Crônica

Aos que pretendem vir

Por: Ivan Angelo

Crônica 2271
(Foto: Veja São Paulo)

Instruções para o bom uso e proveito da cidade de São Paulo. Para começar, o tempo: nada está garantido. Frio? Está, mas pode fazer calor mais tarde. Como Pablo Neruda (que disse em um verso “Comigo a anatomia se vê louca: sou todo coração”), a cidade poderia dizer: comigo a meteorologia se vê louca: invento temporadas. Os acostumados compreendem e desculpam, andam aparelhados contra surpresas: guarda-chuva na bolsa, mangas curtas mas casaquinho amarrado na cintura; motoqueiros duvidam do sol e já param sob os viadutos para vestir a roupa impermeável, depois sobem no seu cavalinho motorizado e partem na chuvarada. Do tempo é comum se dizer: “virou”. Como "la donna", ele é "mobile".

+ "Psiu!", por Ivan Angelo

Estações do ano? Esquece, a não ser o inverno.

O boteco não é aquele sujão do Rio. Tem também, mas é melhor não entrar. Não sei quem disse que São Paulo importou os botecos tipo Rio mas deu uma melhorada, e hoje eles estão irreconhecíveis. Comidinhas saborosas, bebidas óóóótimas, mas isso tem um preço, né?

Faça um check-up antes de vir. Os bons hospitais estão lotados — e os ruins também. Alguns hospitais da cidade estão entre os melhores do mundo, e por isso os políticos de todos os naipes e estados mais os não políticos que podem, vindos do Brasil inteiro, e mais os mesmos dos países próximos acham que têm de se tratar em São Paulo, daí não haver vagas nos hospitais. Já se foi o tempo em que os poderosos iam se tratar em Cleveland, Estados Unidos, lembra-se? A moda hospitalar é São Paulo.

Não venha de carro. E, se vier, não trafegue sem GPS. As ruas são de tal modo dispostas que é comum levarem as pessoas para onde elas não querem ir. Além disso, mudam de nome no meio do trajeto até quando não fazem curva. Tem uma que começa na esquina da Rua da Consolação e vai até o Rio Pinheiros, direto e reto, e tem cinco nomes. Cinco!: Martins Fontes, Augusta, Colômbia, Europa e Cidade Jardim. Em compensação, tem outra que é bloqueada por uma larga avenida com canteiro central de árvores enormes, sem passagem, e continua com o mesmo nome 100 metros abaixo, do lado de lá. E outra, Tuiuti, que é interrompida por estação e linha do metrô, e retoma o nome 500 metros adiante. Não esqueça o GPS!

Não peça indicações nas ruas. Não, não me entenda mal. As pessoas são gentilíssimas, levariam você pela mão se soubessem onde fica o lugar aonde você quer ir. A fama é de que as da cidade não dão informações. Mentira. É que é tanta gente de fora, tanta gente sabendo só do seu próprio ir e vir, que não adianta perguntar a qualquer um. O carinha da banca de jornais geralmente sabe.

Jamais — jamais! — venha em dezembro. Nesse mês, a cidade, certos bairros, é, seria mais justo dizer certos bairros, são acometidos pela síndrome dos pacotes, da fila dupla e das buzinas. É assim que comemoram os dias que antecedem o Natal e o Ano-Novo. Procure evitar. Prefira janeiro, mês delicioso, de calma e liquidações.

Não se espante com as elegâncias. As pessoas gostam de sair arrumadas.

Você pode ter a impressão de que as pessoas são feias no centro e na periferia. Procure lembrar-se da sua própria cidade. É diferente? Ah, o Brasil todo tem um déficit de democracia em matéria de dentistas, assistência médica, alimentação saudável, banho, produtos de higiene e beleza, vestuário, vaidade...

Não fique procurando aqui e ali pelas coisas que tem de comprar. A cidade sabe que é trabalhosa e procura facilitar. Tem rua de comércio especializado no que você quiser. É tudo porque não se pode perder tempo, ou não há tempo a perder.

Trânsito? Não se preocupe. Evite três horas pela manhã e três horas no fim da tarde. O resto do dia é igual.

e-mail: ivan@abril.com.br

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO