Urbanismo

Edifício da antiga rodoviária é demolido para virar centro cultural

Aberta em 1962, no centro, ela foi também a única estação de ônibus durante vinte anos, até que o Terminal Tietê fosse inaugurado

Por: Mariana Barros - Atualizado em

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Se um dia inventassem uma máquina capaz de escavar os sons que o tempo deixou entranhados num local, um dos campos arqueológicos mais interessantes de São Paulo seria um quadrilátero da Luz. Formado pela Avenida Duque de Caxias, pela Rua Helvetia, pela Praça Júlio Prestes e pela Alameda Barão de Piracicaba, o perímetro, inicialmente composto de pequenas lojas e residências, cedeu espaço para a construção de um edifício barulhento, o da primeira rodoviária da capital. Aberta em 1962, ela foi também a única estação de ônibus durante vinte anos, até que o Terminal Tietê fosse inaugurado. Diariamente, passavam por ali cerca de 4 000 coletivos, que ecoavam pelos arredores o ruído de seus motores.

Com um novo terminal operando e o trânsito da área central cada vez mais caótico, o local foi desativado e permaneceu comparativamente silenciado por seis anos. Reabriu tendo por trilha o burburinho dos cerca de 5 000 consumidores diários que frequentavam o então recém-inaugurado Fashion Center Luz. Idealizado por um grupo de empresários coreanos, o empreendimento funcionou até o ano passado, quando fechou para dar início a um novo ciclo histórico. Há cerca de um mês, britadeiras e tratores têm dado o tom da mudança, que culminará na inauguração do Complexo Cultural Luz. Óperas, composições clássicas e contemporâneas passarão a integrar o legado sonoro do local, que pretende se tornar referência nacional em espetáculos.

É o fim de um ícone kitsch da cidade e o início da construção de um marco arquitetônico com aspirações de projeção internacional. As placas multicoloridas de acrílico que emprestavam à cobertura do edifício um aspecto de colmeia psicodélica foram reduzidas a estilhaços. Em seu lugar, será erguida uma estrutura composta de tiras sobrepostas, projetada pelo escritório dos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Os dois foram vencedores, em 2001, do Prêmio Pritzker, considerado o Oscar da arquitetura.

Segundo o secretário de estado da Cultura, João Sayad, de quem partiu a decisão de convidar a dupla, o fato de ela ter sido laureada e ainda apresentar um projeto flexível, capaz de se adaptar às exigências da Pasta, foi determinante. Pela legislação brasileira, escritórios de arquitetura podem ser contratados por notoriedade, dispensando licitação. Ainda assim, a opção pelos estrangeiros motivou intensa polêmica entre os profissionais brasileiros e fez com que o governo e o próprio Sayad se tornassem alvo de ações ainda em trâmite na Justiça. “Acredito que vamos vencer”, afirma.

A licitação para a execução da obra está prevista para dezembro. A partir daí, serão mais três anos até sua conclusão. Os gastos previstos são estimados em 600 milhões de reais. Só na desapropriação da área foram 34 milhões de reais. Acumulando a função de sede de grupos artísticos como a São Paulo Companhia de Dança e a Escola de Música Tom Jobim, o complexo terá três teatros, museu, biblioteca e oficinas de confecção de cenário e de figurino. Para obter nível de excelência, o governo contratou ainda uma empresa inglesa de consultoria, a Theatre Projects Consultants (TPC). “Na da será adaptado, mas planejado para uma função específica”, diz a coordenadora do projeto, Sandra Rodrigues. Estão programados fossos de orquestra com acústica impecável, mecanismos que impeçam reverberação e espaços amplos para que cenários possam ser deslocados em vez de desmontados.

O maior desafio, ainda sem solução à vista, é melhorar a frequência nos arredores. Usuários de crack aglomeram-se na Praça Júlio Prestes, em um show de horrores que os espectadores da Sala São Paulo são obrigados a ver à saída dos concertos, realizando furtos, consumindo drogas e espantando os frequentadores de outros pontos culturais do entorno, como a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa. “É uma das cenas mais tristes da humanidade”, nas palavras de Sayad.

Fonte: VEJA SÃO PAULO