Negócios

Lojas fecham e têm queda de movimento no Aeroporto de Guarulhos

Local perdeu 500 000 passageiros de 2014 a 2015, a primeira queda na última década, e seis comércios fecharam só no Terminal 3

Por: Adriana Farias - Atualizado em

Koni Store e Spoletto lojas fechadas no aeroporto internacional de guarulhos
Os antigos boxes de Koni Store e Spoleto: sem substitutos desde dezembro (Foto: Alexandre Battibugli)

Em maio de 2014, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, o Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos era inaugurado, com capacidade para 12 milhões de passageiros ao ano — 28% do total do complexo. Em pouco tempo, a moderna estrutura passou a absorver 80% dos deslocamentos internacionais, e a expectativa de lucrar com um público de alto poder aquisitivo atraiu 100 estabelecimentos comerciais ao prédio.

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A previsão era que houvesse crescimento na demanda: o fluxo de viajantes registrava altas de 10% ao ano até então. No entanto, essa expectativa se desmanchou no ar. Entre 2014 e 2015, o movimento em Cumbica caiu de 39,5 para 39 milhões de pessoas, a primeira queda na última década.

Mesmo quem circula por ali não está mais tão disposto a pôr a mão no bolso. “Hoje, evito gastar nesses tipos de loja”, diz a fotógrafa argentina Nadia Fotti, que, na última segunda (25), embarcou para a Alemanha.

Diante desse cenário, os empresários da área têm encontrado cada vez mais dificuldade para manter seus negócios em funcionamento. Desde o ano passado, pelo menos seis lojas do Terminal 3 não conseguiram conciliar os custos de manutenção com a receita em declínio, e fecharam as portas. Problemas parecidos são registrados no restante do complexo.

SERGIO KUCZYNSKI proprietário do Arábia
Sérgio Kuczynski, do Arabia: duas unidades desativadas (Foto: Alexandre Battibugli)

“Nosso investimento foi baseado em uma perspectiva de movimento que não se concretizou”, lamenta o dono do Arabia, Sérgio Kuczynski. O restaurante desativou duas unidades no local em 2015. “Em poucos meses, nosso faturamento mensal caiu de 460 000 para 350 000 reais e inviabilizou o pagamento dos 120 000 reais de aluguel, sem incluir outros gastos”, explica. “A conta não fecha.”

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Com a situação de aperto, alguns estabelecimentos tentaram reduzir as despesas. O grupo Skg Fast Food, que administra os restaurantes Koni Store e Spoleto, procurou a concessionária GRU Airport em quatro oportunidades para renegociar os contratos de locação. Sem sucesso, determinou o fechamento de suas filiais em Guarulhos em dezembro. Outros que abandonaram o terminal nos últimos tempos foram a Risotto Mix e a marca americana de pipoca Garrett Popcorn.

O término da operação, em vários casos, veio acompanhado de brigas judiciais. O Arabia processa a administração do aeroporto pelo fato de ela não ter tomado medidas para amenizar o prejuízo dos comerciantes. Já o Skg Fast Food reclama por não ter conseguido encerrar o contrato assim que desocupou a loja. “A concessionária se recusava a receber de volta as chaves do imóvel, o que causou o acúmulo de aluguéis por um espaço já sem uso”, diz o advogado do grupo, Ricardo Negrão. Em março, uma liminar judicial determinou que o aeroporto recebesse as chaves. Cabe agora ao juiz publicar sentença definindo a data de rescisão do contrato.

Gilmar Barros gerente do Caffè Pascucci
O gerente do Caffè Pascucci, Gilmar Barros: às moscas pela manhã (Foto: Alexandre Battibugli)

Há quem já tenha resolvido sair do aeroporto, mas não consegue arcar com o valor da multa previsto em contrato. “É impossível desembolsar 500 000 reais neste momento”, reclama Fabrizio Bevilacqua, um dos sócios da rede italiana Caffè Pascucci. Ele também recorreu à Justiça: pede redução no valor do aluguel ou a extinção da multa. “Hoje, estou gastando quase 50% do meu faturamento apenas com a locação. É um absurdo”, completa Bevilacqua, que viu seu movimento cair de 1 000 para 400 clientes diários. “Nunca vi um lugar desses com tão pouca gente circulando de manhã”, afirma o gerente do local, Gilmar Barros.

O clima de frustração também atinge lojistas dos terminais 1 e 2. Há dois anos, o local sofreu com o sumiço dos passageiros internacionais. Agora, encara a fuga dos consumidores devido aos transtornos causados pelas atuais obras de expansão, com a conclusão prevista para o mês que vem.

“Perdi 60% do meu faturamento”, queixa-se Silvio Maruyama, proprietário da Drogaria e Perfumaria Globo. O estabelecimento fechou sua unidade no sábado passado (23) após três décadas operando por ali. Com queixa semelhante, sua vizinha, a empacotadora de bagagens TrueStar, abriu um processo para tentar renegociar seu contrato.

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A administração do aeroporto minimiza o impacto da queda de público. “Não chegou a 2%”, diz o presidente da GRU Airport, Gustavo Figueiredo. Ele mantém posição firme sobre as renegociações de contrato. “Os operadores assumem direitos, obrigações e riscos na assinatura dos acordos”, diz. Para reduzir o prejuízo do comércio, a concessionária anunciou recentemente algumas ações.

Uma foi criar a promoção “Escolha seu combo” — que estipula três faixas de preço para os produtos, de 10,90, 12,90 e 14,90 reais — em parceria com vinte lanchonetes e restaurantes para incentivar o consumo. Outra estratégia a ser adotada nos próximos meses é alterar a sinalização nos terminais para que as placas indiquem o nome de todos os estabelecimentos, e não tragam apenas informações genéricas como “praça de alimentação”. “Vou deixar mais clara a localização das lojas”, promete Figueiredo.

Fonte: VEJA SÃO PAULO