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Animais do Parque da Água Branca passam por apuros devido a cortes

Falta de dinheiro provocou ainda dispensa de funcionários e redução do horário de funcionamento 

Por: Adriana Farias - Atualizado em

PARQUE AGUA BRANCA
Os escoteiros em ação: ajuda de emergência (Foto: Alexandre Battibugli)

Situado na Avenida Francisco Matarazzo, na Zona Oeste, o Parque Doutor Fernando Costa, mais conhecido como Parque da Água Branca, é um dos poucos refúgios com características rurais que restam na capital. Por ali circulam, a cada mês, 290 000 visitantes, a maioria nos fins de semana. Um de seus grandes trunfos são as centenas de aves soltas pela área de 137 000 metros quadrados. A fauna inclui patos, marrecos, galinhas d’angola e caipira, galos e pavões. Essa turma, no entanto, vem passando por alguns apuros nos últimos meses.

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Desde fevereiro, não há mais um veterinário fixo responsável por eles. Em agosto, novo golpe na bicharada: os dez funcionários que cuidavam dos animais e os alimentavam com 600 quilos mensais de ração foram dispensados pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SMA), que administra o lugar. Como consequência disso, dezenas de animais ficaram debilitados e ao menos dois morreram.

A penúria gerou uma corrente de solidariedade no pedaço. Há dois meses, o Grupo Escoteiro Tiradentes 107, que tem sede no local há 47 anos e atualmente conta com 95 crianças e adolescentes, prontificou-se a dar comida às aves. “O cuidado com plantas e animais é um dos lemas do movimento, por isso a garotada ficou muito feliz em contribuir”, diz o presidente da entidade, Carlos Eduardo Lourenço.

Uma equipe de voluntários, formada por sete frequentadores e moradores vizinhos, também pôs a mão na massa, levando os bichos a clínicas veterinárias e doando remédios. “Chamei algumas amigas para participar e venho quase todos os dias para dar ração e trazer antibióticos”, revela a advogada Virgínia Batista, de 52 anos. A atriz Julia Bobrow, 30, resgatou um galo à beira da morte. “Ele ficou três dias internado, com infecção”, relata ela, que gastou mais de 1 000 reais no tratamento e o devolveu sadio ao parque.

PARQUE AGUA BRANCA
A atriz Julia Bobrow: 1 000 reais para tratar de um galo debilitado (Foto: Alexandre Battibugli)

Devido a cortes sofridos pela SMA, a verba de manutenção do Água Branca vem caindo nos últimos tempos. O orçamento deste ano, de 5,1 milhões de reais, é 22% menor do que o de 2014. Com menos dinheiro, o parque começou a gastar menos com serviços básicos, como limpeza e cuidados com os animais. A penúria dos bichos é apenas parte de uma lista de problemas que inclui redução do quadro de funcionários em 20% (hoje são 88 empregados) e do horário de funcionamento — há um ano, o lugar passou a abrir mais tarde (6 horas, em vez de 5 e meia) e a fechar mais cedo (20 horas, em vez de 22).

Em 2015, uma das principais atrações, a Casa do Caboclo, imóvel histórico que vendia doces caseiros feitos no fogão a lenha, servia café no bule e tinha apresentações de moda de viola, foi desativada por determinação da Vigilância Sanitária, que considerou o ambiente rústico inapropriado para a preparação de comida. Até hoje não há uma solução para esse impasse. Para piorar, a quantidade de aves cresce de forma descontrolada. Hoje são cerca de 1 000 exemplares, população 25% maior que a de quatro anos atrás.

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No fim de setembro, a secretaria minimizou o problema da falta de funcionários com um acordo envolvendo 22 detentas em regime semiaberto do Centro de Progressão Penitenciária de São Miguel Paulista. A cada três dias trabalhados no parque, um é abonado na pena. Só que a maior parte delas se ocupa da manutenção e da limpeza do local e, por isso, não cuida exclusivamente dos bichos. “Até o ano que vem, conseguiremos repor as vagas dos empregados dispensados”, promete Ricardo Salles, secretário do Meio Ambiente. “Em breve, vamos ter um estagiário de veterinária. Enquanto isso não ocorre, encarregamos um profissional da área para visitar o lugar todos os dias.”

De acordo com funcionários do parque ouvidos pela reportagem de VEJA SÃO PAULO, no entanto, o técnico só aparece por lá uma vez a cada quinze dias. A SMA também estuda uma maneira de controlar a proliferação dos animais e negocia com a ONG Abaçaí, proprietária da Casa do Caboclo, a reabertura do espaço. “Provavelmente não haverá mais a preparação de alimentos por ali, mas uma opção é mantê-lo como um ponto de visitação turística dentro do Água Branca”, afirma Salles.

Crise de verbas

O impacto da falta de dinheiro na área verde da Zona Oeste

5,1 milhões de reais: verba de 2016 (22% menos que nos últimos dois anos)

88 empregados: a força de trabalho atual é 20% menor que o quadro de 2015

2h30 a menos: o local passou a abrir meia hora mais tarde e a fechar duas horas mais cedo

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO