Profissões

Os últimos da espécie: amolador

Aparecido Lima e Jorge Edmundo, de Campo Limpo Paulista, vêm a São Paulo todos os dias para amolar facas, alicates e outros objetos

Por: Felipe Zylbersztajn - Atualizado em

Os últimos da espécie - Ed. 46 - Aparecido Lima e Jorge Edmundo - Amolador
Amoladores. Aparecido Lima Farias. Tel.:96188-7914; Jorge Edmundo. Tel.:97370-3126 (Foto: Alexandre Schneider)

Jorge e Aparecido não combinam encontro, mas costumam pegar o mesmo trem todos os dias de manhã em Campo Limpo Paulista, na Zona Sul. No vagão, sempre têm a companhia de pelo menos meia dúzia de colegas amoladores da região. Cada um desce em um ponto da capital. “A gente vai se esparramando por São Paulo. Faz vinte anos que eu saio da Avenida Pacaembu e vou cortando até a Vila Leopoldina. Meu trajeto demora mais ou menos dez dias, trabalhando de segunda a sábado”, diz Aparecido Lima, de 38 anos (à dir. na foto), enquanto pedala sua máquina, estacionada na calçada de uma travessa de Perdizes. “Campo Limpo é terra dos amoladores!”, brinca Jorge Edmundo, 48, ao seu lado. Ele também percorre alguns bairros da Zona Oeste, e vez ou outra os dois se encontram pelo caminho.

Aparecido e Jorge se conheceram por meio de um mestre amolador que começou a formar aprendizes no fim dos anos 70. Eles cobram R$ 5,00 por peça afiada, trabalho que leva cerca de três minutos. Além da tradicional gaita de boca que os anuncia pelas ruas, boa parte dos chamados agora chega via telefone celular. “Temos muitos clientes fixos, como restaurantes, salões de beleza, costureiras, dentistas, manicures e jardineiros”, enumera Jorge, que reclama da concorrência com as máquinas elétricas. “No começo dos anos 80, você trabalhava o dia inteiro em uma só rua. Agora tem máquina em banca de jornal, em chaveiro, em farmácia. E eles mandam motoboys para recolher o serviço”, conta.

Em Perdizes, Jorge arrasta uma lâmina no esmeril de óxido de alumínio acionado por uma catraca de bicicleta na máquina que ele mesmo construiu. Quando o fino silvo metálico cessa, ele passa a digital do polegar no fio da faca para se certificar de que o serviço está feito. “Amolar é pegar uma faca grossa e afiná-la. Só então você pode afiar, puxar corte dela, entende?” Satisfeito, ele entrega a peça ao dono, que oferece uma xícara de café à dupla. “Depois que a gente começa a trabalhar na rua, não se acostuma mais a ficar dentro de uma firma”, diz. “Você vive mais, vê a natureza, conversa com as pessoas. Eu encaro esse serviço como um passeio.”

Amoladores. Aparecido Lima Farias. Tel.: 96188-7914; Jorge Edmundo. Tel.: 97370-3126

+ Os últimos da espécie: profissionais que se dedicam a funções praticamente extintas

Fonte: VEJA SÃO PAULO