Crônica

Aprendiz de cozinheiro

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Sempre gostei de mexer com as panelas. Aprendi a cozinhar intuitivamente. Tive a fase em que me esbaldava nos temperos. Houve momentos de desespero, como a noite em que passei um serrote na parte queimada de um bolo instantes antes de as visitas chegarem. Para depois cobri-lo com tal quantidade de chantilly que ninguém percebeu – ou comentou – a tragédia. Cada vez que ia para a cozinha, sujeitava os amigos a uma experiência imprevisível. Como quando comprei um galo pensando que era um frango turbinado e, após horas de cozimento, pedi uma pizza!

Recentemente, recebi por e-mail o anúncio de um curso de risotos. "É o tipo de prato ideal", pensei. "Depois de aprender, é só variar o sabor." Fui. Era uma escola tradicional de culinária em Pinheiros. A professora ensinava atrás de um grande balcão com fogão, panelas, utensílios. Nós, os alunos, sentávamos em três fileiras. Olhei em torno, tímido. O número de homens e mulheres era aproximadamente o mesmo. Desde donas-de-casa até profissionais da culinária. Sujeitos como eu, que queriam receber os amigos. Todos meio sem jeito no começo e relaxando enquanto a professora, descontraída e simpática, revelava os segredos.

– O vinho é colocado logo no começo. Só depois vem o caldo...

Ensinou quatro tipos de risoto, caldos, pequenos truques. A cada receita, um tempo para degustar. Hummmm.... risoto de camarão, de tomate, de frutas cítricas, de presunto... e pratinhos na mão, taças de vinho... mais pratinhos, mais taças... Muito diferente das aulas de matemática do colégio! Um aluno confessou:

– O último risoto que tentei fazer dava para usar como massa corrida de parede!

Relaxei! Meu maior desastre fora uma compota de figos que colava nos dentes e arrancou o pivô de uma convidada. Ah, sim, teve também a sopa de milho com conhaque e pimenta que fez todos gritar com a garganta em chamas! Abandonei as lembranças nefastas. Prestei atenção na aula. Dias depois, liguei para um amigo.

– Quer ser minha cobaia, Gabriel?

Após uma longa pausa, veio "aceito!", dito em voz baixa. Satisfeito, chamei mais duas vítimas.

No sábado, me instalei diante do fogão. Os três esperavam na sala, aterrorizados. Aos poucos, resolveram participar.

– Não tem muito caldo?

– Não é hora de colocar o tomate?

Se um cirurgião sofresse tantos palpites quanto um cozinheiro, o que seria dos pacientes? Rugi:

– Fora, fora da cozinha!

– É um almoço ou uma guerra?

Um dos segredos, avisara a professora, é servir o risoto no instante em que fica pronto. Se demorar, desanda. Ao apagar o fogo, descobri que todos estavam diante da televisão.

– Está na mesa.

– Só um instante... Vai, vai, é gol, é gol!

– Venham ou atiro o risoto na cabeça de vocês!

Sentaram-se de cara amarrada. Ergui a tampa, e o aroma espetacular do camarão inundou a sala. Vinho. Cada um provou uma garfada. Esperei com o coração batendo forte. Os rostos inexpressivos. Finalmente, gemi.

– Está bom?

Mal responderam. Continuavam comendo. Repetiram. Finalmente, Rob confessou.

– A gente não acreditava que ia dar certo! Mas está incrível. Agora você vai ficar insuportável de tão exibido!

Da próxima vez, querem o de tomate. Uma única noite de aula, e minha vida no fogão é outra! Estou prestes a me inscrever em um novo curso. É uma delícia cozinhar para os amigos. E receber os aplausos, é claro! Sinceramente, eu já me sinto um chef!

Fonte: VEJA SÃO PAULO