História

Arquivo Público ganha prédio sob medida

Antes guardados em locais improvisados desde o século XIX, documentos ficarão no número 596 da Rua Voluntários da Pátria

Por: Claudia Jordão

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No fim do século XIX, os documentos históricos do estado de São Paulo ficavam literalmente nos porões do palácio do governo, que funcionava no Pátio do Colégio, no centro. Nos dias de faxina, quando o piso do andar de cima era esfregado com sabão e a água suja escorria pelas frestas do assoalho de madeira, parte de nossa memória era comprometida, e muitos papéis encharcados tinham de ser descartados.

De lá para cá, como uma batata quente, a papelada foi transferida para sete endereços na cidade — seu último destino foi um prédio no número 596 da Rua Voluntários da Pátria, em Santana, onde está há quinze anos.

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A falta de uma sede própria para o Arquivo Público, com espaço físico suficiente e condições de armazenamento adequadas, prejudicou a ampliação do acervo, que nos últimos anos contabilizou apenas dois recolhimentos significativos — em 1991, com patrimônios do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP) que vieram da Polícia Federal em Brasília, e em 2011, com escrituras do então Memorial do Imigrante (atual Museu da Imigração) transferidas do Brás para lá.

Agora, mais de um século depois, o órgão ganha uma casa à altura de sua importância. Com inauguração prevista para o próximo dia 18, um edifício projetado especialmente para esse propósito vai abrigar os 10 quilômetros lineares de escritos históricos (a medida é feita com as folhas empilhadas), os 2 milhões de fotografias e os 15.000 mapas que contam a história do estado desde 1578 — data da mais antiga peça guardada, um inventário de um sapateiro. O prédio foi erguido no mesmo terreno da Voluntários da Pátria e vai receber da construção antiga tesouros como prontuários criminais, registros de entradas de imigrantes no país, censos dos séculos XVIII e XIX e lembranças da Revolução de 1932.

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Funcionário higieniza documentos: pincel para remover a poeira e mesa que aspira impurezas (Foto: Fernando Moraes)

Com investimento de 87 milhões de reais, a construção, de dez andares, possui cinco pavimentos de estrutura reforçada (capaz de aguentar quase nove vezes mais peso do que a convencional), além de funcionar como uma câmara fria, que impede a entrada de luz natural, suficiente para danificar os documentos.

Por causa do novo espaço, que pode armazenar 70 quilômetros de escrituras, funcionários já começaram a percorrer secretarias estaduais, cartórios de registro e outras instituições públicas para identificar preciosidades e voltar a alimentar suas estantes. Além disso, o órgão fará campanhas para obter doações particulares.

Na chegada do material, técnicos e laboratórios entram em ação. O primeiro passo é identificar sua relevância. Se for anterior à década de 40, é considerado histórico e a guarda deve ser avaliada. Antes de ir para as prateleiras, fica quarenta dias isolado para eliminar possíveis pragas. Depois disso, é higienizado, restaurado e digitalizado.

Até hoje, uma pequena parte foi microfilmada e digitalizada: 500.000 peças. A aquisição de novos scanners deve ampliar esses arquivos. “Nossa meta para o próximo ano é digitalizar mais 3 milhões de peças”, diz Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo Público e professor de história da Universidade de São Paulo (USP). “Vamos priorizar as mais frágeis e mais consultadas, com o objetivo de preservar as originais.”

A mudança também vai melhorar o alcance dos cidadãos comuns aos documentos. Além de uma sala com capacidade para realizar 100 atendimentos simultâneos — quatro vezes mais que no endereço anterior —, existirão áreas específicas para consultas de fotos e mapas. Haverá ainda locais reservados para atender alunos de escolas em visitas pedagógicas.

“A obra se enquadra em uma lei federal, promulgada no ano passado, que regula o acesso do brasileiro a sua história”, explica o secretário da Casa Civil, Sidney Beraldo. O arquivo é procurado por pesquisadores, acadêmicos e também por paulistas em busca de seus direitos. Na semana passada, por exemplo, seus três paleógrafos, como são chamados os especialistas em documentos antigos, estavam debruçados sobre páginas roídas por traças dos testamentos de quatro irmãos, datados de 1750. O trabalho era decifrar a linguagem e os rabiscos da época, com o objetivo de colher elementos para servir de argumentos numa briga judicial entre herdeiros de Itu, interior do estado.

O novo espaço vai ter um ambiente para exposições — a primeira será sobre a Revolução de 1932 e deve ser inaugurada em 9 de julho — e prevê uma cafeteria (ainda em fase de licitação). Agora, sim, a memória paulista poderá abrir as portas de sua casa e receber bem seus convivas.

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Sob medida: prédio de dez andares possui cinco pavimentos de estrutura reforçada (Foto: Fernando Moraes)

CÂMARA FRIA Algumas curiosidades sobre as instalações do edifício

■ Prédio “encapado” com placas térmicas (sanduíche de metal com fibra de vidro), que eliminam a entrada de luz, previnem o aquecimento e reduzem gastos com climatização

■ Dez andares, sendo cinco deles com pé-direito duplo, que ampliam a capacidade de guarda do acervo

■ Estrutura reforçada para suportar quase nove vezes mais peso do que a convencional

■ Depósito com capacidade para 70 quilômetros lineares de documentos, climatizado, com temperatura (18 graus) e umidade controladas (a exemplo de salas hospitalares), além de filtros de poeira

■ Laboratórios de conservação, microfilmagem e digitalização

■ Área com capacidade para 100 atendimentos simultâneos ao público

■ Sistema contra incêndio e de segurança, com controle de acesso via impressão digital

Fonte: VEJA SÃO PAULO