Trânsito

Missão: uma lei eficaz

Veja o depoimento de Rafael Baltresca, que perdeu a mãe e a irmã atropeladas em calçada ao lado do Shopping Villa-Lobos, em 17 de setembro

Por: Daniel Bergamasco

Capa 2241 - Trânsito - Rafaela Baltresca
Baltresca, na calçada onde a irmã e a mãe (no detalhe) morreram atropeladas: engajado na campanha 'Não Foi Acidente' (Foto: Fernando Moraes / Arquivo de família)

“Para mim, a vida acabou. Acordo, choro, tomo banho, me visto. E passo o dia ligado no automático. Eu morava com minha mãe, Miriam, e minha irmã, Bruna. Éramos a sustentação um do outro, especialmente depois que meu pai morreu, há sete anos, vítima de derrame.

Perder as duas nesse episódio brutal me tirou a vontade de fazer muitas coisas. Canalizo então toda a força, inclusive a energia criada pela dor, para o abaixo-assinado da campanha ‘Não Foi Acidente’. Duvido que as coisas aconteçam por acaso e o que me restou foi esta missão: brigar pela criação de uma lei mais eficaz para punir quem bebe e dirige — o motorista que as atingiu passou duas semanas detido e foi solto sem pagar fiança. É o que acho que elas gostariam que eu fizesse.

Ironicamente, sempre tivemos um comportamento rigoroso no trânsito, de não misturar álcool e volante e de parar para dar passagem a pedestres. Como um crime desses atinge duas pessoas exemplares? No dia do atropelamento, elas tinham ido ao Shopping Villa-Lobos porque minha irmã pesquisava preços de passagens aéreas para a África. Ela, que era formada em direito, pediu exoneração do emprego no Tribunal de Justiça almejando mudar de vida, e passaria um tempo no continente africano, fazendo trabalho humanitário. Por que os preparativos para uma viagem tão nobre acabam assim? Se eu pensar nisso, se me concentrar na tragédia e cultivar a revolta, vou me destruir. A única saída é focar algo bom. E esse é um dos motivos pelos quais continuo morando na nossa casa, agora com minha namorada. Ali, tenho paz, porque sinto a presença delas. E isso me inspira para a batalha.”

Rafael Baltresca, 31 anos

Fonte: VEJA SÃO PAULO