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A vida no abrigo da Cracolândia

Complexo Prates, no Bom Retiro, é o primeiro centro de tratamento a viciados que reúne albergue e clínica no mesmo espaço

Por: Mauricio Xavier

Vida no Abrigo da Cracolândia - Cidades 2268
V.A. e seu navio: cinco dias de construção e um mês sem drogas (Foto: Mario Rodrigues)

O carroceiro Felipe Mendes passou metade de seus 45 anos preso ao crack. Natural de Jacarezinho, no Paraná, ele é usuário desde 1992 e conheceu parte do Brasil por meio de centros de tratamento: já ficou internado em Curitiba (PR), Vitória (ES), Joinville (SC) e Cuiabá (MT). Há dois anos e meio em São Paulo, era um dos frequentadores mais assíduos da Cracolândia. V.A., de 29 anos, chegou a São Paulo no fim do ano passado e instalou-se em uma pensão na Mooca, Zona Leste, enquanto procurava trabalho. Acabou seduzido pela droga e, nos últimos três meses, chegou a gastar cerca de 150 reais por dia para sustentar o vício. Nascido em Batatais, no interior do estado, Ednilton Costa de Oliveira fugiu da casa dos pais aos 14 anos e passou a viver de esmolas na Praça da Sé. Em meio ao abuso de álcool e substâncias ilícitas, tornou-se uma espécie de “líder comunitário” da região. Começou a ajudar na organização de filas para a distribuição de comida na porta de igrejas e a aconselhar outros moradores de rua a não ceder à tentação das drogas, batendo na tecla “não faça o que eu faço”. Os três estão hoje entre os 82 moradores do Complexo Prates, o centro para tratamento de dependentes inaugurado há pouco mais de um mês na rua homônima, no Bom Retiro.

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Instalado em um terreno de 11.000 metros quadrados, o local representa a primeira iniciativa da prefeitura a reunir, numa mesma área, os dois serviços mais úteis a pessoas nessa situação: abrigo e atendimento médico. Para isso, duas secretarias passaram a atuar juntas. A de Assistência Social administra o centro de convivência e o alojamento, com 120 leitos. Sua capacidade ainda não foi plenamente atingida — existem 38 camas livres —, mas a procura é considerada boa. “O primeiro mês foi ótimo e o movimento deve crescer mais com a divulgação”, diz Alda Marco Antonio, vice-prefeita e secretária de Assistência Social. Já a de Saúde controla um espaço com atendimento clínico e psicológico. “Antes um usuário era recolhido na rua e medicado, mas depois sumia da nossa vista, porque o acolhimento ficava a cargo de outra área”, conta a coordenadora de Saúde Mental, Álcool e Drogas da Secretaria da Saúde, Rosangela Elias.

Além dos residentes fixos, o complexo tem atraído uma média de 130 visitantes diários em busca das atividades oferecidas das 8 às 22 horas no centro de convivência, um galpão com 3.200 metros quadrados e praticamente nenhuma parede, onde estão à disposição computadores, materiais para artes plásticas, uma biblioteca e uma quadra de esportes. Ali, o carroceiro Mendes dedica a maior parte de seu dia à confecção de esculturas de papel, geralmente cisnes. Também joga futebol e vôlei. O mendigo Oliveira prefere se ocupar com a leitura de livros de assistência social, ramo que o “interessa muito”. Já o desempregado V.A. passou uma semana construindo uma réplica de um galeão espanhol. “É inspirado no filme “Piratas do Caribe”, explica. Do lado de fora há ainda uma horta —onde os pacientes se apressam em plantar pimenta, para espantar o “mau-olhado”.

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Oliveira: busca por livros de assistência social (Foto: Mario Rodrigues)

Há um plano para a construção de outro espaço semelhante num prédio das redondezas, na Rua Helvétia, com atendimento psicológico, abrigo e uma unidade de desintoxicação. “Seria algo nos moldes do que é feito em Nova York e Londres, mas até hoje não tem prazo para sair do papel”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos maiores especialistas do assunto no país e idealizador do projeto. Um dos serviços pioneiros na cidade, o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria de Estado da Saúde, verificou um grande crescimento de atendimentos neste ano (veja os números abaixo).

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A horta: pimenta para combater o “mau-olhado” (Foto: Mario Rodrigues)

O centro da Prates tem ainda muitos desafios pela frente. Uma pesquisa realizada com 268 frequentadores mostrou que 51% deles foram até lá só para passar uma parte do tempo ou buscar uma refeição. O desejo de deixar o crack foi mencionado por apenas 6% dos entrevistados. Cerca de 200 agentes da Secretaria da Saúde atuam na Cracolândia nesse trabalho de convencimento dos dependentes. Desde a ocupação policial na região, o ritmo de abordagens ficou mais intenso. De janeiro para cá, a média diária foi de 298, 50% maior que a do período anterior à operação. O que ainda não resolve o problema, pois os usuários, antes concentrados nos mesmos pontos, espalharam-se para outras áreas da cidade. “Sabemos o nome de vários e eles também reconhecem a gente”, afirma a agente Fabiana de Oliveira dos Reis.

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O carroceiro Felipe Mendes, usuário há vinte anos: esculturas de cisne de papel (Foto: Mario Rodrigues)

A aproximação entre profissionais e dependentes não é tarefa simples e envolve regras bem específicas, como a de nunca ser realizada no momento em que o viciado estiver usando a droga, dormindo ou em locais de muita aglomeração. Em um turno de doze horas, cada agente conversa, em média, com cinquenta pessoas. “Já convenci seis a procurarem o Prates no último mês”, garante Katia Cristina Rodrigues dos Santos. 

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Fabiana e Katia: cada uma realiza uma média de cinquenta abordagens por dia (Foto: Mario Rodrigues)

Terapia à base de aquarelas

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Após o início da ocupação policial na Cracolândia, houve aumento de 196% na procura por atendimento (Foto: Mario Rodrigues)

Um dos serviços mais antigos da cidade, disponibilizado há dez anos pela Secretaria de Estado da Saúde na mesma Rua Prates, o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) teve um aumento de 196% na procura por atendimento após o início da ocupação policial na Cracolândia, em janeiro. Em 2011, cerca de 160 usuários eram recebidos por trimestre; neste ano, o número saltou para 474. “Depois da ação, vários pacientes antigos assumiram o problema de verdade”, diz a diretora Marta Ana Jezierski. Entre eles está o usuário P.F., de 50 anos. “Interrompi o tratamento sete vezes, mas agora a polícia me expulsou da rua e preciso levar a terapia a sério”, afirma ele, que pratica pintura (foto) e participa de reuniões do grupo Alcoólicos Anônimos. O Cratod tem computadores, jogos, livros, uma quadra e, desde 1º de março, funciona 24 horas por dia, com nove leitos. Vinte pessoas já pernoitaram ali.

ESPAÇO DE SOBRA

A unidade ainda está longe de atingir a plena capacidade

Centro de convivência

Capacidade/dia: 1.200 pessoas

Média atual: 130 pessoas

Albergue para adultos

Capacidade: 120 leitos

Lotação atual: 82 pessoas

Abrigo para menores

Capacidade: 20 leitos

Lotação atual: 12 adolescentes

Centro de Atenção Psicossocial

Capacidade/mês: 6.600 pacientes

Atendimentos: 325

Assistência Médica Ambulatorial

Capacidade/mês: 5.000 pacientes

Atendimentos: 1.448

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO