Perfil

André Mifano se divide entre as câmeras e as panelas

O chef André Mifano faz sucesso no reality The Taste Brasil e comemora o movimento maior no seu restaurante, mas jura não querer ser um chef-celebridade

Por: Helena Galante

André Mifano
O cozinheiro André Mifano, do Vito: "Não posso ser só 'o cara da televisão'" (Foto: Mario Rodrigues)

Havia acabado o refrigerante para o almoço de domingo. Esse motivo trivial levou o chef mais celebrado da gastronomia brasileira, Alex Atala, e seu amigo de profissão André Mifano ao supermercado. Lá, um cliente abordou Mifano: “Você é aquele menino do programa, não é?”. A pessoa estava fazendo referência à participação do cozinheiro como uma das estrelas no The Taste Brasil, reality show culinário transmitido desde março pelo canal fechado GNT.

Em vez de ficar feliz com a lembrança, Mifano encasquetou. “Mano, passei mais de vinte anos tentando fazer comida. Agora vou ser reconhecido só como ‘o cara da televisão’?”, perguntou-se, entre alguns palavrões impublicáveis. “Aconteceu igualzinho comigo”, lembra Atala. “Faz parte de um processo benéfico de as pessoas descobrirem seu trabalho antes mesmo do restaurante”, contemporiza.

Aos 37 anos, Mifano era conhecido até então por um público menor, o de frequentadores do restaurante italiano Vito, na Vila Beatriz. No programa, figura ao lado dos colegas consagrados Claude Troisgros, do Olympe, e Felipe Bronze, do Oro, ambos instalados no Rio de Janeiro.

The Taste Brasil
Felipe Bronze, Claude Troisgros e André Mifano: os mentores do The Taste Brasil (Foto: Tricia Vieira)

Nos moldes do The Voice, os avaliadores são ao mesmo tempo mentores. Depois de provarem as receitas numa única colherada, escolhem quais participantes querem em seu time para treinar e conseguir um espaço na final, valendo 100 000 reais. Em meio ao perfil calculista de Bronze e ao coração mole de Troisgros, que chora em diversos dos dez episódios, Mifano vem ganhando a simpatia do público.

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O cozinheiro, que tem mais de trinta tatuagens no corpo, capricha no estilo ultrassincero  de tiradas ácidas e nas comemorações carinhosas com os orientandos. Pode parecer difícil acreditar que o sucesso da atração — a estreia aumentou em 41% a audiência da sua faixa de exibição e soma 900 000 espectadores em três episódios — realmente assuste. Mas a fama ganhou um sabor agridoce para Mifano.

“Era o primeiro a dizer que lugar de chef é na cozinha.” A despeito de toda a pose antiestrela, o profissional não tem do que reclamar. Desde a estreia do reality, o movimento do Vito aumentou 20%. Nos bastidores do programa, sua postura foi elogiada. Durante as duas semanas de gravação no estúdio da Vila Leopoldina, era sempre o primeiro a chegar.

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“O André é uma criança hiperativa, enche o saco de todo mundo”, diz Roberto D’Avila, da Moonshot Pictures, a produtora responsável pela atração. “Precisava dessa personalidade aliada ao gabarito dele no fogão.” Em 2009, o profissional recebeu o título de chef revelação pela edição VEJA COMER & BEBER. Sua proposta inicial de culinária italiana tradicional, focada em itens importados, teve uma virada quando Mifano se preocupou em visitar produtores nacionais.

“Hoje eu uso farinha brasileira e o macarrão se faz aqui”, diz, batendo com a mão no bíceps definido pela prática de jiu-jítsu e ginástica funcional. O estilo mão na massa reflete-se na rotina de seu trabalho. De limpar camarão a lava ra louça quando o “pia” falta, ele faz de tudo. Ao final do jantar, durante o qual serve um menu degustação de 270 reais, encara uma hora de deslocamento até Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde mora num sítio com dois boxers e brinca de cultivar cenoura, beterraba e coentro.

Vito embutidos
Os embutidos: opção em tempos de falta de água e luz (Foto: Rogerio Voltan)

“Gosto de falar com orgulho para o cliente ‘eu plantei isso’”, diz, sem perder a irreverência, enquanto pousa os pés calçados em meias brancas na mesa do escritório.Sua atual paixão são os embutidos artesanais. “É uma forma de aproveitar melhor as sobras de carne, além de ser um método sustentável”, defende.

Em 2013, ele apresentou num congresso de gastronomia a palestra “Um cozinheiro apocalíptico: técnicas de cura para o fim do mundo”, na qual alertava para a escassez iminente de água, eletricidade e comida. Há três meses, promoveu um churrasco na porta do Vito, para não perder itens estocados nos refrigeradores, ameaçados pela falta de luz no bairro.

“Eu não reclamei, fui lá e dei um jeito”, afirma. “Mas gostaria que tivessem me ouvido dois anos atrás. Para isso, não preciso ser famoso, eu preciso ser relevante. É o que eu quero.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO