Perfil

Oboísta Arcádio Minczuk é um dos membros mais antigos da Osesp

Em três concertos, veterano dos sopros comemora trinta anos de atividade na sinfônica estadual

Por: Jonas Lopes - Atualizado em

O oboísta Arcádio Minczuk - Osesp 2227
O instrumentista, na Sala São Paulo: altos e baixos com a orquestra (Foto: Fernando Moraes)

Com ingressos vendidos a 15 reais, os três concertos desta semana na temporada da Osesp terão um gosto especial para um dos 115 integrantes do grupo, o oboísta Arcádio Minczuk. O paulistano de 47 anos comemora nas récitas de quinta (28), sexta (29) e sábado (30) três décadas de atividade na sinfônica estadual.

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No programa das apresentações, ele será solista no "Concertino para Oboé e Cordas", do gaúcho Brenno Blauth (1931-1993), sob a regência de seu irmão Roberto, maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Em seguida, a formação executa "O Anel sem Palavras", versão instrumental da tetralogia de óperas "O Anel do Nibelungo", do alemão Richard Wagner (1813-1883). Ele ainda gravará um CD como solista, com lançamento previsto para este ano.

Quinto membro mais antigo ainda em atividade, o paulistano Arcádio ingressou na Osesp em abril de 1981, a uma semana de completar 17 anos, como aposta do maestro Eleazar de Carvalho (1912-1996). Tanta precocidade se justifica: o oboísta de ascendência europeia (mistura de russos, ucranianos e poloneses) vem de uma família de músicos. A mãe, Olga, cantava na igreja, enquanto o pai, José, era sargento e regia o coro da Polícia Militar.

A família de Arcádio Minczuk - PERFIL - MÚSICA  2227
A família Minczuk, em 1978 (da esq. para a dir.): Ester, Arcádio, Cristiane, Roberto, José (o pai), Olga (a mãe, com Eduardo no colo) e Natacha (Foto: Arquivo pessoal)

Ele desde cedo incentivava os filhos a aprender música. Arcádio tocava bombardino e bandolim, mas aos 11 anos foi obrigado a aprender oboé. “No começo, eu detestava aquele som metálico”, lembra. “Mas meu pai dizia que havia pouca gente estudando o instrumento. Era uma oportunidade.”

Assistente de John Neschling na orquestra entre 1997 e 2005, Roberto Minczuk vê no irmão o “parâmetro de músico obcecado pela perfeição”. Os dois atuaram juntos em diversas formações de câmara na juventude, incluindo um quinteto de sopros montado pelo pai quando Arcádio tinha 12 anos e Roberto, 9. “Somos capazes de passar horas batendo papo sobre compositores russos, uma paixão comum”, conta o maestro. Outros dois dos oito filhos do prolífero casal Minczuk integram a Osesp: o trompista Eduardo e a meio-soprano Cristiane, que canta no coro.

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A tradição da família tem continuidade. Aos 12 anos, a filha de Arcádio, Catarina, toca violino e violoncelo e está aprendendo piano. Ian, de 5, ainda não iniciou a formação. Nas horas vagas, Arcádio leva os filhos a museus e cuida do jardim que mantém nos fundos de seu apartamento em Perdizes. Nesses trinta anos, ele vivenciou os altos e baixos da orquestra. Entrou em uma fase boa. “Tocávamos no Teatro Cultura Artística duas vezes por semana, os concertos lotavam e alguns eram transmitidos ao vivo pela TV Cultura”, recorda. “Fazíamos ciclos completos de sinfonias de Mahler e Beethoven. Pude aprender demais.”

Arcádio Minczuk - PERFIL - MÚSICA 2227
Arcádio e Roberto com Eleazar de Carvalho, em 1978, no Festival de Inverno de Campos do Jordão: talento precoce (Foto: Arquivo pessoal)

O estouro da inflação, contudo, afetou os salários, e alguns dos melhores membros foram embora. Durão, mas de coração mole, Eleazar de Carvalho chegou a deixar um instrumentista que havia sofrido um derrame participar das récitas apenas dublando. A decadência da orquestra adentrou a década de 90, quando ela se apresentava no Memorial da América Latina, cujo auditório tem uma acústica ruim. “Ensaiávamos no restaurante, não possuíamos sequer um fax. Era uma época triste, sem público nem apoio do governo”, diz o oboísta, que naquele período liderava a associação de músicos.

A reviravolta se deu a partir de 1997. Apoiado pelo governador Mario Covas e pelo secretário Marcos Mendonça, o carioca John Neschling assumiu a direção da orquestra em uma reestruturação que culminou, dois anos depois, na inauguração da Sala São Paulo. “No começo, eu não sabia se o processo daria certo, mas não tinha nada a perder”, comenta Arcádio.

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Hoje o cenário em nada lembra o daqueles tempos bicudos: sala quase sempre lotada, ótimos concertos, plateia frequentemente entusiasmada, salários de nível internacional e turnês na Europa. O próximo capítulo começa em 2012, com a estreia oficial da maestrina americana Marin Alsop. “Estou empolgado para trabalhar com ela”, afirma o homenageado da semana.

Arcádio Minczuk - PERFIL - MÚSICA 2227
Após concerto em Harvard, nos EUA, em 1987 (da esq. para a dir.): o maestro Kurt Masur, Roberto, os hoje maestros James Ross e Alan Gilbert, regente da Filarmônica de Nova York, sua irmã Jennifer e Arcádio (Foto: Arquivo pessoal)

Notas musicais

Nome: Arcádio Minczuk

Idade: 47 anos

Função na Osesp: primeiro oboé

Salário mensal: cerca de 10.000 reais

Formação: graduação em música na faculdade Mozarteum, em São Paulo, e pós no Conservatório de Oberlin, nos Estados Unidos

Horas de ensaio: aproximadamente 16 horas por semana

Número de concertos por ano: por volta de 100

Compositores favoritos: Johann Sebastian Bach, Dmitri Shostakovich, Sergei Prokofiev e Richard Strauss

Outras atividades: professor de música da Unesp desde 1987

Fonte: VEJA SÃO PAULO