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Armazém Companhia de Teatro completa 25 anos e estreia nova peça

A Marca Da Água, que chega a São Paulo, é baseado em pesquisas do neurologista Oliver Sacks

Por: Livia Deodato - Atualizado em

A Marca D'Água - Armazém Companhia de Teatro
Cena de A Marca D'Água: o sintoma que faz a personagem se sentir viva também a aproxima da morte (Foto: Mauro Kury)

A Armazém Companhia de Teatro está completando 25 anos. Nascido em Londrina e atualmente com sede no galpão da Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, o grupo já conquistou mais de vinte prêmios com seus trabalhos, entre eles, Shell, Mambembe e Cultura Inglesa. Há doze anos, conta com o patrocínio da Petrobras o que, segundo um dos fundadores do grupo, Paulo de Moraes, dá condições para viajar pelo país e oferecer espetáculos a preços baixos.

Por isso e, claro, pela qualidade de suas obras, cuja dramaturgia é invariavelmente própria, a companhia conta com um séquito fiel de fãs e lota os teatros por onde passa. Foi assim com Alice Através do Espelho, de 1999, uma releitura do clássico de Lewis Carroll, Pessoas Invisíveis, de 2002, baseado nos quadrinhos de Will Eisner, e Toda Nudez Será Castigada, de 2005, um dos textos mais conhecidos de Nelson Rodrigues que ganhou uma nova roupagem pela trupe.

Não deve ser diferente com o novo espetáculo, A Marca Da Água, que a Armazém estreou no sábado (16/2) em São Paulo. O ponto de partida foi uma pesquisa sobre tempo e espaço. “Começamos sem tema, sem texto. A ideia era discutir sobre como o espaço poderia modificar o tempo”, relembra Paulo de Moraes, autor do texto junto a Maurício Arruda Mendonça, e também diretor da nova peça.

Escolheram estudar as obras de Oliver Sacks, neurologista famoso por simplificar questões médicas complexas. Paulo e Maurício estavam em busca de material para construir a sua protagonista: uma mulher de 40 anos, que tivesse algum trauma neurológico. “Em uma das pesquisas de Sacks, ele conta a história de um trauma neurológico ligado à música: o de uma mulher que ouvia uma sequência de cinco melodias dentro de sua cabeça, com certa frequência”, diz Paulo. “Algumas, ela conseguia identificar, como ‘parabéns a você’. Mas as demais ela não fazia ideia de onde vinham e tentava entender por que se tornaram importantes para o seu cérebro.”

Pronto, a protagonista de A Marca Da Água havia ganhado sua gênese. “Parece um tema ‘cabeçudo’ falando assim, mas não é”, tranquiliza Paulo. “É apenas uma história simples, de uma pessoa que leva uma vida ordinária e, a partir da doença, resolve transformá-la em uma vida extraordinária. Mesmo que isso a aproxime da morte.”

O sintoma que faz a personagem se sentir viva e potente é o mesmo que acomete a companhia, há um quarto de século. Paulo destaca pontos importantes que a Armazém buscou – e continua buscando – em sua trajetória, entre eles, a dramaturgia própria, “que desse vazão às questões que nos importam na vida”, a pesquisa do espaço cênico, que sempre fez com que procurassem se apresentar onde ninguém imaginava (daí o nome da companhia), e a formação de atores-criadores, que tivessem liberdade para interferir na construção dos espetáculos.

Atualmente, nove pessoas fazem parte da companhia, sendo Paulo e a atriz Patrícia Selonk (protagonista de A Marca Da Água) os remanescentes da formação original.

Fonte: VEJA SÃO PAULO