Comportamento

A São Paulo dos solteiros

De olho no filão dos solteiros, mercado tem serviços, produtos e atrações sob medida para os avulsos

Por: Fernanda Nascimento, Maria Paola de Salvo e Sara Duarte - Atualizado em

Balcão do restaurante Spot
Balcão do restaurante Spot (Foto: Fernando Moraes)

Sem olhares tortos na hora de comer

Ainda são poucos os estabelecimentos em que é possível sentar-se à mesa sem atrair olhares curiosos ou ser alvo de comentários do tipo: “Coitado, está comendo sozinho...” Com 38 anos e solteira há dois, a administradora de empresas Ana Paula Gatti sabe bem o que é isso. “As pessoas ficam cochichando umas com as outras”, afirma. “Parece que estamos sempre à espera de alguém para nos fazer companhia.” Há alguns restaurantes, no entanto, em que é possível se acomodar sem parecer um estranho no ninho. É o caso do japonês Kosushi, do Itaim, que tem mesas pequenas estrategicamente dispostas nos cantos da casa. Outro atrativo é o balcão, que, além de permitir comer de frente para o sushiman, dispensa a presença de um acompanhante e facilita a interação com quem está do lado. Lanchonetes como a New Dog e o restaurante Spot também têm esse perfil. As mesas coletivas, como no P.J. Clarke’s, no Itaim, são outra boa pedida para confortar os solitários.

Kosushi. Rua Viradouro, 139, Itaim Bibi, 3167-7272; New Dog. Rua Joaquim Floriano, 254, Itaim Bibi, 3168-7899; P.J. Clarke’s. Rua Doutor Mário Ferraz, 568, Itaim Bibi, 3078-2965; Spot. Alameda Ministro Rocha Azevedo, 72, Cerqueira César,3283-0946.

Na companhia de muitos

Para alguns, não há lugar melhor para curtir a solidão que o escurinho do cinema. Salas com programação consideradas cult são as preferidas. No HSBC Belas Artes, na Rua da Consolação, 30% dos frequentadores entram sozinhos nas salas, como a advogada Ana Cristina Bandeira, de 38 anos. Fã de filmes de suspense, ela quer assistir a Anticristo, de Lars von Trier, assim que tiver espaço na agenda. “É muito melhor do que encarar uma comédia romântica com as amigas”, diz. Já o terapeuta Joelson Ferreira, de 29 anos, solteiro há um ano e meio, aposta em cursos, encontros e palestras sobre meditação e filosofia. Ele recomenda o Instituto Ser Humano, na Vila Madalena, e a Associação Palas Athena, no Paraíso. “Nesses locais, são grandes as chances de encontrar pessoas com os mesmos interesses que o meu”, afirma. “É muito mais fácil se aproximar.” Outro programa que faz sucesso é começar o dia com um café da manhã caprichado fora de casa. Prin­ci­palmente nos fins de semana, lugares como o café Santo Grão e as padarias Vila

Grano e Dengosa costumam ferver

Associação Palas Athena do Brasil. Rua Leôncio de Carvalho, 99, Paraíso, 3266-6188; Dengosa Pães e Doces. Rua Melo Alves, 281, Jardim Paulista,3061-2919; HSBC Belas Artes. Rua da Consolação, 2423, Consolação, 3258-4092; Instituto Ser Humano. Rua Natingui, 558, Vila Madalena, 3034-4612; Santo Grão. Rua Oscar Freire, 413, Jardim Paulista, 3082-9969; Vila Grano. Rua Wizard, 500, Vila Madalena, 3031-6636.

Na balada dos avulsos

Ninguém precisa passar o fim de semana afundado no sofá em frente à TV só porque não encontrou amigos para sair. Com um pouco de coragem e muita animação, dá para cair na noite e se divertir mesmo sem fazer parte de nenhuma rodinha. Depois de uma temporada nos Estados Unidos, o músico Flavio Bittar, de 25 anos, voltou ao Brasil e encontrou todos os antigos parceiros de noitada comprometidos. Nem por isso fica recluso. “Não ligo de ir desacompanhado a um show, uma balada ou mesmo a um parque de diversões”, diz. “Sempre faço amizade”. Lugares com música ao vivo, como o Ó do Borogodó e o Canto da Ema, ambos em Pinheiros, são boas opções para os pés-de-valsa. Casas com banquetas junto ao bar, como o Balcão, nos Jardins, e o Filial, na Vila Madalena, são ideais para quem gosta de interagir enquanto toma um chopinho. Para os mais tímidos, as opções são o Jazz nos Fundos, em Pinheiros, e o CB Bar, na Barra Funda, com seus ambientes com iluminação baixa. Se nenhuma dessas alternativas agradar, o jeito é reunir os amigos e organizar a própria festa, como costuma fazer a relações públicas Luciana Sabbag, de 26 anos. Sozinha desde 2007, ela divide sua experiência com os internautas no site Diário de Solteiro e no blog A Melhor das Intenções. No último dia 18, conseguiu reunir 620 pessoas em uma balada só para não-comprometidos na Trash 80’s do centro. Todos foram recrutados por meio do Twitter, onde Luciana tem 1.900 seguidores. “Hoje em dia, não existe idade certa para casar e ninguém fica te chamando de encalhada”, afirma.

Balcão. Rua Melo Alves, 150, Jardim Paulista, 3063-6091; Canto da Ema. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 364, Pinheiros, 3813-4708; CB Bar. Rua Brigadeiro Galvão, 871, Barra Funda, 3666-8971; Filial. Rua Fidalga, 254, Vila madalena,3813-9226; Jazz nos Fundos. Rua João Moura, 1076, Pinheiros, 3083-5975; Ó do Borogodó. Rua Horácio Lane, 21, Pinheiros, 3814-4087.

Em busca do ninho perfeito

Faltam imóveis de um e dois dormitórios na cidade. Somente na imobiliária Lello, uma das maiores de São Paulo, há uma fila de 2 000 pessoas atrás de um apartamento de 50 a 70 metros quadrados para alugar. Mas novas incorporadoras têm se especializado em construir edifícios para solteiros. “Nesses empreendimentos, churrasqueira na varanda, salão de festas e área de serviço com quarto de empregada são absolutamente dispensáveis”, afirma Otávio Zarvos, da Idea! Zarvos. José Paim, da MaxHaus, diz que os jovens que vivem sós priorizam o conforto e o design. “Ninguém quer morar em um apartamento igual ao de seus avós”, explica. En­­quanto não encontra um imóvel com a sua cara, o médico radiologista Ernesto Alves, 32 anos, está morando em um flat na Vila Nova Conceição. “Sonho em comprar um loft ou então um apartamento de três quartos em que eu possa derrubar paredes e ter bastante espaço”, diz.

Sozinho na estrada

Segundo a agência de viagens CVC, dos 1,7 milhão de passageiros que embarcaram pela empresa no último ano, 25% eram solteiros. Pensando nesse segmento, a empresária Yolanda de Oliveira criou a agência de viagens Terrazul, que atende só os desacompanhados. Nos últimos nove anos, a empresa registrou um crescimento de 30% na procura por esse serviço. “A nossa proposta não é formar casais, mas sim reunir pessoas que querem viajar sozinhas”, diz Yolanda. “Mesmo assim, saíram muitos casamentos.” Uma caminhada durante o dia em regiões praianas ou nas montanhas sai por cerca de 100 reais. Já uma viagem de dezoito dias para a Europa com passagens aéreas e hospedagem pode custar 7 000 reais. Com 25.000 solteiros cadastrados, a agência ainda promove reuniões, como jantares ou idas ao teatro. Além de servir para o reencontro de turmas que viajaram juntas, os programas evitam que muita gente fique em casa sem companhia para sair. Terrazul Turismo,3081-8958.

Produtos sob medida

De alguns anos para cá, fabricantes de alimentos e redes de supermercados têm se esmerado em criar opções para consumidores que moram sozinhos. Além de caixas com meia dúzia de ovos e bandejas contendo dois ou três bifes, há pacotes de torradas ensacadas de duas em duas, feijão temperado e cozido em embalagem longa-vida e pedaços de pizza congelada vendidos por unidade. Hoje, cerca de 5% dos 20 000 produtos comercializados nas lojas da rede Pão de Açúcar vem em porções individuais. “Em pontos como o da Avenida Angélica e o do shopping Iguatemi, dois terços dos clientes são solteiros entre 20 e 40 anos”, justifica João Edson Gravata, diretor de operações da rede. Entre eles está Fúlvia Grola, de 22 anos, estudante de direito na Fundação Getúlio Vargas, que costuma ir ao supermercado tarde da noite. “Procuro comprar frutas, refeições prontas e alguns aperitivos para receber amigos em casa”, diz. “Tudo em porções pequenas, para não estragar.” De acordo com uma pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Toledo Associados, os solteiros vêem na compra fracionada uma forma de evitar desperdícios e não se importam em pagar mais por produtos nesse formato. Prova disso é que na Casa Santa Luzia, nos Jardins, dois sucessos de vendas são os vinhos em meia-garrafa (375 mililitros) e as refeições individuais feitas diariamente na rotisseria. “Desenvolvemos dez diferentes opções de pratos, que incluem uma carne ou peixe e mais dois acompanhamentos”, afirma a sócia Ana Maria Lopes. “Por mês, chegamos a vender 3 500 desses kits, que custam de 13 a 30 reais.”

Help Personal, Amigo de Aluguel...

Está precisando de uma ajuda nos afazeres domésticos? A Help Personal Assistant cobra 70 reais por hora para arrumar armários, fazer compras e treinar funcionários domésticos. “Se o cliente quer receber amigos em casa, podemos providenciar os comes e bebes”, explica a diretora da empresa, Heloísa Sundfeld. Pelo mesmo valor, o faz-tudo Valdir José Peres, mais conhecido como Marido de Aluguel, se dispõe a trocar lâmpadas, desentupir ralos, pendurar quadros... “Atendo até oitenta chamados por mês, a maioria deles para instalar varais de teto.” Agora, se o problema for solidão, o jeito é chamar os Amigos de Aluguel. Formado por jovens de 21 a 27 anos, o grupo cobra 100 reais por hora para acompanhar solteiros ao cinema, teatro, shopping ou viagens. “Muitas mulheres nos chamam para desabafar e falar do ex-namorado”, afirma o ator Pablo Diego, integrante da turma.

Amigos de Aluguel, www.amigosdealuguel.com.br; Help Personal Assistant,3828-1917; Marido de Aluguel, % 3924-2032.

Fonte: VEJA SÃO PAULO