Trânsito

Sem pistas do culpado

Veja o depoimento de Mirela Corradine, que perdeu o marido num atropelamento na Imigrantes, em 2 de outubro

Por: Daniel Bergamasco

Capa 2241 - Trânsito - Mirela
Mirela e a filha, Maria Eduarda: as duas testemunharam o atropelamento de William (no detalhe) (Foto: Mario Rodrigues / Arquivo de família)

“A morte de meu marido, atingido por um caminhão descontrolado na Rodovia dos Imigrantes, foi um horror tão grande que tenho dúvidas se um dia eu vou conseguir esquecer. Essa barbaridade aconteceu há um mês.

Era domingo, fim de tarde, e tínhamos passado o fim de semana na praia com a mãe dele, de 78 anos, e nossa filha, de 7. Um pneu do Fusca em que viajávamos se soltou no caminho e o William, sempre habilidoso, conseguiu parar com calma no acostamento, protegendo nossa vida. Quando o carro já estava em cima do guincho, e nos preparávamos para ir embora, veio esse motorista imprudente em cima de nós. Só me lembro que era um veículo basculante, da cor azul. Não foi possível anotarmos a placa. Passado o susto com o barulho, ensurdecedor, a cena era chocante: meu marido tinha sido esmagado. Na hora, não consegui nem me concentrar no que estava acontecendo, porque tive de segurar minha sogra para ela não se matar, atirando-se entre os carros. Minha filha ficou paralisada, em estado de choque.

Hoje, em casa, tenho ataques de pânico. Nada trará meu marido de volta, mas ainda fica a esperança de fazer justiça. Para ajudar nas investigações do caso, fui atrás da Ecovias, concessionária da Imigrantes, pedir imagens das câmeras de monitoramento de tráfego, que talvez possam identificar o condutor do caminhão. Não me forneceram, o que é desesperador, porque apagam a fita depois de trinta dias (procurada pela reportagem, a empresa afirmou que vai armazenar a gravação por mais tempo e orientar Mirela sobre como solicitá-la judicialmente).

Eu não desejo vingança. Quero apenas punição para que essa pessoa tome consciência de que destruiu uma família. Éramos nós três, além dos dois filhos do primeiro casamento dele. Não posso aceitar que aquilo tenha sido só uma fatalidade. Daquele jeito inconsequente, e com o caminhoneiro fugindo sem prestar socorro, trata-se de assassinato.”

Mirela Corradine, 42 anos

Fonte: VEJA SÃO PAULO