Bichos

O abandono de animais nas ruas virou um grave problema para a cidade

Pelo menos dezesseis cães e gatos são resgatados por dia na capital, muitos descartados por seus próprios donos

Por: Carolina Giovanelli - Atualizado em

Animais abandonados cachorro filhotes
Clara e seus oito flhotes: largados dentro de uma gaveta em frente a uma ONG (Foto: Leo Martins)

Não se pode chegar perto dos oito filhotinhos da cadela Clara, nascidos há cerca de três semanas. Como boa mãe, ela não quer ninguém mexendo com sua prole. A família ficou balançada por perder o lar de uma hora para a outra. No último dia 19, a cadela e seus bebês foram largados na frente da ONG Cão sem Dono, em Itapecerica da Serra, dentro de uma gaveta, com um punhado de ração. O canil da instituição, com capacidade para 210 bichos, está superlotado, com mais de 370 cães. “Mesmo sem condições, não tivemos outra opção a não ser acolher esses novos pets”, afirma o diretor Vicente Defini.

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Não é a primeira vez que uma cena dessas ocorre por lá. Essa é uma realidade comum no dia a dia das entidades do tipo e na cidade como um todo. Os descartes acontecem também em parques, praças, estradas e portas de pet shops. Nem os hospitais veterinários públicos escapam. Há quem interne o bichinho doente e não volte nunca mais.

De acordo com um levantamento realizado por VEJA SÃO PAULO em dez das principais instituições atuantes nessa causa na capital, pelo menos 500 pets são resgatados das ruas por mês, uma média de dezesseis por dia, ou cerca de 6 000 por ano. Grande parte deles já teve uma casa e foi abandonada pelo dono, segundo os profissionais dessas ONGs. Trata-se apenas de uma amostragem. O problema, de acordo com os especialistas, certamente é muito maior.

abandono animal cachorro juliana
Juliana, junto de Lara e do filhote Shoyu:a cadela foi jogada prenhe da janela de um carro (Foto: Leo Martins)

Não existem estatísticas oficiais a respeito do assunto, pois contabilizar a população de animais desamparados configura tarefa bastante difícil. “Eles costumam se concentrar em áreas de limpeza escassa e com abrigo, como terrenos baldios e construções”, afirma Ricardo Augusto Dias, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Além disso, alguns têm endereço fixo, mas contam com acesso à rua, outros estão perdidos e há os chamados “cães comunitários”, cuidados por diversas pessoas.

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Os casos de pets que já tiveram dono, mas viraram “órfãos”, são de cortar o coração. Mesmo com a difusão da ideia de considerar os bichos como integrantes da família, algumas pessoas ainda seguem a direção de percebê-los como mercadorias, que, consequentemente, podem ser descartadas. “Já ouvi os motivos mais absurdos de tutores para desistir das mascotes, do naipe de ‘fiquei grávida’ ou ‘comecei a namorar e minha parceira tem medo’ ”, diz a ativista Luisa Mell, cujo instituto recebe cerca de 500 pedidos de resgate diariamente.

Os períodos de férias e festas de fim de ano acumulam recordes, pois os proprietários vão viajar, não têm com quem deixar os amigos de quatro patas (ou não querem gastar com os hoteizinhos) e optam pela medida extrema do descarte. “Nunca me esqueci de quando fui procurada por uma mulher que ia se mudar de casa e queria deixar comigo seu cachorro de 10 anos. Como pode jogar fora um companheiro de uma década?”, espanta-se Luisa.

gatos cemitério animais abandonados
Pedroso: castração de gatos em cemitério da Zona Leste (Foto: Leo Martins)

No fim do ano passado, sua equipe encontrou, no bairro da Penha, uma casa com quarenta cães sem supervisão. A mulher do antigo morador havia morrido e o rapaz resolveu trancar o espaço e dar no pé. Vizinhos alimentaram o grupo até a ação de salvamento da entidade. Uma das fêmeas resgatadas, batizada de Lobinha, acabou adotada pela fotógrafa Bárbara Valente e seu marido, Rodrigo. “No começo, ela tinha muito medo, mas evoluiu bastante”, alegra-se a mulher. Não é raro flagrar uma ação irresponsável de descarte na capital.

Em agosto, a produtora de moda Juliana Rebecchi visitava seus pais, no Imirim, quando suspeitou de um carro que se movia lentamente pela rua. Demorou pouco tempo para o motorista jogar pela janela do veículo uma cadela de cerca de 1 ano. “Não acreditei no que estava vendo”, conta Juliana. Quando percebeu o sumiço definitivo do condutor, a moça apanhou a vira-lata e a levou à pet shop. Descobriu que Lara, como foi batizada, estava prenhe. Hoje, Juliana vive com o filhote Shoyu e sua mãe, além de dois gatos. “Ela ficou triste durante muito tempo, chorava e procurava pelo antigo dono”, lembra.

Cachorro Lobinha animais abandonados
Lobinha: o dono se mudou e deixou a mascote trancada na casa abandonada (Foto: Leo Martins)

Nem só as mascotes sem raça definida acabam rejeitadas. “Às vezes, as pessoas compram os pets com pedigree por impulso ou para estar na moda”, acredita Vanice Orlandi, presidente da União Internacional Protetora dos Animais. “Aí, por causa de algum desvio de comportamento, gestação, doença ou idade avançada, elas os deixam de lado.” Entre os 900 moradores do abrigo no Canindé, aparece um pastor alemão bravo chamado Déjà Vu. O nome surgiu pelo fato de ele ter sido adotado e devolvido duas vezes. O agressivo american staffordshire terrier Thor, encontrado amarrado em uma árvore, também amarga o isolamento. “Dá para entender que se trata de um momento de desespero dos donos, mas nada justifica largar os bichos por aí”, diz Vanice.

O abrigo do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), da prefeitura, em Santana, não recebe qualquer animal, apenas aqueles sem dono que representam grande risco à sociedade ou se encontram em estado terminal. Ou seja, caso alguém não queira mais cuidar de sua mascote, depende de alguém topar adotá-la ou da disposição das ONGs, sempre superlotadas, para recebê-la. A dificuldade acaba incentivando o crescimento da população de rua.

“O tema é mais complexo do que se pode imaginar e envolve a sensibilidade das pessoas”, entende Rita de Cássia Maria Garcia, pesquisadora do assunto e veterinária docente da Universidade Federal do Paraná. “Os animais abandonados fazem parte, de alguma maneira, da parcela excluída da sociedade. Em um universo que se acostumou com a presença de crianças nas ruas, como avançar na questão dos bichos?”

Aldeia Jaraguá
Aldeia próxima ao Pico do Jaraguá: descaso e descarte de pets (Foto: Fernando Moraes)

O abandono cria um problemão de saúde pública para a capital. Os cães e gatos podem transmitir doenças, como raiva e leishmaniose, e causar acidentes. Um dos modos mais utilizados para tentar conter esse grupo é a castração, a fim de evitar a reprodução descontrolada. Protetores independentes, ONGs e o CCZ costumam promover mutirões. O órgão municipal, no entanto, só realiza as cirurgias em indivíduos com um responsável definido — no ano passado, ocorreram 805 procedimentos em cães e 1 730 em felinos.

O ativista Eduardo Pedroso atua por meio da ONG Bicho Brother com esterilizações em um cemitério na Zona Leste, ponto comum de descarte. “Não há vigilância alguma”, explica ele. Durante os dois anos e meio de seu trabalho voluntário, aproximadamente 200 bichanos foram beneficiados. Em uma conta básica, um casal de felinos pode gerar centenas de descendentes em três anos.

Na terra indígena instalada próximo ao Pico do Jaraguá, a população também sofre com a questão. Cerca de 800 cães e gatos perambulam por ali. Principalmente à noite, carros passam pelas vias ao redor para desová-los. O hábito piorou ainda mais o quadro de uma área extremamente pobre. Há ações veterinárias periódicas no local, mas insuficientes para sanar o problema.

zoológico biólogos
Os biólogos Monticelli e Kátia, do Zoológico: armadilhas para capturar os felinos (Foto: Leo Martins)

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Além da castração, a educação sobre posse responsável aparece como aspecto fundamental para atenuar a situação. Pouco adiantam os mutirões se os donos continuam largando os pets indiscriminadamente. Ao adotar, deve-se saber que os animais têm necessidades, provocam gastos, trazem comportamento imprevisível e vivem por muitos anos. “Promovemos campanhas focadas na conscientização com o objetivo de tentar mudar essa realidade”, afirma a secretária estadual do Meio Ambiente, Patricia Iglesias. No fim de 2015, por exemplo, sua pasta promoveu no Parque Villa-Lobos, em Pinheiros, um evento em que os tutores podiam tirar dúvidas sobre os cuidados com os pets.

O abandono de gatos na área da Fundação Parque Zoológico, na Água Funda, ocasionou uma crise na instituição. Há alguns anos, o espaço virou ponto de descarte de felinos. “As pessoas os deixam aqui, achando que o zoo é o paraíso das espécies, que todas serão cuidadas por nós”, conta a bióloga Kátia Rancura. “Mas não temos estrutura, e isso causa um desequilíbrio ambiental.”

Os bichanos caçam e são caçados pelos animais mantidos em cativeiro. Predam principalmente aves (acabaram com os marrecos), mas também répteis e anfíbios. Além disso, transmitem doenças por contato, através das fezes — como a toxoplasmose, que já matou dois primatas — ou mesmo da saliva, quando abocanham a comida dos recintos. Chegaram a arranhar frequentadores. Mas também caem nas garras de tipos como o lobo-guará e a harpia, uma espécie de gavião. Já houve casos de gatos que foram atacados na frente dos visitantes, causando certo choque aos frequentadores de passagem por lá.

zoológico girafas gato
Gato no recinto das girafas: a população de felinos prejudica a fauna local (Foto: Leo Martins)

Em 2011, a administração do lugar começou um projeto de esterilização, vacinação e microchipagem, que contemplou 200 indivíduos. Alguns deles acabaram adotados por funcionários, mas outros se mostravam selvagens demais e retornaram à mata. “Ainda neste ano, voltaremos com a ação, agora em parceria com ONGs, para ajudar a conseguir um lar para eles, e investindo na conscientização da população”, afirma Cauê Monticelli, outro biólogo da equipe do local.

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Em São Paulo, o ato de abandono pode se enquadrar em uma lei estadual que estipula multa de 3 000 reais. Uma sentença mais severa, no entanto, depende de um juiz que, no âmbito federal, enquadre o caso como crime ambiental, por maus-tratos ou abuso dos bichos. Se condenado, o infrator pode pegar de três meses a um ano de cadeia. “Nunca vi alguém ir para a prisão por causa disso”, afirma Vania Maria Tuglio, promotora do Gecap, departamento do Ministério Público que investiga denúncias ligadas ao meio ambiente. “A lei muito branda incentiva essa atitude contra os bichos.”

Cachorro abandonado
A vira-lata Lara: jogada da janela de um carro em movimento (Foto: Leo Martins)

COMO DENUNCIAR

› O abandono de animais, na esfera municipal, constatado pela Guarda Civil Metropolitana (tel. 153) configura infração administrativa. Cabe multa de 100 reais.

› No âmbito estadual, os responsáveis devem ser multados em 3 000 reais por ação da Polícia Militar. › O fato pode se encaixar na Lei Federal de Crimes Ambientais, no artigo que se refere a maus-tratos e abuso, com pena de três meses a um ano de detenção, mais multa.

› Para denunciar, ligue para o 190 da Polícia Militar, telefone diretamente para a Polícia Ambiental (tel. 0800-132060) ou entre em contato com o Gecap, do Ministério Público (gecap@mpsp.mp.br). O Disque-Denúncia (tel. 181) também pode ajudar.

› Reúna o máximo possível de evidências para identificar o infrator e provar o ocorrido, como vídeos e fotos do abandono e os dados da placa do carro, por exemplo.

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  • Cantina / Trattoria / Italianos

    Pasquale

    Rua Girassol, 66, Vila Madalena

    Tel: (11) 3081 0333

    VejaSP
    11 avaliações

    Território do chef italiano Pasquale Nigro, a trattoria se espalha por um salão comprido e muito simples. Logo na entrada fica o balcão de antepastos com berinjela em várias preparações, o jiló bem ácido e a ótima abobrinha grelhada na conserva de azeite, além da sopressata, um embutido de fabricação própria. Das massas, o espaguete à carbonora (R$ 41,00) não chega a entusiasmar como a lasanha ao ragu de cordeiro (R$ 56,00). Pule o tiramisu (R$ 21,00) e fique com o sorvete de creme elaborado pelo cozinheiro e mergulhado em café com grapa (R$ 16,00).

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Carnes

    Outback Steakhouse - Cidade de São Paulo

    Avenida Paulista, 1230, Bela Vista

    Tel: (11) 3595 8563 ou (11) 3595 8562

    VejaSP
    Sem avaliação

    Não há páreo para esta rede em matéria de velocidade de expansão. Entre as unidades mais recentes estão a do Shopping Metrô Santa Cruz e a do West Plaza. Ainda com cheiro de novidade, a filial do Shopping Cidade de São Paulo tem salão que destoa positivamente dos demais pela entrada abundante de luz natural, uma delícia na hora do almoço. Comece pelas kookaburra wings (R$ 43,00), coxinhas da asa de frango acompanhadas de molho blue cheese e talos de aipo. Uma das carnes mais caras do menu é o porterhouse (R$ 70,00), um t-bone macio que pode vir acompanhado do firme arroz integral com lentilha e nozes. Há quem não abra mão da costelinha de porco ao molho barbecue. Para esses, lá vai o preço atual da gulodice servida com batata frita e molho de maçã: R$ 56,75.

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Japoneses

    Junji Sakamoto

    Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2232, Jardim Paulistano

    Tel: (11) 3813 0820

    VejaSP
    1 avaliação

    Se a casa que Jun Sakamoto mantém com seu nome em Pinheiros é cara, do tipo “para ocasiões especiais”, seu Junji, no Shopping Iguatemi, faz a linha “do dia a dia”, ainda que as pedidas não sejam baratas. Vai bem um temaki de atum de alga crocante e no tamanho ideal da mordida (R$ 21,00). Com arroz morninho, os sushis em dupla, como os de peixe-serra (R$ 14,50), devem ser apenas pincelados com shoyu em vez de mergulhados no molho. Servido dia e noite, o teishoku especial (R$ 76,00) é a refeição composta de tartare de salmão com gelatina salgada, carpaccio de peixe branco, sushis, sashimis e missoshiru. Termine com a musse de chocolate (R$ 22,00).

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Bares variados

    Bar Brahma Centro

    Avenida São João, 677, centro

    Tel: (11) 2039 1250

    VejaSP
    7 avaliações

    O bar mais turístico da cidade se localiza no cruzamento eternizado por Caetano Veloso: o das avenidas Ipiranga e São João, no centro. Todos os olhares se voltam ao classudo salão com lustres de cristal. Em um pequeno palco apresentam-se astros da velha guarda como Jerry Adriani e Moacyr Franco. Também concorrida, a varandona é cenário agradável para tomar o chope da marca que dá nome à casa (R$ 8,50). Feito com linguiça calabresa, o picadinho (R$ 52,00) vem com arroz, farofa, brócolis e uma boa banana à milanesa.

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Docerias

    Sweet Café

    Rua Cristiano Viana, 72, Cerqueira César

    Tel: (11) 2925 2655

    VejaSP
    Sem avaliação

    Confeiteiro de predicados, Arnor Porto não é mais sócio do Sweet Café, aberto em fevereiro. Suas receitas são feitas desde abril pela equipe da casa, sob a supervisão da proprietária Ana Gabriela Borges. Algumas derrapadas na execução dos doces colaboraram para a perda de uma estrela. É o caso da tortinha de limão (R$ 11,00), entregue com massa molenga e acidez em excesso. É melhor ficar com a tartelette de frutas vermelhas (R$ 4,00). As pedidas salgadas continuam ótimas. Peça a bruschetta do dia, que pode ser a pomodoro (R$ 19,00, com seis unidades).

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Cedo ou tarde, as crianças acabam pedindo aos pais uma mascote. Como resistir aos apelos infantis e à fofura dos pets? Mas nem todas as famílias estão preparadas para a responsabilidade de cuidar de um bicho. Alexandra Golik, da premiada Cia. Le Plat du Jour, aborda o assunto no roteiro de Viralatas — O Musical. Ela dirige a peça e também dá vida a Fifi Golden Diamond, uma cadelinha cheia de luxos em casa, mas carente de carinho. As coisas mudam quando ela conhece Zé Latinha (Diego Rodda) e Prego (Marco Barretho), ambos abandonados nas ruas. O encontro rende uma grande enrascada para Fifi. Devolvida à pet shop por sua dona, ela precisará ser salva pelos novos amigos num plano bem mirabolante. Entrosados, os atores encaram bem o desafio de interpretar os animais e ainda soltam a voz em canções. Preste atenção na iluminação da montagem, feita por Tom Silva. Em alguns momentos, tanto a plateia quanto o palco se transformam em um bonito céu estrelado. As risadas estão garantidas — e as crianças saem mais conscientes dos cuidados de que os cachorrinhos de estimação precisam. Recomendado a partir de 4 anos. Estreou em 10/10/2015. Até 26/7/2016.
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  • Estima-se que 500 bilhões de xícaras de café sejam consumidas anualmente em todo o planeta. Por trás de tantos expressos e coados estão 25 milhões de pessoas empregadas em 42 países. São esses pequenos produtores os protagonistas da nova exposição de Sebastião Salgado. O interesse do fotógrafo (que nem gosta da bebida) pela temática remonta à sua infância e ao início da profissão, tornando a história quase cinematográfica. Entre os 7 e os 14 anos, em Aimorés, no interior de Minas Gerais, ele punha a mão na massa para ajudar seu pai na colheita do grão. Depois, como parte do doutorado em economia, entrou na Organização Internacional do Café, em Londres. Seu trabalho consistia em visitar cultivos na África para estudar a oferta e a demanda do grão em cada país.  Nessa época, ele levava nas viagens uma câmera emprestada para retratar suas experiências. Para a mostra em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, foram selecionadas oitenta imagens de visitas a plantações de dez nações da América Latina, África e Ásia, entre 2002 e 2014. Sempre em preto e branco, elas extrapolam o universo cafeeiro e mostram costumes, trajes e gestos de cada cultura.
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  • Há males que vêm para bem. Os percalços enfrentados pela produção brasileira do musical de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein, como a desistência dos diretores Ernesto Piccolo e Ulysses Cruz em fase de ensaios, não comprometeram o resultado do espetáculo que, enfim, pode ser visto no Teatro Alfa. Pelo contrário, a experiência e o inegável talento da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho são fundamentais para manter a aura de encantamento do conto de fadas sem escorregar na pieguice e ainda abrir espaço às mensagens políticas e sociais embutidas no texto. As coisas andam um tanto nebulosas no reino. O príncipe Topher (vivido por Bruno Narchi) atravessa uma crise existencial e questiona se tem vocação para o poder. Há os que se aproveitam disso para manipulá-lo, e um grande baile é organizado na corte para encontrar uma noiva para o rapaz. Bianca Tadini interpreta a gata borralheira, que, transformada em princesa por algumas horas, conquista o coração do rapaz e ainda abre seus olhos para as injustiças contra os pobres da vizinhança. Os protagonistas têm o tipo ideal para os personagens, transmitindo doçura e delicadeza. Na pele da madrasta, Totia Meireles, sempre competente, ainda se mostra tímida e, aos poucos, deve cravar mais personalidade à vilã. Ivanna Domenyco, Bruno Sigrist, Giulia Nadruz e Carlos Capeletti são os destaques entre os coadjuvantes. Direção musical de Carlos Bauzys. Estreou em 11/3/2016. Até 5/6/2016.
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  • Caso raro no teatro contemporâneo paulistano, O Encontro das Águas ganha a terceira montagem na cidade em pouco mais de uma década. O drama, escrito por Sérgio Roveri em 2003, chegou ao palco sob o comando de Alberto Guzik no ano seguinte e, em 2009, originou uma desastrosa releitura de Luiz Valcazaras. Coube ao ator Leonardo Miggiorin, estreante no papel de diretor, assinar a atual encenação. O resultado carrega uma boa dose de ambição sem recorrer a um excesso de códigos de difícil compreensão para contar a história já um tanto enigmática. Patrícia Vilela e João Fenerich interpretam a dupla central —  não necessariamente homens, como no original —, que se encontra em uma ponte deserta de uma metrópole. O estranho Apolônio (representado por Patrícia) avista o jovem Marcelo (interpretado por Fenerich), um provável suicida, e puxa uma conversa para entender suas aflições. Começa um discussão existencial que traz à tona um trauma do rapaz e estende as reflexões dos protagonistas aos espectadores. Ponto alto, a híbrida composição de Patrícia intriga o público em um primeiro momento. Depois, a sexualidade de Apolônio passa a ser mero detalhe nunca decifrado e enriquecedor para o embate com Fenerich. Estreou em 9/4/2016. Até 31/7/2016.
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  • Estilos variados

    Jaloo
    Sem avaliação
    O paraense Jaime Lopes, o Jaloo, teve seu primeiro computador aos 18 anos, pouco mais de uma década atrás. Foi quando se aproximou dos ritmos pop e EDM e começou a fazer batidas eletrônicas, passeando pelo tecnobrega. Depois do elogiado EP Insight, cheio de remixes nada ortodoxos, pôs na praça seu primeiro álbum, #1. Em um trabalho feito para a pista, as dez faixas contêm elementos dançantes, sem perder a essência regional, de raiz. Ele inclui as músicas Sky e Fluxo no repertório. O destaque é a faixa Last Dance. Dia 20/9/2016.
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  • Estilos variados

    Sandy
    4 avaliações
    Novamente no ar no papel de jurada do reality show SuperStar, da Globo, Sandy dá um tempinho nas avaliações dos candidatos para mostrar o resultado do DVD Meu Canto — Ao Vivo. Gravado no fim do ano passado no Teatro Municipal de Niterói, o trabalho será lançado nas próximas semanas. No último disco da carreira-solo da cantora, Sim (2013), a música Aquela dos 30 fazia uma brincadeira oportuna: lembrava que a artista de 33 anos era “velha para ser jovem e jovem para ser velha” e tinha CDs de 1987 a 2009. Em outras palavras, não faltam canções para rechear as apresentações. No repertório, ela revisita o passado ao lado do irmão Junior com as faixas Nada É por Acaso e Desperdiçou, lembra as criações do primeiro álbum, Manuscrito (como Pés Descalços, Quem Sou Eu e Ela e Ele), e canta a divertida Ponto Final, do último trabalho. Também estão no roteiro inéditas como Salto, Colidiu e Me Espera e uma releitura de All Star. Dias 5 e 6/5/2016.
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  • Os exageros e a estridência de Batman vs Superman deixaram uma perguntinha incômoda entre fãs de quadrinhos: muito barulho por nada? Sempre atenta aos deslizes da concorrência, a Marvel Studios usou uma estratégia diferente (e acertada) para marcar posição na onda dos blockbusters sobre conflitos entre super-heróis. Em Capitão América — Guerra Civil, a crise política no front de integrantes dos Vingadores, dividido entre os “times” do Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e do Capitão América (Chris Evans), é narrada sem climão sombrio nem abuso de efeitos especiais. Ufa! Já bem adaptados ao universo dos gibis, os diretores Anthony e Joe Russo (do eficiente Capitão América 2 — O Soldado Invernal) dosam com pique e fluência, e numa escala menos sufocante, toques de aventura de espionagem, thriller político, drama familiar e comédia juvenil. É difícil não abrir um sorriso, por exemplo, com o Homem-Aranha estabanado vivido pelo ótimo Tom Holland, ou perder o fôlego diante das transformações amalucadas do Homem-Formiga (Paul Rudd). Tal como no frustrante Vingadores — Era de Ultron, contudo, o excesso de conversa fiada (e haja discussão de relação...) emperra a primeira metade da trama, quando é aberto todo um debate sobre a possível interferência da ONU para controlar a atividade dos superpoderosos. O Homem de Ferro apoia a medida; já o Capitão América, não. Para a sorte do público, o disse me disse se resolve em cenas de ação inventivas que entusiasmam sem apelar para a grandiloquência. O “combo” de heróis, desta vez, deu liga. Estreou em 28/4/2016.
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  • Documentário

    Fogo no Mar
    VejaSP
    Sem avaliação
    Não há como negar: o documentário Fogo no Mar enfoca a crise europeia da imigração por um viés original. Enquanto os noticiários destacam os sacrifícios e a dor dos marginalizados, o diretor italiano Gianfranco Rosi toma um ponto de partida mais sutil. Em cenas silenciosas, lentas, retrata o cotidiano da paradisíaca Ilha de Lampedusa, no sul da Itália. Quase nada acontece nessa minúscula comunidade: as crianças brincam com estilingues em terrenos abandonados, as mães cozinham, os pais pescam... O lugar tornou-se mundialmente conhecido nos últimos vinte anos como porto para centenas de milhares de refugiados da África e do Oriente Médio em busca de um recomeço na Europa. No dia a dia, no entanto, há pouco contato entre as realidades dos moradores e dos estrangeiros ilegais. A ideia oportuna de mostrar o contraste entre esses dois lados da região (um pacato, o outro horripilante) justificou o Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano. Mas a preferência do diretor pela rotina monótona dos moradores, retratados em planos repetitivos, dilui o impacto político do longa e, nos momentos mais tediosos, transforma o negócio num teste de paciência para o espectador. Estreou em 28/4/2016.
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  • Nos anos 70 e 80, o público sabia muito bem o que esperar dos filmes de Neville D’Almeida: retratos despudorados, repletos de cenas de sexo e nudez, de tipos brasileiros amorais. Dessa fórmula nasceram A Dama do Lotação e Rio Babilônia, entre outros. Longe das telas desde 1997, quando lançou o fraco Navalha na Carne, o cineasta mineiro retoma esse estilo de pornochanchada intelectual com A Frente Fria que a Chuva Traz, adaptação da peça de mesmo nome assinada por Mário Bortolotto (que está no elenco do longa). De cara, nota-se um problema gritante: aquele velho atrevimento hoje soa antiquado e ingênuo. De explícito, aliás, só sobrou o palavreado chulo disparado pelos personagens, jovens ricos do Rio de Janeiro que curtem organizar festas em favelas. Os globais Chay Suede e Johnny Massaro toparam interpretar caricaturas de “filhos de papai”, às voltas com os preparativos de uma balada turbinada por todo tipo de droga, em uma laje no Vidigal. Já Bruna Linzmeyer vive a “rebelde com causa” da trama, uma viciada em drogas que, cansada de tanto perrengue, preferiria estar levando uma vida mais digna. Apesar da proposta atual de crítica ao vazio da geração-ostentação, o tiro de Neville é de festim. Estreou em 28/4/2016.
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  • De volta a São Paulo em cópia restaurada, Gritos e Sussurros é daqueles clássicos que, contra todos os efeitos do tempo, continuam perturbadores e provocativos. Em 1972, o drama causou choque e admiração tanto pelo impacto visual da fotografia de Sven Nykvist — um trabalho antológico em tons de vermelho, branco e preto — quanto pela forma impiedosa como o mestre sueco Ingmar Bergman filmou os segredos e os desejos (reprimidos ou não) de quatro mulheres. São variadas as interpretações psicanalíticas para a trama sobre os últimos dias de Agnes (Harriet Andersson), acamada em uma mansão rural sueca na virada do século XIX para o XX. Sob os cuidados da empregada Anna (Kari Sylwan), ela recebe a visita de suas duas irmãs ricas (Ingrid Thulin e Liv Ullmann). A narrativa desvela com extraordinária precisão, cena a cena, detalhes sobre o passado e as verdadeiras intenções de cada uma das personagens. Anos depois do lançamento, Bergman referiu-se ao longa como um dos pontos altos de sua carreira. Indicado a cinco estatuetas do Oscar em 1974 (entre elas, melhor filme e diretor), ficou com o merecidíssimo prêmio de fotografia. Reestreou em 28/4/2016.
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  • Conversa de celular

    Atualizado em: 29.Abr.2016

Fonte: VEJA SÃO PAULO