por atrair público das classes A e B a uma área que há cinco anos era vista como degradada, eles relatam casos para justificar o aumento da sensação de insegurança. “A Augusta virou um centro de entretenimento”, afirma Facundo Guerra, sócio da casa noturna Vegas e do bar Z Carniceria. “Mas sem estrutura adequada de segurança.”

Com as calçadas abarrotadas de pessoas, seja em filas para entrar nas boates, seja fazendo do passeio uma espécie de balada improvisada, os batedores de carteiras encontraram um ambiente favorável ao crime. Tentaram roubar o relógio do próprio Facundo duas vezes neste ano. “Como podem se esconder na multidão, os marginais ganham o benefício do anonimato.”

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Facundo Guerra, sócio do Vegas e do Z Carniceria: tentaram levar seu relógio duas vezes (Foto: Daniela Toviansky)

O medo de assaltos faz algumas empresas tomar precauções. Inaugurada em 2008, a loja Endossa — especializada em roupas, acessórios e objetos de decoração — contratou um segurança há dois meses para ficar dentro do estabelecimento. Motivo? “Evitar constrangimentos entre nossos clientes”, conta a gerente Carolina Rosa. “Ele barra a entrada de garotos cheirando cola de sapateiro.”

A mesma medida deve ser tomada pelo restaurante Tollocos em caráter de urgência. Duas semanas atrás, a casa de comida mexicana foi assaltada por dois homens armados por volta da meia-noite — ou seja, horário de pico dos baladeiros. Um dos marginais entrou no guichê onde fica o caixa enquanto o outro permaneceu na entrada. Ambos deixaram as armas à mostra para coagir funcionários e clientes. “Roubaram       1 000 reais e o telefone sem fio, para que a polícia não fosse acionada”, conta o atendente Igor Gatti.

Lançar mão dos serviços de um segurança não significa garantia de sossego. A empresária Roberta De Meo empregou um homem faixa preta em caratê logo depois de abrir as portas de seu restaurante, cujo nome pediu que não fosse revelado. Mesmo assim, seus clientes já sentiram falta de celulares e carteiras deixados em cima da mesa. “Meninos entram como quem não quer nada para furtar pequenos objetos”, diz ela. Seu negócio foi assaltado três vezes só neste ano, em horário não comercial. Destruíram geladeira, sistema de fiação e câmeras. “É horrível acordar na minha casa com o alarme da loja disparado.”

Apesar dos contratempos, os empresários não pensam em deixar a Augusta. “Aqui parece Carnaval de rua todo fim de semana”, exagera Roberta. Ela vende 300 temakis apenas no sábado — 70% deles durante a madrugada. Inaugurada em 1956, a tradicional lanchonete Frevo confirma o clima de euforia. “Nos últimos anos, nosso movimento aumentou 70% nos fins de semana”, afirma o gerente Geraldo Augusto de Souza. “Mas, de três anos para cá, fechamos perto da 1 da manhã, e não às 3 horas, para evitar problemas.”

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A empresária Roberta De Meo: estabelecimento assaltado três vezes neste ano (Foto: Fernando Moraes)

Outra questão que mancha a reputação da rua é o consumo de drogas. Na região mais próxima à Praça Roosevelt, basta ficar parado por alguns minutos nas calçadas para encontrar jovens que vendem papelotes de cocaína. “Quem os abastece são viciados que fazem esse trabalho em troca de duas ou três pedras de crack”, conta Aldo Galiano Júnior, delegado da Seccional de Polícia Centro. “Neste ano, apreendemos 900 quilos de cocaína em todo o centro.”

Essa sensação de insegurança não encontra eco nos dados oficiais. Isso porque muitas das pessoas que têm objetos pessoais furtados não registram boletim de ocorrência. Números da Polícia Militar apontam para a queda da criminalidade na Augusta. O furto de veículos caiu 21% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2009. Os roubos, 20%. “Celulares, carteiras e bolsas correspondem a 90% dos furtos ocorridos”, informa o major Benjamim Francisco Neto, comandante do 7º Batalhão — responsável pela região.

Segundo a PM, quatro motos e três viaturas de força tática são responsáveis pelo patrulhamento do Baixo Augusta entre 16 e 4 horas. “À noite e de madrugada ocorrem 62% de todos os crimes.” Cabe à população, além de cobrar maior atuação das polícias, registrar casos de furtos, roubos e outros delitos. Só assim medidas preventivas poderão ser tomadas para não tirar o brilho e o charme que fazem a Rua Augusta andar sempre a 120 por hora.

Fonte: VEJA SÃO PAULO